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Trump, cinema e liberais

8 de março de 2016 - 0:09:18

 


Olavo de Carvalho
: Trump tem NEGÓCIOS com os russos. Não vejo como tirar daí nenhuma conclusão significativa.

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O presidente do México reclama que o muro do Trump vai atrapalhar “a integração norte-americana”. Bem, esse é mesmo o espírito da coisa.

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Desde o início os porta-vozes do establishment bombardearam o Trump com acusações pessoais para depois reclamar que nos debates só se discute a pessoa do Trump em vez dos problemas nacionais.

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Ainda acho que o Donald Trump é o único candidato republicano viável e que, se eleito, pode vir a ser um grande presidente, INCLUSIVE por sua experiência de negócios com a Rússia. Repito: só o seu próprio partido pode derrotá-lo.

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Se o Trump trabalhasse para os russos, o establishment o estaria cobrindo de afagos como faz com o Obama. Isso é o óbvio dos óbvios. Sondar “conexões” pode ser desastroso quando se perde de vista o quadro maior.

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A única cena que presta em “The Revenant” é o ataque da ursa — realista e tecnicamente exato. No mais, nunca ouvi tanto gemido num filme só (com exceção dos pornográficos), nem vi cenas de miséria física e sujeira tão longas e sem função dramática nenhuma. É uma pena desperdiçar um ator bom como Leonardo di Caprio com um diretor tão chinfrim.

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É um princípio elementar da arte narrativa que a dor física mostrada de maneira direta, literal e insistente só enche o saco. O sofrimento do corpo comove menos por si mesmo do que pelas suas repercussões na existência do personagem. A cena famosa em que Ronald Reagan exclama “Onde está o resto de mim?” dura dois segundos, mas toca o coração da platéia mil vezes mais fundo do que todos os grunhidos sem fim do Leonardo de Caprio.

Pedro Esquerdo Qual filme do Ronald, professor?
Olavo de Carvalho
Pedro Esquerdo “Kings Row”(1942).

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A cena de “Papillon” em que o velho prisioneiro implora ao recém-chegado “Diga como é o meu rosto, não consigo mais me lembrar dele” provoca mais arrepios na espinha do que mil vampiros com dentes gotejando sangue.

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Tem um sujeitinho aí, cheio de pseudônimos, que desce o porrete no Caraio Rossi, nos Veadascos e similares, mas me nivelando a eles. Para mim, é óbvio que é um deles mesmos. Como não têm nenhuma reputação a preservar, não hesitam em cagar em si próprios na esperança de que a merda respingue em mim.

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A cena de “O Falso Traidor” em que William Holden, preso no subterrâneo de uma prisão nazista, vê pela janelinha a namorada sendo fuzilada e grita o nome dela, caindo em seguida num silêncio prostrado, toca muito mais a platéia do que esses atores e personagens histéricos que, com o cadáver da amada entre os braços, olham para o céu e gritam um “Nooooooooooooo!” que ribomba no horizonte e não acaba mais.

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Uma das minhas cenas prediletas no cinema é aquela em que Alan Ladd faz um pintor casado com uma mulher doida, que um dia, quando ele viaja, destrói todos os seus quadros. A cara de “meu mundo caiu” que Ladd faz sem mover um músculo é um grande momento de um ator que, no mais, nada tinha de genial.

Olavo de Carvalho Esqueci o nome da porra do filme.

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Um diretor bom pega qualquer zé-mané na rua e o faz representar como se fosse Sir Lawrence Olivier. Rossellini fazia isso. Um diretor bunda se mela mesmo tendo Leonardo di Caprio à sua disposição.

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Por que o sofrimento corporal, em “A Paixão de Cristo”, funciona? Vocês notaram como as expressões de dor do Jim Caviezel são discretas, sutis, comedidas? A ênfase, ali, não está na dor enquanto tal, mas no contraste entre a humilhação brutal e a nobreza divina do Corpo de Cristo. É um efeito dramático, não um exibicionismo fisiológico.

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Em “the Revenant”, para completar a miséria. só faltou o personagem cagar. Foi uma distração do diretor.

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Sobre uma dica do Rodrigo Antunes: Os Veadascos tinham razão ao dizer que a guerrinha que empreendiam contra mim os expunha ao martírio e à morte: Eles, Bagos, Porcões e tutti quanti são pilotos kokomikazes.

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Em “The Revenant”, os únicos e vagos sinais de algum aprendizado espiritual nas experiências do Sr. Glass são os chavões de sempre sobre a sabedoria indígena. A palavra “Jesus” reduz-se a um expletivo e a frase “A vingança é minha, diz o Senhor” — aprendida, como não poderia deixar de ser, de um índio — não é uma intuição moral nascida do sofrimento, é apenas um comentário verbal à feliz coincidência do encontro com os índios que estavam em busca do mesmo assassino. O filme avilta o sofrimento humano, reduzindo-o uma experiência fisiopatológica descrita com detalhes de Grand Guignol. Glass e o índio mastigando carne de bisão crua bem ao lado de uma fogueira rebaixam o trágico ao tragicômico involuntário, e daí por diante a única razão que você tem para continuar sentado na poltrona do cinema é que ainda restam muitas pipocas no balde.

