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A confusão de Arnaldo Jabor

2 de setembro de 2009 - 17:47:26

Jabor consegue ser a síntese da irresponsabilidade da nossa imprensa opinativa, que luta sempre para distrair o leitor, simulando possuir mais do que informações privilegiadas, possuir genuínas opiniões sobre a nossa vida política. Um trabalho cotidiano e repetitivo de enganar a opinião pública. O texto de hoje é meridiano: desloca a discussão do real para o simulacro de realidade criado pela esquerda militante, interessada em anestesiar a opinião pública.

Vejamos as primeiras linhas: “Por que o Aluízio Mercadante não manteve sua ‘irrevogabilidade’? Porque não teve coragem de enfrentar o Lula. Mas por que não teve? A razão é a mesma que acomete muitos intelectuais ‘não petistas’: o Lula é ‘inatacável‘”. Praticamente temos aqui uma mentira a cada palavra, uma superação e tanto. Analisemos.

Aluísio Mercadante fez o que fez porque: 1- É um soldado do PT e cumpre tudo que seu comando determina. O PT tem o formato de um partido leninista, de hierarquia vertical e a linha de comando subordina todos os militantes, inclusive os portadores de mandato popular, como Mercadante. A autoridade partidária é maior do que a autoridade de seus quadros investidos no comando do Estado. Nenhuma surpresa na sua disciplina e acatamento do centralismo democrático; 2- Mercadante está em campanha para se reeleger e tenta usar o recurso da internet. Basta visitar seu blog no Twitter para ver que tenta alavancar votos eletronicamente. Precipitou-se na verborragia da “irrevogabilidade” e teve que engolir a própria palavra. Em partidos leninistas o único fato irrevogável é a decisão do comitê central.

A pergunta relevante seria: por que Lula expôs Mercadante ao vexame público? Que interesses estão ocultados por essa decisão? Obviamente que não faltou “coragem” a Mercadante, mas sobrou lealdade, a virtude canina por excelência. A qualidade canina é bem colocada, por referir-se ao animalesco e também aos ícones infernais. A palavra é bem adequada para o senador do PT.

A segunda pergunta é ainda mais asnática do que a primeira. Equipara Mercadante a um intelectual, um suposto pensador engajado na causa revolucionária, como aqueles todos que militam nas universidades. Será o Mercadante um intelectual, mesmo nesse mau sentido? Penso que não. Tem décadas que ele se tornou um político profissional e hoje não passa disso. É um soldado do PT, nada mais. Não tem produção teórica alguma, nem mesmo as páginas sujas de um panfleto acadêmico.

Mas Jabor nota a subserviência dos intelectuais à pessoa de Lula. Isso é fato? Ora, a pessoa de Lula é reverenciada por ser ele a autoridade máxima do Partido (com P maiúsculo, como ensina FHC). Lula é inatacável porque a classe intelectual engajada se sente representada nele e não porque seja um homem de origem operária. Lula é o Partidão no poder, o sonho que a esquerda tem acalentado desde os anos trinta do século passado. Sua presidência é a realização desse projeto histórico, obtido sem que um tiro sequer fosse disparado.

A reverência dos intelectuais não é a Lula, mas ao Partido e tudo que ele representa. Portanto, os ditos intelectuais “não petistas” são petistas, sim, estão todos no barco revolucionário e puseram também o seu tijolo na escalada de Lula no rumo do poder. Não poderiam, até por uma questão de coerência, desdizer o que disseram. Lula é seu deus encarnado, faça o que fizer. Está acima das críticas porque virou o símbolo de uma revolução que se consolidou.

Jabor faz o jogo do esconde-esconde, querendo parecer distante de tudo que está aí. Ora, desde sempre ele, Jabor, foi cabo eleitoral do Partido, ele, Jabor, também ajudou a carregar o andor em que o santo Lula foi entronizado.

Na verdade, todo o tom blasé do artigo é para falar mal do que restou da elite tradicional, personificada agora no presidente do Senado, José Sarney. Note, caro leitor, a má fé. Vejamos a seguinte passagem: “A atitude de Lula de se colocar ‘acima’ da política como sendo ‘coisa menor’ é uma sopa no mel para corruptos e vagabundos. No dia seguinte à absolvição do Sarney, o PMDB não deu trégua e já quer mais emendas orçamentárias, no peito“. Ora, se Sarney tivesse ficado devendo algo a Lula por sua defesa, o PMDB nada teria a cobrar do governo Lula. Quer me parecer que o fato real foi precisamente o contrário: Lula e o PT é que ficaram devendo algo a Sarney e ao PMDB, tanto que foram cobrar a fatura no dia seguinte. O fato realíssimo nem mesmo é a aliança para sucessão, mas a boca calada para que ninguém fale do rabo preso dos atuais governantes do Planalto.

Jabor inverteu completamente o real e um leitor desatendo ainda achará que Lula é vítima de uma conspiração da “direita”, quando na verdade é o oposto, a “direita” conspirou para sua manutenção no poder. Lula terminará o mandato sem maiores contratempos. Se Sarney abre a boca abalaria a República. Lula está pagando seu silêncio a peso de ouro. A revogabilidade irrevogável de Mercadante só pode ser compreendida nesse contexto.

Jabor fecha o artigo dizendo: “Só uma força plebiscitária poderá mover esta grande pizza envenenada. Por isso, pergunto, como os antigos: Quando haverá uma manifestação séria da opinião pública? Uma ação continuada de notáveis da República para impedir este jogo de carniça entre os três poderes, essa vergonha que humilha o Brasil? Vamos continuar de braços cruzados?” Veja, caro leitor, temos aqui o chavismo propagandeado às claras, o mesmo que é divulgado pela cúpula do PT: a solução estaria na democracia direta, no ativismo, quem sabe na abolição do Senado. É muita má fé junta em tão poucas palavras. O fato cristalino é que os notáveis de hoje são todos quadros do PT.

Devo admitir: o Jabor se superou, consegue ser pior do que foi no passado.

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