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Estado e unidade nacional, Reinaldo Azevedo, Brasília, liberalismo e a “open society”

2 de junho de 2016 - 20:10:34

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Faço aqui, mutatis mutandis, uma analogia com o que Eric Voegelin observou sobre o Estado alemão nos anos 30 do século passado. Os modelos de convivência e associação vigentes na sociedade civil determinam a estrutura real do poder de Estado, independentemente das normas legais consagradas oficialmente. Ou estas últimas refletem aqueles modelos, e aí temos uma sociedade política funcional, ou se sobrepõem a eles como um verniz, encobrindo sob uma camada de adornos jurídicos as relações reais de poder. Neste caso, tudo na vida política é farsa e língua dupla, às vezes sem que os personagens envolvidos se dêem plena conta disso. O deslocamento entre a racionalidade aparente do discurso político e a substância dos fatos traduz-se em ineficiência administrativa e corrupção, e a revolta popular contra os maus governantes, ao expressar-se na linguagem institucional vigente, erra o alvo por muitos metros, apegando-se a soluções aparentes que, no fim das contas, agravam a situação.

Um breve exame dos modelos de convivência existentes na sociedade brasileira revela comunidades atomizadas, onde cada um age de maneira imediatista, sem ter a menor consciência dos efeitos das suas ações sobre os seus próximos e às vezes nem sobre o seu próprio futuro. A mesma conduta observa-se em grupos formados por interesses corporativos, sem muita noção do seu papel na sociedade como um todo e na convivência com outros grupos (os professores são o exemplo mais enfático: defendem bravamente os seus interesses de classe sem sentir-se, no mais mínimo que seja, responsáveis pelos efeitos devastadores que a educação que fornecem produz sobre os seus alunos). Um senso de unidade popular só aparece na dissolução dos indivíduos na massa carnavalesca alucinada, e um rudimento de identidade nacional nos campeonatos de futebol.

Não é de espantar que, por baixo do belo quadro institucional e de todos os discursos, a política não passe da disputa animal entre interesses grupais e corporativos, ora sob o pretexto dos direitos humanos e da igualdade, ora sob o da legalidade e da ordem, conforme os agentes se considerem “progressistas” ou “liberal-conservadores”. Mas até os pretextos são intercambiáveis, conforme as conveniências do momento. A linguagem dos debates públicos não serve para descrever a situação, mas para “dar impressão”.

Um princípio de identidade nacional, o sinal da emergência de um autêntico povo brasileiro apareceu nas manifestações de protesto a partir de março de 2015, mas logo a energia ali reunida foi desviada para as “soluções institucionais” em favor da elite política e da “pacificação nacional”. Pela enésima vez a elite salvou-se pela mágica da “conciliação”, repetindo o mecanismo tão bem descrito em dois clássicos dos estudos brasileiros, A Consciência Conservadora no Brasil, de Paulo Mercadante, e Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro. A linguagem do fingimento, ameaçada por uns instantes, restaurou-se triunfalmente, sufocando uma vez mais a realidade.

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Eric Voegelin diz que na Alemanha o apelo à “raça” surgiu como substitutivo de uma identidade nacional inexistente e fez sucesso justamente porque parecia preencher uma lacuna. Mas é impossível haver uma unidade nacional fundada na pura biologia.

No Brasil, uma unidade nacional pareceu emergir em quatro momentos da nossa História: a guerra do Paraguai, o governo Getúlio Vargas (com a II Guerra Mundial, a campanha “O Petróleo é Nosso” e a promoção governamental do Rio de Janeiro a símbolo condensado do país) e os movimentos de protesto a partir de 2015. Em todos esses casos o fundamento escolhido era temporário, ou então, pior ainda, baseado na pura geografia.

Uma verdadeira unidade nacional nasce quando as formas de associação e convivência reais da sociedade civil de consolidam em instituições e leis, como o senso comunitário da América colonial se consolidou na Declaração da Independência, na Constituição e no Bill of Rights, ou como, na Inglaterra, as relações tradicionais entre o povo e o “gentleman farmer” se consolidaram nas formas do Direito consuetudinário.

Quando há um hiato, para não dizer um abismo, entre as formas de associação popular e a esfera das instituições, a sociedade política não tem verdadeira representatividade, vive de fingimento em fingimento e de crise em crise, até que apareça algum substitutivo forçado da ordem faltante (por exemplo, o mito da raça superior ou o mero senso da propriedade territorial, o “nosso petróleo”).

