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A cultura totalitária

20 de janeiro de 2010 - 7:18:17

Por uma espécie de mistério santificante, o totalitarismo seria apenas, para a nossa completa felicidade, uma
névoa do passado, resquício irrecuperável após o brado da multidão enfurecida de Berlim, naquele Outono memorável de sonhos e delícias!

O imaginário popular alimenta-se, curiosamente, desta visão. Os partidos políticos, cegos pela conjuntural luta de cargos, vão atrás. Totalitarismo na era do Facebook? Não, impossível!

Um como que “consenso tácito” e generalizado legitima, pois, a penetrante confusão. A mentalidade revolucionária, com o seu cortejo de iniquidades e destruição, “já não tem” lugar na História. Adeus, Estaline! Adeus, camarada Fidel Castro!

Doravante, a disputa política será um acto de puro cavalheirismo, segundo a mais fina tradição democrática britânica, dir-se-ia, com os partidos a esmerarem-se, cada um mais do que o outro, na concretização mundana dos belos ideais da ética e da fraternidade!

Infelizmente, essa crença, tipicamente burguesa e alimentada pela mídia bem-pensante, é falsa. E bastante perigosa.

O totalitarismo não só não acabou como está, em muitos aspectos, muito mais forte.

O problema é que muitos não sabem o que é o totalitarismo.

Para aqueles que identificam o totalitarismo com a antiga União Soviética, é claro que a coisa “acabou”. É um conforto, aliás, saber que “já não há” mais pesadelos no mundo!

Repristina-se, deste modo, a velha ideia de Saint-Simon e Auguste Comte: o progresso é “inevitável”.

Quando aparece, digamos, um Hugo Chavez a perturbar a marcha da tranquila teoria, recorre-se à ladainha reconfortante: “Aquele tipo é um louco; está a dar cabo da economia”.

A atitude do ditador de Caracas fica, todavia, sem qualquer justificação.

As boas almas, por manifesta incapacidade, recusam-se a pensar a política.

É que o comunismo, lembram-se?!, “acabou” em 1989.

Na época da “purga estalinista”, que custou milhões de vidas e muito sofrimento, muitos intelectuais e políticos do Ocidente recusavam-se também a aceitar a verdade, limitando-se a dizer, num gesto patético mas tranquilizante, que aquilo não existia, era tudo invenção, “teoria da conspiração”, anticomunismo primário, etc. e tal! Dura praxis, sed praxis.

É o medo de enfrentar as questões que gera todos os monstros, de Hitler a Ahmadinejad.

Mas o totalitarismo não é a União Soviética. Não é um império político. Não é uma ditadura em concreto. O comunismo é apenas uma face da cultura totalitária.

O totalitarismo (ou talvez melhor: a mentalidade revolucionária) é, pelo contrário, uma forma de pensar, uma cultura, a qual, tendo raízes na Antiguidade, conheceu, porém, um progresso admirável com as seitas gnósticas da modernidade, com a sua mistura de ateísmo militante e absolutismo político. Terá começado, segundo Olavo de Carvalho, no séc. XV e atingido a sua maturidade nos finais do séc. XVIII, desembocando, depois, nas tragédias políticas do séc. XX.

A negação de um fundamento transcendente é o primeiro passo para a tirania política.

A cultura política totalitária visa atingir o “blueprint” de que falava K. Popper, ou seja, a reconstrução da sociedade e dos costumes de acordo com uma pauta artificial e revolucionária, em nome de um futuro hipotético, libertador e indefinível.

Durante o Partido Único em Cabo Verde (1975-1990), o grande objetivo do regime, de pendor claramente marxista, era o de alcançar o famigerado “homem novo“, refazendo, para isso, a estrutura social tradicional, de alto a baixo.

A sociedade cabo-verdiana, mediante uma experimentação agressiva induzida pela elite revolucionária no poder, entrou, pois, num perigoso processo de perda de valores. Nenhuma instituição ficou de fora.

A única moral válida, proclamavam os oráculos do sistema, era “a moral revolucionária“.

A família, a escola, a polícia, a imprensa – tudo estava ao serviço do partido e do seu estranho ideal de reconstrução social. Já não havia, nem podia haver, qualquer “capital social”. O que contava, doravante, era a “palavra de ordem” do partido.

A escola, veículo fundamental de formação do cidadão, foi transformada num recinto de doutrinação política, com a finalidade última de inculcar, nos alunos, os valores materialistas defendidos pelo marxismo-leninismo.

Não se tratava, desenganem-se, de um mero discurso circunstancial ou apaixonado.

Era, antes, um programa político, consistente e sincronizado. E tinha valor de Lei.

As Resoluções do III Congresso do PAIGC estabeleciam, já em 1977, que “…a Educação deverá ter um conteúdo e uma forma inteiramente de acordo com as opções e princípios traçados pelo PAIGC e orientar-se no sentido da prossecução dos seus objectivos”.

A Portaria n.º 76/80, de 23 de Agosto, impunha a chamada “concepção materialista do mundo” e a obrigação estrita de os professores formarem os alunos nesse espírito ideológico.

É claro que isso obrigava os professores a ignorar certos cânones tradicionais de convivência, substituindo-os, no fragor do processo revolucionário, pela ideologia “progressista” imposta pelo partido dirigente.

A anomia, no sentido proposto por E. Durkheim, é a conseqüência lógica desse tipo de regime.

No Leste europeu, que nos servia de referência ideológica, sucedeu o mesmo fenómeno de destruição da “sociedade civil”. O partido ocupava todos os espaços, com os seus rituais e a sua ordem hierárquica, numa encenação portentosa e simbolicamente magnífica.

Tudo parece funcionar na perfeição, quando a polícia política e os demais aparelhos de repressão impõem, a la carte, a “norma totalitária”.

Quando o regime entra, porém, em decadência, realiza-se a profecia de Marx: “Tudo o que é sólido desfaz-se no ar”. As pessoas percebem que não havia, afinal, ordem nenhuma, nem tampouco justiça, mas sim uma espessa fachada de arbitrariedades e um conjunto de políticas forçadas que destruíram a fibra moral da nação e a noção tradicional do certo e do errado.

O “homem novo”, proposto inicialmente pela Utopia, é, afinal, um homem corrupto, sem valores, sem espiritualidade, potencialmente delinquente, que abusa dos cargos públicos e despreza o mais elementar sentimento de justiça e dignidade humana.

Não conhece nenhum horizonte além do seu radical egoísmo.

O “homem novo” é um ser infeliz que não acredita em Deus; um ser desprovido de qualquer sentimento de respeito e piedade. Totalitarismo é sinônimo de niilismo, e nisto Leo Strauss tinha toda a razão do mundo.

Entre nós, o processo não foi muito diferente. A sociedade cabo-verdiana entrou numa longa, e ainda não superada, Crise de Valores, mediante a introdução de um “código (a)moral” que desrespeitava, francamente, o seu modo de ser e as suas aspirações de liberdade e tolerância.

A reconstituição do “capital social” é um processo difícil e doloroso. Estamos, enquanto sociedade, à altura dos desafios? Quem ousa enfrentar a pesada herança da Cultura Totalitária?

O primeiro passo é, naturalmente, este: compreender o que se passou. Esquecer isto é fazer o jogo daqueles que, ontem, tentaram o “blueprint” em Cabo Verde.

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