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A Cuba que eu conheço

20 de novembro de 2009 - 19:08:51

Na última edição eu denunciei a degradante situação a que estavam submetidos 11 opositores do regime castro-comunista da Ilha, que se mantinham “plantados” (esta expressão não tem tradução exata para o português, mas seu sentido quer dizer “aquele que resiste”, “resistente”) a todas as barbaridades que a Polícia Política praticava e permitia que se cometesse contra eles, e que culminou em uma greve de fome iniciada no dia 10 de novembro. Eles resolveram encerrar a greve na segunda-feira e emitiram um comunicado que traduzo abaixo, dada sua importância.

Em seguida, apresento alguns vídeos que, ao que tudo indica, se não foi do conhecimento do público que diz se preocupar com a situação dos cubanos “a pé”, pelo menos não suscitou qualquer reclamo ou espanto. Me refiro ao Brasil, é claro, pois o primeiro vídeo foi divulgado no mundo inteiro com uma repercussão espantosa, motivo pelo qual seu principal “ator” acabou preso e condenado num julgamento sumaríssimo a 2 anos de reclusão. Mas esta história só pode ser contada e compreendida na seqüência dos três vídeos (de poucos minutos cada) que faço após o comunicado da Rede Cubana de Comunicadores Comunitários.

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Opositores cubanos finalizam o “plantão” de 40 dias, porém anunciam protestos

Uma dúzia de opositores cubanos puseram fim nesta segunda-feira ao “plantão” e jejum que realizavam desde há 40 dias, sem obter seu objetivo de devolução de uma câmera fotográfica confiscada pela polícia; porém, proclamaram sua vitória e que continuarão seus protestos contra o regime.

“Os plantados durante 40 dias e depois de um jejum de oito dias, queremos comunicar nossa decisão de cessar esta atividade, porém não nosso protesto contra o regime (…) que nos confiscou todo tipo de liberdade”, disse em um comunicado lido por um deles, na presença de seus líderes Martha Beatriz Roque e Vladimiro Roca.

Ambos os dirigentes, os quais declinaram de oferecer declarações à imprensa nesta segunda-feira, iniciaram o plantão (protesto) na casa de Roca, no bairro havanero de Nuevo Vedado, junto com outros 10 dissidentes.

A câmera fotográfica que estamos reclamando não é o objetivo final deste protesto, senão o símbolo de nossos direitos, e entendemos que a negativa oficial em devolvê-la mostra que o governo não tem vontade de mudança“.

Com respeito ao “ato de repúdio” que mais de uma centena de partidários do governo realizou durante vários dias em frente à casa de Roca, os dissidentes disseram que “essa retórica transmite cansaço aos que sabem da necessidade de uma mudança democrática na ilha”.

Também consideraram que, em que pese haver cessado o protesto, este não foi “em vão” e que desta vez “o governo cubano perdeu”, sem explicar as razões que os levam a essa afirmação.

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É possível imaginar que alguém possa ser condenado a dois anos de prisão, por dizer frente às câmeras de televisão que em seu país se passa fome? Pois foi o que aconteceu com Juan Carlos González Marcos, conhecido como “Pánfilo”, um cubano de 48 anos de idade como milhares de outros que não fazem parte da Nomenklatura e que passam todo tipo de privações, inclusive e sobretudo, fome. No começo de agosto a televisão cubana fazia uma entrevista na rua sobre música quando Pánfilo, que passava por perto, postou-se frente à câmera e gritou completamente bêbado: “O que nos faz falta é um pouco de comida! Faz falta comida, pois há uma tremenda fome!”. Este vídeo logo começou a circular pelo YouTube e em questão de dias alcançou o expressivo número de 460.000 visitas.

A repercussão deixou o regime apavorado e no dia 12 de agosto Pánfilo foi sentenciado, num julgamento sumaríssimo, a dois anos de prisão pelo “delito” de “periculosidade social pré-delitiva”. Segundo o Código Penal cubano, o delito de “periculosidade” se aplica a pessoas cuja conduta é “inclinada” a cometer delitos e que incluem “embriaguês, narcomania e conduta anti-social”. Vale salientar a subjetividade da expressão “conduta anti-social” no dicionário castrista, pois no meu (e em todos os dicionários psiquiátricos) significa alguém que se comporta de maneira repulsiva e inadequada na sociedade, podendo ser agressivo, obsceno, desrespeitoso da lei e da ordem, separadamente ou tudo ao mesmo tempo. Em Cuba, entretanto, é sinônimo de alguém que se posta contra o regime ditatorial, por mais manso, pacífico e educado que seja.