Se, por seu lado, as formas populares de associação são toscas e não fornecem base suficiente para uma ordem institucional fundada nelas, então o problema se agrava formidavelmente.

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Quem fez o meu curso de Teoria do Estado, ou assistiu a qualquer das muitas aulas que dei sobre o assunto no COF, sabe que o poder intelectual é indireto, sutil, de longo prazo e desprovido de qualquer controle sobre os seus efeitos histórico-sociais. Assim foi a minha ação sobre o meio social brasileiro durante um quarto de século. Mudei completamente a atmosfera cultural, e um dos efeitos impremeditados, mas até certo ponto previsíveis, foi o surgimento de aproveitadores da ocasião, profissionais do mero antipetismo, como Ruinaldo Azevedo e Luciano Aymeuanus. Cumpriram seu papel e estão se jogando a si próprios no lixo, como camisinhas usadas. É normal que, incapazes de conceber sequer o que seja a ação profunda na esfera da cultura, imaginem que desejei liderar algum movimento político. Eu não lidero movimentos políticos: eu crio a possibilidade de que eles existam, e em seguida os deixo na mão dos interessados.

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A economia JAMAIS é a meta de uma política, assim como a pura subsistência não é por si a meta de nenhum ser humano. A economia é a conquista (ou destruição) de MEIOS DE AÇÃO, e a política se define pelo resultado a que a ação visa, isto é pelo modelo de ordem ético-cultural a ser implantado. Por exemplo, Abraham Lincoln adotou uma política econômica centralizadora e estatista para assegurar a continuidade de União contra a autonomia dos Estados. Mussolini, para fomentar um nacionalismo belicoso e militarista. Stalin, para criar o “novo homem socialista”. Uma mesma política econômica pode servir a fins totalmente diferentes, e estes fins são sempre da ordem dos valores (ou antivalores) ético-culturais.

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Só um cretino não percebe as tremendas implicações políticas da campanha ruinaldiana contra mim.

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SÓ PICARETAS usam os termos “fascista”, “extrema direita”, “fundamentalista”, “esquerdista” etc. como insultos. Ou discutimos a sério, usando conceitos descritivos objetivamente fundados, ou a conversa não passará de exibicionismo histérico. Cá entre nós, o Reinaldo Azevedo não tem A MENOR IDÉIA do que sejam essas categorias das quais ele usa e abusa como se fossem plumagens decorativas de um vácuo intelectual deprimente.

Todo o talento dele consiste em fazer insultos pontuais com base em notícias que leu na mídia e das quais não descobriu nenhuma. Às vezes os insultos são justos e oportunos, por mera coincidência: afinal, no caso de um partido ostensivamente ladrão não é preciso nenhuma genialidade analítica para acertar a mão na ferida. O simples fato de ele querer se fazer de superior a mim já mostra sua total incapacidade de apreender a situação objetiva, quanto mais de descrevê-la. Temos aí, de um lado, a croniqueta jornalística das miudezas do dia, de outro lado uma revolução cultural, a criação de novas categorias de pensamento, o despertar de tantas inteligências, a introdução de milhares de obras e autores num quadro que os desconhecia por completo, o trabalho educativo que já inspira tantos talentos filosóficos, literários e pedagógicos que de outro modo teriam sido abortados. A desproporção é, objetivamente, MONSTRUOSA. Compensá-la ou neutralizá-la mediante bolhas de sabão verbais preenchidas de ódio impotente é empreendimento que só mesmo uma mente caquética ousaria tentar.

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Nivelar-me ao sr. Reinaldo Azevedo, como se fôssemos concorrentes, foi talvez o mais grave insulto que já recebi na minha vida, e o fato de que tantos o façam é por si mesmo um sintoma do estado deplorável da mente brasileira. Uma cultura incapaz de distinguir entre o estudo filosófico da realidade social e a mera crônica jornalística está fadada a desaparecer se não sofrer uma intervenção drástica, com a poda implacável de todas as cabeças ocas.

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<Até agora, já são SETE artigos que o Ruinaldo Azevedo publica contra mim, ecoando-os no seu programa de rádio, e sendo respondido, no máximo, com algumas breves notinhas no Facebook. Por que é a mim que vêm dizer para “parar com a briga”?

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Algum deputado se disse inspirado em Reinaldo Azevedo ao votar a favor do impeachment?