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Nem os caiçaras mais pobres, incultos e primitivos que conheci na mata de Cananéia durante o Recenseamento Escolar nos anos 60 do século passado eram tão sujos e porcalhões quanto os personagens de “The Revenant”. O diretor deve ter feito cursinho de escrotidão com o Maestro Chupa Bagos.

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Não é que esse pessoal de Hollywood não saiba mais fazer um filme. Eles já não sabem nem JULGAR um.

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Se você quer um filme fisicamente nojento, mas repleto de sentido moral (ao contrário de “The Revenant”), veja “Bone Tomahawk”, com Kurt Russell. E se quer o sentido moral sem escrotidão fisiológica, veja “Forsaken”, com Donald e Kiefer Sutherland (pai e filho fazendo os papéis de pai e filho).

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Bons tempos aqueles em que a onda de Hollywood era sexo. Agora é comida estragada, gangrena, tumores supurados, narizes arrancados e pedaços de gente espalhados no chão.Hollywood, como Michel Foucault, superou o sexo. Descobriu um barato mais excitante.

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Não se preocupe com a invasão de zumbis. Ela já aconteceu e a gente nem reparou.

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O vício mais velho e constante do pensamento liberal é a confusão entre ideais e realidades. O típico liberal entende a política como um conflito de interesses regulado por normas consensuais, que vão desde a Constituição, as leis eleitorais e o código penal até as regras de polidez. A política, nesse sentido, exclui toda forma de violência ou brutalidade, não só física como até verbal. Mas a política É isso por essência, de maneira universal e constante? Obviamente não. Por toda parte observa-se a resolução de conflitos políticos por meio da guerra civil, do genocídio, da corrupção, do assassinato de reputações etc. O liberal, portanto, toma como definição objetiva o que é na verdade apenas a expressão de um ideal e desejo. Quando ele diz “a política”, deveria dizer “a boa política, no meu enteder”. Pior: esquece que, nos raros casos em que esse ideal chegou a realizar-se, foi por meio de algum tipo de violência inaugural que instaurou o reino da convivência pacífica por meio da liquidação física dos inimigos da nova ordem. O belo modelo anglo-saxônico, no qual com freqüência os liberais tão deleitosamente se inspiram, jamais teria se implantado sem a Guerra de Independência, nos EUA, e o morticínio estatal dos católicos, na Inglaterra. Na realidade histórica, a política só pode ser descrita objetivamente mediante uma inversão da fórmula de Clausewitz: não é a guerra que é uma continuação da política por outros meios, mas sim a política que é uma continuação da guerra por outros meios, quando não pelos mesmos. A política PODE, em certos casos, apoximar-se daquilo que o liberal quer e imagina que ela seja, mas, quando isso acontece, é no mais das vezes por meios opostos e hostis a esse mesmo ideal.

Essa inconsistência de base pode levar mesmo os melhores cérebros liberais a desatinos cômicos. Darei exemplos mais tarde.

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Se a política É efetivamente alguma coisa, isto é, se tem alguma consistência ontológica como aspecto da realidade, então é forçoso reconhecer que a má política é tão política quanto a boa, isto quando não é mesmo uma condição para que a boa se realize.

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Um professor liberal a quem muito aprecio, e cujo nome por isso mesmo omitirei, declarou outro dia que a violência verbal nas discussões políticas no Brasil chega a ser uma espécie de canibalismo. Mas haverá violência verbal maior do que chamar de “canibal” quem não se enquadre no modelo de discussão política que achamos desejável?

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Os marxistas têm o mais profundo desprezo pelo modelo da política bem arrumadinha, humana e polida que encanta a mente liberal, mas sabem usar esse modelo como camisa-de-força para aprisionar o adversário na malha das suas próprias contradições. Todo o “politicamente correto” é um ardil desse tipo.

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Heitor de Paola, Cliff Kincaid e Jeffrey Nyquist são apenas três dentre inumeráveis exemplos de amigos queridos com os quais volta e meia tenho alguma divergência. Bastam esses casos para demonstrar que o mantra “O Olavo não tolera divergências” é apenas um chavão difamatório ao qual ninguém recorre por boa intenção. Divergências sérias são bem recebidas, porque nascem de diferentes interpretações possíveis e razoáveis de fatos que, na pasta instável e dúctil do processo político, ainda não chegaram ao desenvolvimento suficiente para exibir seu sentido com toda a clareza. Muito diferentes são as ranhetices e fantasias de semi-anafabetos que chamam de “opinião” o que é apenas a expressão tosca de ojerizas e manias. Com estes, é TOLERÂNCIA ZERO.

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A coisa mais idiota que um cérebro humano pode fazer, e que muitos brasileiros acham a mais alta realização intelectual possível, é pensar tudo em termos de “pró” e “contra”. Por exemplo: sou liberal ou antiliberal? Na medida em que compartilho dos ideais liberais, sou liberal. Na medida em que não os confundo com a realidade, sou antiliberal. Não vejo como resolver essa contradição, porque ela não está em mim e sim na própria mente liberal tal como a enxergo.

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Em “Conhecimento e Política”, seu primeiro livro, que é o melhor da sua produção e na verdade o único que merece ser lido, o dr. Roberto Mangabeira Unger faz também um exame crítico da mente liberal, mas confundindo, o tempo todo, política liberal com idéias liberais, ou seja, exemplificando na sua própria pessoa os vícios que enxerga na mente liberal. O “e” no título do livro expressa uma síntese confusa e não a distinção que parece prometer.

 

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