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A arte não precisa de subsídios do estado

6 de janeiro de 2010 - 9:49:50

Para as quase 250.000 pessoas que assinaram a petição online de Jones, as artes são vendidas como críticas para a identidade nacional e mesmo como uma fonte de alimento espiritual. O uso do termo “arte”, no entanto, é frequentemente conflituoso, levantando mais perguntas do que respostas. Para os propósitos deste ensaio, concordemos que arte, como resultado de seu exame das miríades de estados da condição humana, possa ser um repositório de conhecimento e erudição tanto empíricos quanto herdados, um canal para criatividade especializada, e um agente de união cultural. Mas falar na capacidade da extravagante linguagem da arte de transmitir uma identidade nacional é reivindicar pretensões de natureza teleológica que não podem ser nem fundamentadas nem afastadas. Parece ótimo, é claro, mas assim também parece visualizar a paz mundial e (para alguns) levitar o Pentágono. E é melhor deixar as alegações espirituais para os teólogos. Meu coração se acelera quando vejo um arco-íris do céu, por exemplo, mas receio que esses raios de luz refratados possam suscitar em outros reação tão frio quanto a Miss Havisham de Dickens em sua noite de núpcias ou um personagem de Jack London tentando acender seu último fósforo.

Diferentes artes, diferentes públicos

Definir a arte e seus muitos propósitos e públicos-alvo é difícil. Classicistas, por exemplo, provavelmente diriam que a arte só pode ser apreciada de uma distância de 100 anos ou mais, assegurando validação de críticos, acadêmicos e um público geral refinado. Para essa audiência, Shakespeare, Michelangelo e Beethoven são o sine qua non da arte. Foi só recentemente – nos últimos 50 anos ou mais – que eles se convenceram de que James Joyce, Virgil Thompson e Joan Miró pertencem ao cânone. Outros colocam a arte na vanguarda da cultura – sempre um passo à frente do resto de nós com criações autorreferentes e altamente individualizadas que eventualmente penetram para as margens do cânone e exercem enorme influência nas gerações subsequentes.

Os catadores de cerejas

Entre os esnobes e a avant garde estão os catadores de cerejas, a multidão que não tem problemas em passar de Mozart a Mahler a Berry Gordy e aos Beatles. “Não precisa ser antigo para ser clássico, só precisa ser bom” era o slogan de uma rádio de rock clássico há alguns anos. Catadores de cerejas bem-informados reconhecem que a elevação cultural – mesmo que pristina ou aguada – pode ser encontrada no cnema local, em programas de televisão, e até mesmo espremida no espaço entre tais programas. A gravação de 1968 de “I’d Like to Teach the World to Sing (In Perfect Harmony)”, com oito milhões de vendas, por exemplo, começou como um esforço conjunto de guru da agência de publicidade McCann Erickson e seu cliente, a Coca-Cola. Tornou-se um single de sucesso.

Os catadores de cerejas podem se imergir em muitas formas diferentes de arte, cada vez mais obscurecendo as distinções entre alta cultura e baixa cultura. A alta cultura frequentemente toma emprestado da popular (ou baixa), como se vê nas obras de Roy Lichtenstein ou Andy Warhol.

Do mesmo modo, a arte popular se inspira livremente na alta cultura. O artista Hieronymus Bosch, por exemplo, pode ser muito conhecido para alguns, enquanto outros conhecem seu trabalho somente através do uso de seu “Garden of Earthly Delights” como capa de um CD da banda de folk-rock Pearls Before Swine ou da música “OK, Hieronymus”, do roqueiro inglês Graham Parker. Referências a Shakespeare são abundantes em programas de televisão como Star Trek. Até Barry Manilow plagiou Chopin.

Em resumo, vamos reconhecer que a arte é importante para a maioria de nós, e que a apreciação desta é apenas questão de grau. O Proust de alguns é o Pelecanos de outros. O Bach de alguém é o Bachman Turner Overdrive de outra pessoa. Catadores de cerejas são diletantes, mas esse termo não precisa ser pejorativo, uma vez que podem criar – e frequentemente criam – uma perspectiva cultural mais ampla através da polinização cruzada de gêneros estéticos e da mistura de alta cultura e arte popular.