Abaixo vocês podem ver o momento de explosão de Pánfilo denunciando a fome endêmica que se passa na Ilha.

{youtube}jUciRH68rP0{/youtube}

 

Pánfilo foi condenado no dia 12 de agosto e permaneceu na prisão por um mês, quando então seu advogado conseguiu reverter a pena à reclusão no Hospital Psiquiátrico “Enrique Cabrera” para tratamento de alcoólicos e em seguida foi transferido para o Hospital Psiquiátrico “Mazorra”. Este hospital Mazorra ficou conhecido como um centro de reclusão de presos políticos, que eram levados para lá para sofrerem torturas, eletro-choque, os quais deixaram seqüelas físicas e psicológicas gravíssimas e muitas vezes levou os “pacientes” à morte. O mais notável torturador deste centro de experimentos psiquiátricos, onde as mais aberrantes torturas eram infligidas aos presos políticos, foi o enfermeiro Eriberto Mederos, conhecido como o “Anjo da morte”, que lamentavelmente morreu sem cumprir a condenação que lhe foi imposta em um julgamento legítimo realizado nos Estados Unidos, em julho de 2002, pois padecia de câncer e morreu logo após receber a sentença.

No vídeo abaixo, feito com grande risco e sob ameaças, a repórter consegue em breves cinco minutos conversar com Pánfilo que se diz agradecido por poder se tratar do alcoolismo. Entretanto, é possível perceber o estado confusional em que o mesmo se encontra, repetindo a mesma frase para qualquer pergunta feita. Não é possível avaliar a quantidade de drogas que haviam lhe fornecido mas é evidente que estavam fazendo uma “faxina mental” e não desintoxicação ao alcoolismo, tanto que ele já voltou ao vício. Tudo que este homem de sorriso largo e dentes perfeitos deseja é trabalhar e levar uma vida que para nós é normal, inclusive ele diz que foi da Marinha mas que pode trabalhar em qualquer coisa, o que importa é ter um trabalho.

{youtube}IYJyV23opTg{/youtube}

Agora em novembro apareceu outro vídeo de Pánfilo, completamente embriagado, novamente fazendo acusações ao regime e inclusive chamando Raúl Castro de “maricón”. O vídeo foi publicado pelo Canal 41 de Miami, América TeVe e nele Pánfilo diz que quer sair de Cuba, que vai sair de Cuba e pergunta: “Até quando é isto?”, referindo-se ao regime. Mais adiante, quase em desespero grita em sua embriaguês na escuridão do Malecón de Havana: “Eu vou em um pau, em uma lata ou em uma bacia, mas eu vou! Tu podes estar seguro que Pánfilo se vai”, e acrescenta que a Segurança do Estado conhece suas intenções. Vejam o vídeo:

{youtube}WwbPIUxYYNQ{/youtube}

Bem, não sei o que vai acontecer com este pobre homem mas sei que esta é a cotidianidade cubana. Esta é a Cuba que eu conheço desde que comecei a estudar o assunto e a fazer amigos dentre os dissidentes, alguns exilados pelo mundo, outros, muito poucos pela precariedade de comunicações, dentro da Ilha mesmo. Há 10 anos… E não vi mudar NADA, nem conheço qualquer tipo de liberdade de expressão dentre a gente comum, aquela que mesmo sem qualquer envolvimento político, como é o caso de Pánfilo, foge apavorada a qualquer pergunta nesse sentido feita por um turista curioso. E é importante tomarmos conhecimento disso porque, depois da CONFECOM (Conferência Nacional de Comunicações), poderemos estar marchando a passos largos para um sistema de mordaça e confiscação da liberdade de expressão, do mesmo modo como ocorre hoje em Cuba, esta que trancafia em hospitais psiquiátricos de tortura quem ousa falar verdades inconvenientes.

Mas eu estava fechando esta edição de hoje quando recebi uma nota do Pe. Lodi, informando que inaugurou um blog intitulado “Extravio de Bagagem”, segundo ele, “para que todos possam acompanhar os acontecimentos e postar seus comentários”. O endereço do blog é este: http://extraviodebagagem.blogspot.com. Espero que o visitem! Fiquem com Deus e até a próxima!

Comentários e tradução: G. Salgueiro

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