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Com meio século de experiência no jornalismo, asseguro: nenhum articulista pode, numa revista ou jornal, criticar outro articulista do mesmo órgão de imprensa sem expressa autorização do patrão. O silêncio do Felipe Moura Brasil no caso Ruinaldo Azevedo nada tem de condenável.

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Segundo o Reinaldo Azevedo, virei fã da Dilma e anseio pela volta da dona ao trono presidencial. E quem tem problema químico cerebral sou eu, naturalmente.

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Segundo Reinaldo Azevedo, o fim do mundo só poderá ser decidido em eleição democrática. Caso contrário, o colunista da Veja dará pulinhos de indignação, gritando:
— Non serviam! Pronto, falei!

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Quem fez carreira de antipetismo, sem mais nada a oferecer ao público, morre junto com o PT. Em que é que o fim do PT — ou de qualquer outro partido político — afeta “O Jardim das Aflições”, “Aristóteles em Nova Perspectiva”. “A Filosofia e seu Inverso”, “Visões de Descartes” ou as trezentas e tantas aulas do COF? Ruinaldo e Aymeuanus ouvem soar o sino do seu próprio enterro e se agitam no caixão gritando que o cadáver sou eu.

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Documentos essenciais:
http://www.dossieursal.com/

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Esse negócio de me chamar de vampiro é fantasia sexual.

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Reinaldo Azevedo em 25 de maio:
“Tenho muitos empregos.”
Reinaldo Azevedo em 30 de maio:
“Desde 1996, não sou empregado de ninguém.”
Qual é?

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Gabriel Schaf: “Para encerrar: se Cristo descer amanhã à terra e reivindicar o direito de governar e decidir acima dos códigos democraticamente pactuados, direi não! É claro que Cristo não faria isso. E, se o fizesse, Cristo não seria, mas o capeta disfarçado de nazareno.” (Reinaldo Azevedo)

OBS. Jesus Cristo é Rei por autodeterminação desde a criação do mundo. Não é um presidente democraticamente eleito. Entre o Reino de Cristo e a democracia, Reinaldo opta pela democracia. Isso já diz tudo. O Cristo dele é um José Serra celeste.

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É bom deixar claro desde logo: Reinaldo Azevedo é bom para repetir notícias e acrescentar-lhes alguns adjetivos enfáticos. Nada mais. Análises mais profundas, ele nunca fez nenhuma, nem tem capacidade para fazer. Nem insultos ele é capaz de inventar. Copiou tudo do Janer Cristaldo, do Rodrigo Constantino, dos Veadascos, da bispa Macedo e do Maestro Bagos. Tal é o seu horizonte literário.

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A maior e única invenção literária do sr. Reinaldo Azevedo foi o termo “petralha” — uma iluminação intelectual que ele recebeu do Mickey Mouse.

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Pergunta e resposta:

Rodrigo Evaristo Silva: O Sr. Reinaldo Azedo e o Sr. Luciano Ayan estão dizendo que o senhor deseja a volta do PT ao governo para que a renda do senhor não diminua. Tem base isso ?

Olavo de Carvalho: Uai, quem viveu de puro antipetismo não fui eu. Sempre tive coisa mais substantiva para oferecer aos meus leitores e alunos. Ruinaldo e Aymeuanus é que, sem o PT, são devolvidos à sua verdadeira estatura e já nada têm a dizer. Eu sou filho das minhas obras, eles são filhos da ocasião. Todo mundo percebe isso. Eles, aliás, também. E dói, né?

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Uma diferença essencial entre a minha pessoa e a do RA: eu passei por várias escolas e correntes de pensamento, absorvendo-as a superando-as, e só me tornei “formador de opinião” na idade madura, quando algumas conclusões do longo aprendizado começaram a se estabilizar. O RA não passou por escola ou corrente alguma, não absorveu nenhuma, não teve experiência intelectual nenhuma além das leituras usuais de um jornalista, e acha que isso é uma superioridade incomparável.

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Ninguém deve ao Reinaldo Azevedo sequer a descoberta de algum fato da ordem política. Tudo o que ele faz é alardear e enfeitar notícias que outros descobriram.

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Alguém aí pode dizer “Devo ao Reinaldo Azevedo a descoberta do meu potencial intelectual e humano”?