Arte financiada pelo governo

Como a arte é muitas coisas para muitas pessoas diferentes, como podem agências financiadas pelo governo antecipar a estética de uma população largamente diversa? A pergunta é discutível, claro, mas a questão maior permanece: pode o dinheiro do governo criar uma nação de homens e mulheres da Renascença, igualmente fluentes nos domínios das artes visuais, escritas e performáticas – e será esse objetivo sequer desejável? Terão os subsídios do governo estimulado a criação de alguma nova arte proeminente, reapresentado a novas gerações o melhor da arte historicamente validada, ou aculturado imigrantes à nata do pensamento, dos ideais e do talento ocidental, ou levado a qualquer coisa remotamente parecida com o equivalente ao Renascimento italiano no século XV? Morrerá a arte sem o dinheiro de meus impostos?

Em seu livro Money for Art [“Dinheiro por arte”] de 2008, David A. Smith apresenta um histórico detalhado do financiamento do governo dos Estados Unidos para as artes, começando em 1817 quando o Congresso encomendou quatro pinturas a John Trumball. Nove anos depois, Trumball revelou quatro pinturas históricas retratando eventos da Revolução Americana. Segundo Smith, Trumball recebeu US$32.000, um montante que inflamou vários políticos. Um senador descontente achava que os quadros não valiam 32 centavos, e Smith cita a observação de um congressista de que “se as Belas Artes não sobreviverão neste país sem empregos do governo… então que morram.”

Ao fim do século XIX, a arte prosperava em grande parte devido à magnanimidade de empresários bem-sucedidos. A Era Dourada capturada na literatura de Mark Twain e Edith Wharton era altamente frutífera para a arte da nação, e assistiu ao estabelecimento do Metropolitan Museum of Art (1870, Nova York), o Boston Museum of Fine Arts e o Philadelphia Museum of Art (ambos em 1876), a Chicago Academy of Fine Arts (1879) e o Corcoram (1869, Washington). Todos abriram suas portas sem dinheiro do governo, assim como uma pletora de outros museus, coleções particulares e escolas de artes.

Ao fim do século, ex-alunos de escolas de arte produziam uma superabundância de arte, que coincidentemente é o título de um ensaio de Jacques Barzun advertindo que subsídios governamentais para a arte poderiam produzir uma quantidade tão grande de arte de alta qualidade que a nação seria incapaz de discernir entre o que é somente bom, o que é muito bom, e o que vai resistir ao teste do tempo.

Quando Theodore Roosevelt se tornou presidente, ele ajudou a contaminar a população americana com sua paixão por arte. Mas as visões artísticas de Roosevelt eram um tanto provincianas. É famoso o caso em que depreciou a arte modernista em uma resenha de 1913 do New York Armory Show, e ele zombou abertamente de pintores americanos que viajavam para exterior para pintar. Antes de deixar o cargo em 1910, ele decretou o estabelecimento de uma Comissão de Belas Artes (CFA) para encorajar artes e cultura em Washington. Provando a sabedoria do adágio de Ronald Reagan, “A coisa mais próxima da vida eterna que jamais veremos neste planeta é um programa do governo”, a CFA recebeu US$10.426.000 no orçamento federal de 2008. Em 2009, a CFA pediu apenas US$2.234.000 – para cobrir apenas os salários do departamento.

O New Deal dos anos 1930 encontrou formas inovadoras de financiar a arte, oferecendo comissões para artistas em busca de trabalho. Em 1933 alguns artistas sem trabalho formaram o Unemployed Artists Group, que eventualmente se tornou conhecido como Artists’ Union (AU), Sindicato dos Artistas. O AU buscou sem sucesso o estabelecimento de um Departamento de Belas Artes no nível do gabinete.

Embora os programas do New Deal para artistas tenham expirado quando a nação emergiu de sua labuta financeira, eles deixaram uma marca indelével nos connoisseurs culturais da nação. Como Smith coloca tão acertadamente, “O legado mais importante do New Deal para os artistas (…) foi uma leve sensação de direito entre artistas profissionais, e o começo de organização e ação coletiva fortes para pressionar o governo a reagir às necessidades dos artistas.” Enquanto o governo FDR estava ocupado inventando novos truques de salão para desviar o dinheiro dos impostos para indivíduos artistas, outros tomaram um caminho mais digno. O herdeiro automobilístico Edsel Ford e sua esposa Eleanor, por exemplo, tornara-se os maiores benfeitores do Detroit Institute of Art (DIA) encomendando arte de artistas como Diego Rivera e comprando com sua fortuna obras para a coleção do DIA. Eles até mesmo se encarregaram de cobrir a folha de pagamento do museu durante a Grande Depressão.

