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A era dos falastrões

17 de novembro de 2009 - 6:18:48

Caramba! O homem fundou uma cidade! Nem por isto, todavia, deixou de ser uma pessoa simples. Tem uma vida confortável conquistada pelo mérito do seu ofício, sem, no entanto, exibir nenhuma opulência. Não trabalha com nenhum plano de saúde, mas por seus honorários, praticamente qualquer pessoa paga. No dia em que cuidou do parto de minha esposa, tratou de explicar a ela sobre os dois problemas congênitos de nossa filha, mas com muita calma e bom senso: ela havia nascido banguela e… analfabeta!

Brincadeiras à parte, trouxe este caso à tona para ilustrar a raridade de encontrarmos pessoas que saibam aliar seu profundo conhecimento em alguma área com a humildade e a simplicidade. Pouco mais de nove meses antes, minha esposa estava por fazer uma histerectomia, assim aconselhada por uma dessas médicas extremamente confiantes em si próprias.

Parece que hoje o marketing passou de vagão a locomotiva. Em toda parte, percebo indivíduos presunçosos e arrogantes, e são assim tanto quanto mais ignorantes.

Ontem à noite, um desses passou recibo: era o jornalista Merval Pereira, na Globo News, a condenar a posição da maioria dos países integrantes da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation), inclusos aí os Estados Unidos e a China, por terem concordado em não estabelecer metas de redução de emissão de CO2 na atmosfera. É de se notar que a posição recebeu o apoio de 19 dos 21 países.

Merval deplorou a posição dos Estados Unidos e da China; criticou o que sentenciou como uma perda de tempo na guerra contra o aquecimento global e como um estímulo aos seus opositores; lembrou que o Brasil (sim, este, do PT), teria espontaneamente formulado uma meta de quase 40% de redução de emissão de gases até 2020; e finalmente, exortou a “comunidade internacional”, os membros da “sociedade organizada” – as ONGS – a participarem mais ativamente deste processo de negociações.

Eis aí o intelectual orgânico por excelência: um sujeito que, malgrado seu gordo salário como comentarista político, não possui nada além do belo terno e dos gestos e discursos pomposos.

Uma posição tal como a tomada no âmbito da APEC deveria exalar cheiro de presa para um jornalista com instinto de caçador. Senão, por quê, em pleno auge glorioso do discurso do aquecimento global, estes países teriam declinado quase que unanimamente de traçar metas?

A posição que tenho defendido desde sempre é esta: o aquecimento global do século XXI é o sucedâneo da Qualidade Total dos anos 90. Em outras palavras, aquilo não passava do que se chama de “barreira comercial não-alfandegária”, isto é, uma norma restritiva ou impeditiva de importações tendo como base não o uso claro de alíquotas ou quotas de importação, mas subterfúgios escusos que servissem de pretexto.

Para os mais jovens, a QT veio ao mundo com a finalidade alegada de prestigiar aquelas empresas que, segundo os moldes na norma ISO 9001, produzissem com “qualidade total”, uma conversa fiada que, dada a sua natural abstração, jamais foi objetivamente explicada, mas que impedia o acesso de produtos aos mercados do continente europeu àquelas que não ostentassem o selo ISO 9001. Hoje em dia não se fala mais em qualidade total, e isto tem um só motivo: os países não-europeus, inclusive os países chamados de emergentes, praticamente têm quase todas as empresas exportadoras com certificados de ISO 9001 emitidos. Em suma: perdeu-se a graça da coisa.

A ideologia do aquecimento global, nestes emblemáticos anos que marcam o fim do século passado e início do novo, serve ao propósito de reprimir (e se possível, deprimir) a expansão industrial nas nações democráticas do Ocidente. O fato de que Al Gore tenha sido aquele que decidiu empunhar esta bandeira em âmbito global lança as suspeitas sobre a China, um país que há muito vem patrocinando as campanhas dos democratas, casal Clinton incluso. Isto, claro, enquanto o regime deles passa como um trator por cima de qualquer coisa que se lhes anteponha; i.e., liberdades individuais, direito de propriedade e de marcas, direitos trabalhistas, regras de lealdade comerciais, e claro, por muito menos, a questão do meio ambiente.

Neste cenário, o da conferência da APC, portanto, parece que perdeu-se novamente a graça da coisa, desde quando os Estados unidos não caíram nesta farsa de aquecimento global, e principalmente quando uma possibilidade de cobrança por metas de emissão passou a recair sobre o gigante asiático.

Temos portanto, à vista de qualquer pessoa com um mínimo de juízo na cabeça, uma questão de guerra comercial que por si só já abala a credibilidade da tese da existência de um aquecimento global antropogênico. Um repórter que tem a seu serviço recursos materiais e humanos consideráveis deveria levantar estas questões, que saltam aos olhos, e proceder a um trabalho que mereça o nome de “jornalismo investigativo”. Entretanto, Merval escolhe a atitude mais fácil, a de sair por aí distribuindo panfletos como um calouro de faculdade, como se não precisasse explicar quem haverá de produzir seus bonitos ternos, ou o belo carro que deve possuir, ou mesmo a refeição quentinha à mesa, quando estas metas que defende começarem a ser cumpridas, remetendo-nos todos aos tempos da idade média.

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