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O Eixo do Mal Latino-Americano: comentários de Casimiro de Pina

1 de agosto de 2016 - 15:07:07

Hayek deu-nos, aliás, uma prova sincera disto tudo, quando, em 1944, abdicando dos seus interesses pessoais imediatos, resolveu empreender uma dura luta contra os dois totalitarismos gémeos da época (o comunismo e o nazismo, irmanados pelo mesmo ódio às liberdades e à livre-iniciativa económica), denunciando, com galhardia, e contra o “establishment” bem-pensante daqueles dias, sempre cioso das suas falácias, a Utopia totalitária, calcada num igualitarismo sufocante, na planificação central niveladora e numa justiça absoluta, sujeita, evidentemente, às pretensas “leis da história”.

O grande pensador austríaco deu-nos, assim, um testemunho valioso de coragem e convicção, honrando essa tradição da liberdade que já vinha dos antigos, e que teve em figuras como Burke, Tocqueville ou Alexander Hamilton os seus mais lídimos representantes modernos.

Friedrich Hayek falou-nos, também, do “caminho abandonado”, do ideal do governo das leis (tão acarinhado, afinal, pelos liberais do iluminismo anglo-americano, essa fina sociologia das virtudes e do dever, no meio de uma desconfiança salutar face ao poder político, etc.) e da perigosa tentativa de imposição estatal de um padrão único de “justiça social”, que dominou o trágico séc. XX, marcado por duas guerras mundiais e pela concomitante destruição em massa, em nome da reconstrução da ordem social e da planificação das consciências, recomendada pelo santo Marx e pelos seus prosélitos tardios.

A utopia descambou, por fim, numa vasta e delirante distopia, com campos de concentração, genocídio, ditadura do partido único, perseguição brutal dos dissidentes, tortura institucionalizada, fome induzida, trabalho forçado, miséria geral e atraso económico e social.

O totalitarismo destrói a verdade e instaura a mentira como sistema normal de governo. É esta a sua essência. A partir desta premissa, edifica, então, uma sociedade de tipo militar, amordaçada e pouco criativa.

O Ocidente está, hoje, numa nova encruzilhada. As suas raízes de oiro (filosofia clássica, direito romano e cultura judaico-cristã), a mola do seu esplendor, são atacadas, sem qualquer pudor, pelos novos bárbaros instalados, confortavelmente, no seu interior.

O comunista italiano Antonio Gramsci e a Escola de Frankfurt estão na linha de frente desta nova batalha. Eles perceberam, após uma meticulosa análise, que já não era viável combater o inimigo a partir da “base económica”, como pretendiam os marxistas da linha dura.

O alvo passou a ser, então, a destruição cultural. A podridão haveria de instalar-se um dia, como previra Marcuse, o guru da “contra-cultura”. Os intelectuais de esquerda passaram, sistematicamente, de forma quase imperceptível, a atacar os pilares da cultura ocidental.

É isso tudo que Heitor De Paola, um grande estudioso desses assuntos, trata no seu livro O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial, 2.ª ed., Observatório Latino, São Paulo, 2015.

O livro é fabuloso e descreve, com minúcia, a geopolítica do pós-guerra fria, aspecto absolutamente negligenciado neste nosso país periférico e alienado.

A “Revolução Cultural” é tratada no capítulo III. E é de leitura obrigatória.

Um aspecto particularmente relevante tem a ver com as “três estratégias” comunistas de longo alcance, que o autor estudou em pormenor e com o costumado rigor.

De Paola menciona, além do mais, a importante e crucial reorientação da estratégia da KGB após a “Perestroika” (um esquema complexo de desinformação…) e as revelações fundamentais de Anatoliy Golitsyn, que os nossos doutos “analistas” políticos e “académicos” de albarda, com a sua esperteza mansa de caracol, ainda não descobriram, tantos anos transcorridos!

Há uma referência muito interessante sobre a Conferência Tricontinental de Havana – que contou com uma delegação do PAIGC –, uma ambiciosa estratégia revolucionária cubana, numa altura em que o regime castrista estava em crise e a braços com um largo descontentamento popular.

É uma delícia ler Heitor de Paola, que foi militante comunista durante algum tempo, e aprender com a vastidão dos seus conhecimentos. A sua perspicácia é singular, e rara a sua visão dos pormenores e do, digamos, mundo “invisível”, que poucos enxergam.

Conhece, profundamente, os truques da Desinformatzya e da estratégia política neuro-psiquiátrica das últimas décadas, e aliás em pleno curso, destinada a imbecilizar populações inteiras e a instaurar um despotismo dócil e inquestionável.

O autor possui, de resto, uma vasta experiência profissional nessa área de conhecimento.

No próximo artigo, analisaremos, com mais vagar, mais alguns aspectos centrais do livro em pauta, cuja riqueza é impossível de abarcar, verdade seja dita, num único texto de opinião.

Heitor é uma voz lúcida e competente, assaz rigorosa, um guia privilegiado, que nos desafia constantemente e nos impele a renegar os falsos deuses e as armadilhas tolas do “politicamente correcto”, essa praga maldita dos dias que correm. A sua sabedoria é um convite singelo à nobreza de espírito, que os homens e mulheres livres, e de boa vontade, jamais poderão recusar.

Two cheers for him!

Casimiro de Pina, jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e pós-graduado em Ciências Jurídicas pela Universidade de Macau. Professor-Assistente convidado no Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais. Já leccionou também na Universidade Jean Piaget (campus da Praia, Cabo Verde). Colaborador dos jornais Terra Nova, Expresso das Ilhas e Liberal, das revistas jurídicas Direito e Cidadania e Boletim da Ordem dos Advogados. Comentador da Televisão de Cabo Verde (TCV). São de sua lavra o Ensaio “O Problema da Pobreza: Entre o reducionismo atávico e a compreensão integral”, e os livros “Ensaios Jurídicos: Entre a Validade-Fundamento e os Desafios Metodológicos”, e “Sociedade Civil, Estado de Direito e Governo Representativo – repensando a tradição liberal-conservadora no séc. XXI”.

Publicado no jornal Expresso das Ilhas, de Cabo Verde.

Divulgação: Papéis Avulsos – http://heitordepaola.com