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O Egito e a Etiópia conseguirão compartilhar o Nilo?

8 de março de 2016 - 15:58:53

Esse dilema pode parecer um exagero, mas a ameaça é verdadeira. O Egito se sobressai por ser o país com a maior população correndo risco e, diferentemente do Iraque e do Iêmen, com o problema hidrológico existencial mais grave.

Como todo colegial sabe O Egito é uma Dádiva do Nilo e o Nilo é de longe o maior rio do mundo em extensão. O que menos pessoas sabem é que o grosso do volume do Nilo, 90%, vêm das regiões montanhosas da Etiópia e que o rio atravessa 11 países. Por incontáveis milênios suas águas fluíram em direção ao Egito em enorme volume.

Em 1929, o governo britânico, representando o Egito, assinou um acordo com o governo independente da Etiópia, que assegurava um fluxo anual de 55,5 bilhões de metros cúbicos (bcm) de água para o Egito. Considerando um consumo mínimo de 1.000 m3 per capita ao ano (a média mundial é de 7.230 m3),* o volume era mais do que o suficiente para os 15 milhões de egípcios daquela época.

Nos 87 anos seguintes a população do Egito cresceu seis vezes atingindo os 90 milhões de hoje. Somando aos 55,5 bcm do rio, o Egito recebe cerca de 5 bcm de fontes subterrâneas não renováveis e 1,3 bcm das chuvas, totalizando aproximadamente 62 bcm ao ano, ou seja, um terço a menos do que as necessidades mínimas do país. Além disso, os egípcios reciclam mais ou menos 10 bcm do escoamento da água usada na agricultura, esta, com alta concentração de poluentes (resíduos de fertilizantes e inseticidas) acaba matando a terra por causa da salinização. Exacerbando a escassez, as altas temperaturas do Egito elevam os índices de evapotranspiração, impondo a necessidade de mais água para a agricultura se comparado a regiões de clima mais frio.

Esse déficit de água se traduz na necessidade de importação de alimentos e atualmente o Egito precisa fazer empréstimos para importar alarmantes 32% de suas necessidades de açúcar, 60% de milho, 70% de trigo, 70 de grãos, 97% de óleo comestível e 100% de lentilhas. A premência da importação ficará mais pesada com o passar do tempo, estimando-se que a população do Egito atingirá 135 milhões de habitantes em 2050, o país necessitará anualmente de 135 bcm e, baseado nas premissas atuais, o déficit de água mais do que dobrará atingindo 75 bcm.

Piorando ainda mais a situação, os etíopes acordaram recentemente para o fato de que enormes volumes de água deixam seu território sem lhes conferir nenhum benefício. Consequentemente, eles começaram a construir uma malha de barragens, culminando com a do pomposo nome Grande Barragem da Renascença Etíope (GERD).

A Grande Barragem da Renascença Etíope (GERD), em construção, já praticamente concluída, causou grande consternação no Egito.

Conforme o planejamento, o lago formado pela barragem irá armazenar 74,5 bcm, outros 5 bcm serão perdidos através da infiltração e mais 5 pela evaporação. Quatro barragens suplementares rio acima para reduzir o assoreamento irão reter outros 200 bcm. Cônscios de que 86% da água do Egito se origina na Etiópia, especialistas egípcios concluíram, e com toda razão, que os 55,5 bcm destinados ao país não serão disponibilizados. Nader Noureddin, professor de ciências do solo e da água na Universidade do Cairo, acredita que as barragens estão colocando “em perigo a vida de 90 milhões de egípcios”. (A maioria das estatísticas, nesta análise, deriva do trabalho de Noureddin).

A resposta dos etíopes: não há porque se preocupar, tudo vai dar certo, a alocação prometida e mais ainda chegará ao Egito. Apesar disso, quando Cairo protesta, Addis Abeba concorda com um estudo após o outro, mesmo em meio à frenética construção da GERD, que está programada para iniciar as operações em 2016, armazenando inicialmente 14 bcm.

O potencial de destruição é enorme, em 2013 durante a era Mohamed Morsi, os detentores do poder egípcios, equivocadamente, espalharam boatos sobre seus planos militares com respeito a forças especiais, caças e grupos rebeldes para lidarem com a GERD (sombras da ópera Aïda). Atualmente Morsi está preso, mas essas ideias proporcionam um insight no desespero egípcio.

O Presidente Morsi preside um encontro transmitido pela televisão em junho de 2013 no qual políticos egípcios debatem sobre a viabilidade de tomar medidas agressivas para paralisar as obras das barragens na Etiópia.

No fundo, a confrontação em torno do Rio Nilo depende das diferentes leituras sobre a posse das águas. Países que se encontram rio abaixo como o Egito apontam para a imemorial natureza dos rios fluindo através das fronteiras. Países rio acima como a Etiópia apontam para a água pertencendo a eles assim como o petróleo pertence aos árabes. Aqui não há certo ou errado, a solução requer acordos criativos (por exemplo, diminuindo a altura dos diques da GERD), permitindo que os etíopes se beneficiem das águas sem colocar os egípcios diante de uma catástrofe.

No curto prazo são necessários estadistas para evitar um desastre. No longo prazo, os egípcios precisam aprender a gerir os recursos hídricos de maneira mais inteligente.

* Vários leitores ressaltaram que a cifra citada acima de 7.230 m3 por pessoa ao ano é demasiada alta. Por exemplo, um artigo de 2007 no Water Resources Management constata que o consumo médio mundial de água é de 1.240 m3 por pessoa ao ano. A cifra mais alta baseia-se no artigo de Nader Noureddin no jornal Al-Ahram mencionado no texto acima. Peço desculpas por esse equívoco. DP

O Sr. Pipes (DanielPipes.org, @DanielPipes) é o presidente do Middle East Forum, que dependia das águas do Nilo por três anos quando residia no Cairo. © 2016 por Daniel Pipes. Todos os direitos reservados.

Publicado no Washington Times.
Original em inglês: Can Egypt and Ethiopia Share the Nile?
Tradução: Joseph Skilnik