Restrições fiscais ao financiamento das artes pelo governo nos Estados Unidos caíram como dominós nos anos 1950 e 1960. Eisenhower aprovou o National Cultural Center (completo com fundos governamentais e renomeado Kennedy Center durante o governo Johnson) em 1958; Kennedy ordenou que o Congresso estabelecesse o Conselho Nacional das Artes, que durante o govenro LBJ se tornou o supervisor do Fundo Nacional para as Artes (NEA). Relatórios da primeira reunião do Conselho mencionam que o trabalho só foi adiante durante a manhã, porque os membros Harper Lee e John Steinbeck precisaram de uma soneca para eliminar os coquetéis do almoço – um começo auspicioso para um administrador da receita tributária americana com um orçamento que chegou a US$176 milhões em 1992 e retrocedeu para US$142 milhões em 2009, mais os US$50 milhões de suplemento de estímulo.

Artistas em suas próprias palavras, e obras

A maior parte dos artistas acredita que, sem subsídios do governo, a arte de qualidade desapareceria. “A voz dos artistas foi relegada a entretenimento, mercadoria comerciável, ou incômodo, mas nem a classe política nem a mídia popular prestam atenção ao que o artista está dizendo, e isso me preocupa”, disse-me o artista performático mexicano e comentador da National Public Radio Guillermo Gómez-Peña em uma entrevista de 2008. “Podemos ver desde meados dos anos 1990 que a arte perdeu sistematicamente financiamento no mundo todo, não apenas nos Estados Unidos mas também em sociedades europeias que eram líderes em tais práticas, como Alemanha, Reino Unido, França ou mesmo países do Leste Europeu que cuidavam muito vem de seus artistas. Mesmo o México por séculos prestou muita atenção aos seus artistas.”

Embora Gómez-Peña, um artista muito inteligente, articulado e bem-sucedido, adote uma visão pessimista da arte sem financiamento do governo, ele lhe atribui urgência quase religiosa: “Em um certo sentido, esse ataque sistemático às artes pela classe política, as corporações e a mídia popular resultou no empobrecimento espiritual da sociedade.”

Da mesma forma, Dolores Wilber, cineasta de Chicago que entrevistei em 2006, acredita que o financiamente público de arte privada é um líquido positivo para o povo americano: “A arte é um reflexo da sociedade e trata de criatividade e estar vivo, e ofereceu muitas coisas positivas na textura social de todas as sociedades, seja o governo democrático ou totalitário… Eu acho que é algo ótimo em nosso país que apoiemos, em geral, a criação de arte.”

Arte séria e artistas sérios podem sobreviver – e já sobreviveram – sem subsídios. De fato, muitos dos grandes poetas dos últimos 100 anos fizeram carreiras que engrandeceram muito a literatura que produziram: William Carlos Williams era médico; Wallace Stephens era corretor de seguros; Dana Gioia, que foi chefe do NEA, trabalhou como gerente de publicidade e marketing para a General Foods; T.S. Eliot era bancário e editor; e Gary Snyder trabalhou como lenhador e vigilante de incêndios. Muitos artistas de hoje são professores efetivados em universidades importantes que lhes pagam salutares montantes para cortejar suas respectivas musas.

Gómez-Peña e Wilber são sinceros, mas percebe-se também um certo grau de hubris em suas exageradas declarações sobre os poderes espirituais e transformacionais da arte – assim como sua crença de que é responsabilidade do público pagar por isso. Afinal, podemos aceitar a importância da arte em privado, sem a expectativa concomitante de ter que pagar pela experiência transcendental de outra pessoa. Na verdade, não foi a generosidade do governo que criou e distribuiu The Wire ou The Sopranos da HBO, que possivelmente são o apogeu das narrativas visuais dos últimos dez anos; o épico O Poderoso Chefão de Coppola; Sargent Pepper dos Beatles; ou mesmo que transferiu milhões de dólares dos consumidores para Robert Mapplethorpe e sua propriedade – foi talento, propósito, criatividade irrestrita, e a disposição do público de comprar essas obras em seus próprios termos, em vez de depender dos caprichos, opiniões e gostos altamente subjetivos de burocratas do governo.

 

Publicado pelo site Ordem Livrehttp://www.ordemlivre.org

Bruce E. Walker é gerente de comunicações no Mackinac Center for Public Policy’s Property Rights Network e autor de mais de cem artigos em revistas, jornais e livros sobre temas relacionados às artes e seu financiamento.

 

Publicado originalmente em The Freeman.

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