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Brincadeira tem hora, gente. Reinaldo Azevedo não tem “cultura admirável” nenhuma. A cultura dele é inteiramente limitada ao jornalismo e ao show business. Ele lê o que seus colegas de redação lêem.

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<Imaginar que o Reinaldo Azevedo seja meu concorrente é reproduzir mentalmente a piada da fomiguinha e do elefante. Há, evidentemente, um certo público sem qualquer interesse intelectual mais sério, que só enxerga a polêmica antipetista imediata e tudo julga nessa escala. Mas por que justamente a cegueira dos mais ignorantes deveria ser o critério de julgamento na comparação entre o autor de uma vasta obra filosófico-pedagógica e o autor de “O País dos Petralhas”?

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Já ouviram falar de Schadenfreude? É alegrar-se com a desgraça alheia — uma das mais perversas emoções humanas. O Reinaldo Azevedo não esconde a sua ao descrever a minha “decadência”. Só que a Schadenfreude dele é de tipo masturbatório: ele mesmo inventa a desgraça alheia e toca punheta diante dela, dando gritinhos de prazer: Pronto, gozei!” E eu é que estou no “triste fim”, porca miséria.

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Não chore, Reinaldo. Se tudo der merda, o Zé Serra lhe arrumará um emprego de porteiro do Instituto Teotônio Vilela.

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Tirem os empregos do Reinaldo Azevedo na mídia e vejam o que sobra. Tiraram todos os meus e foi aí que a minha carreira começou.

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Reinaldo Azevedo é o discípulo mais promissor do Doutor Pirrôla.

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Concorrentes do sr. Ruinaldo são Miriam Leitão, Clovis Rossi, Eliane Cantanhede e outros cronistas do dia-a-dia político. Nunca estive nesse departamento e, se tivesse de trabalhar nele para sobreviver, me consideraria a mais infeliz das criaturas.

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Acho horrível ter de escrever um “Direito de Resposta”. Por mim, eu ficaria nestas miúdas notinhas, mais que suficientes para desmascarar o charlatão, Mas, sacumé, tenho de seguir a orientação do advogado.

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Brasília foi construída PARA FACILITAR A INSTAURAÇÃO DE UM GOVERNO BUROCRÁTICO-SOCIALISTA, e cumpriu perfeitamente o seu papel.

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Para pensar. Pergunta e resposta:

Lucília Simões: A distância geográfica de Brasília do restante do país colabora para a inexistência dessa identidade?

Olavo de Carvalho: Sem dúvida. JK destruiu a síntese simbólica da nacionalidade, plantada por Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, e a substituiu por uma mera unidade legal-burocrática condensada à força na arquitetura do Niemeyer. O Rio deixou de ser o coração do Brasil, e Brasília é apenas um cérebro eletrônico enfeitadinho.

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É mais fácil gostar de Brasília do que compreender o óbvio: o Rio de Janeiro era REALMENTE uma síntese histórica do Brasil quando o governo Getúlio Vargas decidiu institucionalizá-lo como tal. Eram quatro séculos de história, de esperanças e de sofrimentos que se condensavam nas ruas, nas praças, nos monumentos, na arte popular, na literatura. Esperar que Brasília cumpra o mesmo papel é, realmente, não entender nada. A cidade tem meio século e ainda não produziu sequer um estilo próprio de música popular, nem produzirá nunca.

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Getúlio Vargas tinha realmente o senso histórico: tirou apenas as conclusões da realidade em vez de tentar inventá-la por decreto e criá-la com dinheiro público, como JK.

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Se a capital do país ainda fosse no Rio, a cidade jamais teria se tornado a meca do narcotráfico, e um governo sem aprovação popular seria derrubado em 24 horas. Em Brasília, os governantes tornam-se deuses do Olimpo.

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O liberalismo é a descrição objetiva de um modelo econômico racional ou é só um véu ideológico destinado a encobrir um modelo econômico exatamente oposto, marcado pela concentração ilimitada do poder nas mãos dos metacapitalistas aliados com o Estado? Sem dúvida, é as duas coisas ao mesmo tempo, com a ressalva de que os porta-vozes da primeira nem sempre estão conscientes da segunda, à qual podem servir com a maior inocência.

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“Open Society”, afinal, é ao mesmo tempo o nome de um modelo econômico racional-ideal e o nome da fundação criada por George Soros para destrui-lo. Todo o drama atual das democracias capitalistas se condensa nessa expressão de duplo sentido.


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