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A Culpa é dos Economistas?

2 de setembro de 2009 - 17:39:12

Ladeado por títulos consagrados em uma livraria, em que apareceram obras tais como o famoso (e mentiroso) Freaknomics, Paul Krugmann e outros, o repórter folheava livros em que teorias econômicas eram expostas em termos de complicadíssimas equações matemáticas, para perguntar ao público logo depois sobre o que achavam, haja vista a crise em que se meteram.

A reportagem não deixou de ser interessante, e a princípio, despertou um bom sinal, o de que esta farofada dos economistas já mais do que encheu a paciência do povo (e como nós, brasileiros, sabemos disso!). Porém…, tratando-se da CNN, há sempre um coelho neste mato! Cumpre-nos, pois, achá-lo. Entretanto, a detratação dos economistas não vem de hoje, e o economista Ludwig von Mises assim se expõe quanto ao caso, em Ação Humana[i], p.15:

Thomas Carlyle denominava a economia de “ciência triste” e Karl Marx estigmatizou os economistas como sicofantas da burguesia. Charlatães – exaltando suas poções mágicas e seus atalhos para o paraíso terrestre – se satisfazem em desdenhar a economia, qualificando-a como “ortodoxa” ou “reacionária”. Demagogos se orgulham do que chamam de suas vitórias sobre a economia. O homem “prático” alardeia sua ignorância em economia e seu desprezo pelos ensinamentos de economistas “teóricos”.

Na abrangente obra-prima do pensamento liberal austríaco, Mises dá uma pista sobre os motivos desta gente, como à p. 11:

O principal motivo do desenvolvimento das doutrinas do polilogismo, historicismo e irracionalismo foi proporcionar uma justificativa para desconsiderar os ensinamentos da economia na determinação de políticas econômicas. Os socialistas, racistas, nacionalistas e estatistas fracassaram nas suas tentativas de refutar as teorias dos economistas e demonstrar o acerto de suas doutrinas espúrias. Foi precisamente essa frustração que os impeliu a negar os princípios lógicos e epistemológicos sobre os quais se baseia o raciocínio humano, tanto nas atividades cotidianas como na pesquisa científica.

Agora, quanto ao sucesso da ciência econômica, o mestre fechou nestes termos, como à p. 14:

Esses rabugentos não chegam a perceber que o tremendo progresso da tecnologia de produção e o conseqüente aumento de riqueza e bem-estar só foram possíveis graças à adoção daquelas políticas liberais que representavam a aplicação prática dos ensinamentos da economia. Nenhuma das grandes invenções modernas teria tido utilidade prática se a mentalidade da era pré-capitalista não tivesse sido completamente demolida pelos economistas. O que é comumente chamado de “revolução industrial” foi o resultado da revolução ideológica efetuada pelas doutrinas dos economistas.

Uêpa! Mas…esperem aí…de quem Mises está falando quando se refere aos economistas? Deixemos ele próprio responder, como à p. 15:

As políticas econômicas das últimas décadas têm sido o resultado de uma mentalidade que escarnece de qualquer teoria econômica bem fundamentada e glorifica as doutrinas espúrias de seus detratores. O que é conhecido como economia “ortodoxa” não é ensinado nas universidades da maior parte dos países, sendo virtualmente desconhecida dos líderes políticos e escritores. A culpa da situação econômica insatisfatória certamente não pode ser imputada à ciência que os governantes e massas ignoram e desprezam.

Com efeito, em toda a obra de Mises, e especialmente em Ação Humana, que fiz questão de frisar com uma certa abundância de citações, é claramente perceptível o sentido que o mestre austríaco atribui ao termo “economista”, com o claro significado de denominar o cientista social voltado ao estudo do livre mercado – ora (!), ao estudo da economia! Pois, desde quando políticas públicas intervencionistas são “economia” segundo qualquer critério de bom senso?

Quando tenho conversado com economistas diplomados, estes sempre me têm afirmado categoricamente que as teorias do liberalismo, especialmente o austríaco, mantiveram-se relegadas a um status de bicho empalhado, perdido em algum canto das bibliotecas. A formação do economista brasileiro, portanto, é essencialmente marxista e keynesiana. Conseqüentemente, o que podemos falar do bacharel brasileiro em Economia é que ele pode ser qualquer coisa – menos um economista! Poderíamos denominá-lo mais propriamente de “socialista” ou de “planejador” ou de qualquer outro termo que corretamente defina o escopo do seu trabalho, que tem sido voltar-se prioritariamente ao estudo e confecção de… políticas públicas!

Não é para menos, portanto, que seus livros adotem as fórmulas mais esdrúxulas. Toda política pública em relação ao mercado sempre e sempre tem sido a história de tentativas de burlar os fundamentos econômicos da economia real, a tentar consertar os efeitos colaterais de erros de concepção do passado com novos erros futuros, que vão se avolumando como uma bola de neve, e as complicações exibidas como grandes estudos não passam de ignorância disfarçada sob o véu da prestidigitação, a desafiar a boa-fé das pessoas mais simples.

Sobre isto, assim Mises os aponta (p.311):

A solenidade pretensiosa exibida pelos estatísticos e pelas agências estatísticas ao anunciarem índices de custo de vida e de poder de compra é desmedida. Esses índices numéricos não são mais do que ilustrações grosseiras e inexatas de mudanças já ocorridas. Nos períodos em que a relação entre a oferta e a demanda por moeda se altera muito lentamente, os índices não nos fornecem nenhuma informação. Nos períodos de inflação e, conseqüentemente, de variações bruscas de preços, os índices nos proporcionam uma imagem tosca de eventos que cada indivíduo percebe por experiência própria, no seu dia a dia.

Agora, imagina o leitor de quem Mises – bem como também, ao que sei, um famoso banqueiro brasileiro – eram fãs de carteirinha? Sabe quem era o ídolo da Economia pra eles? Sem exageros, mas era a dona-de-casa! Pois, senão, comprovemos o seu depoimento, à mesma p. 311:

Uma dona de casa judiciosa sabe mais sobre mudanças de preços que afetem sua economia doméstica do que lhe poderiam ensinar as médias estatísticas. Para ela, de pouco adiantam cálculos feitos sem considerar as mudanças tanto em qualidade quanto em quantidade dos bens que ela pode adquirir aos preços utilizados para calcular o índice.

Enfim, Economia, em bom senso, é algo que exige estudo, sim, mas raramente envolve a complicação de fórmulas, gráficos, tabelas e tablitas. Economia é o estudo da ação humana, assim entendida como objetiva e propositada, tendo como ponto de partida a compreensão da teoria subjetiva do valor. Nada a ver com o que se vê nos telejornais ou na maior parte das estantes das livrarias.

 

Notas:

[i] MISES, Ludwig von. Ação humana. Um tratado de economia. Tradução de Donald Stewart Jr. – 3.ed. – Rio de Janeiro: Instituto Liberal. 1990. 872p. (Arquivo em PDF, cujo download pode ser feito da Livraria Virtual de LIBERTATUM (http://libertatum.blogspot.com)

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