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A excelência da Neveslândia, ou comendo ananases na Lua!

13 de agosto de 2009 - 9:41:05

Ouçamo-lo sem tardança (e em delícias!):

“É 1981. Comunismo. O comunismo é a abundância de bênçãos materiais e culturais […]. Todos os transportes urbanos são electrificados e as empresas prejudiciais são transferidas para fora dos limites da cidade […]. Estamos na Lua, passeando entre canteiros de flores e pomares […]”.

O quotidiano, no “socialismo real”, era difícil e miserável, mas a propaganda, indiferente à cidade dos homens, “comia” ananases na Lua…

É claro que o PAICV, após uma inteligente operação de cosmética, abandonou, oficialmente, a utopia de uma “sociedade sem classes”.

Mas os traços da mentalidade revolucionária permanecem lá no fundo e, quais vestígios de uma relíquia nostálgica e gloriosa, reassomam em cada discurso e em cada gesto político mais empolgado.

O último debate sobre o “estado da nação” foi pródigo quanto a isso. Alguns aspectos essenciais merecem ser realçados.

Desde logo, a permanência da inversão revolucionária, fenómeno de longo alcance tão bem estudado por Olavo de Carvalho. Um exemplo simples: o PAICV, através dos seus griots e mensageiros, insiste em classificar a ditadura totalitária do Partido Único (1975-1990) como a época, par excellence, da “construção do Estado” cabo-verdiano, enquanto a década de 90, a época da Constituição do Estado de Direito e das liberdades fundamentais, é vista, pejorativamente, como o período em que Cabo Verde “perdeu” a credibilidade internacional e a “auto-estima” nacional!

Todos os critérios são clamorosamente invertidos, para justificar o injustificável e manter, se possível, a autoridade moral de um regime retrógado e desumanizante.

Por outras palavras: o que confere “credibilidade” a um País, na curiosa visão do PAICV, não é mais o crescimento económico, a liberdade e o bom Índice de Desenvolvimento Humano (factos marcantes da década de 90); é, pelo contrário, e numa inversão notoriamente psicótica, a ditadura e a estagnação económica, herança dos dias sombrios em que Cabo Verde, preso a uma claudicante ideologia estatocêntrica, era apenas um pequeno “enclave marxista” no meio do Atlântico!

Mas a coisa não fica por aí: logo a seguir a essa perniciosa inversão dos valores, aparece uma interessantíssima tour de force, num como que engenhoso “golpe dialéctico”.

Os valores do MpD são subtilmente apropriados pelo PAICV e passam a constituir (Ars Magica!) a mola da sua famosa “agenda de transformação”!

Incoerência? Não, estratégia fina de partidos geneticamente totalitários (os quais, hoje em dia, combinam habilmente Gramsci e Maquiavel), cujo modus operandi é intrinsecamente dialéctico, e não linear, como tem sublinhado Olavo de Carvalho, um dos maiores especialistas nesta matéria.

O PAICV, após ter renegado o diabólico “liberalismo económico” da década de 90, o culpado pela “bancarrota” e pela perda, claro!, da “auto-estima” nacional, passa a ser, então, asseguram os seus próceres, o partido da “liberdade económica” (a raiz de todos os males sociais…) e da “boa governação” (ufa!).

O site oficial do Governo (http://www.governo.cv/index.php?option=com_content&task=view&id=1230), com o ardor tranquilo dos adventícios, faz gala das pesquisas da Heritage Foundation, um dos principais think tanks “neoconservadores” do mundo.

O cerne da inversão revolucionária é, precisamente, esse descarado “jogo dos contrários”, que deixa a opinião pública incrédula e o adversário sem reacção visível, ante a audácia da engenharia dialéctica.

Trata-se, na verdade, de um meticuloso trabalho de manipulação de consciências.

O psicólogo russo Ivan Pavlov (1849-1936) já tinha mostrado que a “estimulação contraditória” é a maneira mais eficiente de quebrar a resistência psicológica de um indivíduo ou grupo de pessoas, levando-os a aceitar as opiniões mais estapafúrdias e incongruentes. O sujeito, apanhado nessa teia de absurdos (explorados, de forma astuta, pela máquina de propaganda), perde, aliás, a capacidade crítica e torna-se, no decorrer do processo, um alvo fácil do estelionato. Engodo sistemático e servilismo são, pois, as faces da mesma moeda.

O MpD fica assim, no fim desse jogo psicológico, miscelânea de chantagem e hipocrisia, “sem alternativas” e “sem ideias” políticas, ou mesmo económicas, no limbo, como pretendem o PAICV e os seus griots, de uma oposição errática e “sem fundamento”, a um tempo insignificante e “antipatriótica”.

A estratégia política fundamental do PAICV centra-se, claramente, neste ponto.

Não compreender isto é não compreender nada.

José Maria Pereira Neves tenta exibir algum verniz de “modernidade”, mas é, no fundo, um filho da ideologia revolucionária. Ele é um “príncipe”, acima das leis e da Constituição da República. A sua voz é a reencarnação do sopro divino; os seus actos são insindicáveis.

Bastas vezes, recorrendo a um tópico cunhado por Max Weber, declara-se a favor da “ética da responsabilidade”. A “ética da responsabilidade” significa, em termos simples, que o sujeito é responsável pelas suas acções, introduzindo-se, deste modo, um princípio salutar de exigência e civilidade na acção política.

Ora, o actual Primeiro-Ministro, no dia 22 de Janeiro de 2006, através de uma célebre declaração radiofónica, cometeu, em concurso, cerca de meia dúzia de crimes, pondo em causa, de uma forma absolutamente irreparável, os pilares do Estado de Direito e do sistema democrático em geral.

Até hoje, que se saiba, S. Excelência não respondeu pelo facto, nem prestou contas à Justiça cabo-verdiana pelos vários ilícitos penais que praticou. Trata-se de um autêntico “estado de excepção”.

Na mesmíssima linha, temos uma Ministra da Justiça, Marisa Morais, que esteve envolvida no escândalo do “saco azul”. Impávida e serena, a ilustre senhora vende charme no Parlamento, perante a passividade do círculo “oposicionista” e a inépcia farisaica dos restantes deputados.

A “ética da responsabilidade” não é, definitivamente, o ponto forte da turma no poder! Talvez a “ética das intenções”, outro tópico weberiano…

A Neveslândia é um território de enganos e impostura, uma periclitante democracia de fachada.

O esforço de “infra-estruturação” do País, feito, muitas vezes, à margem do concurso público e com custos manifestamente exorbitantes, não aumentou a competitividade de Cabo Verde nem resolveu o gravíssimo problema do desemprego.

A juventude é a camada mais afectada por essa política míope, alheia aos novos desafios da informação e do conhecimento.

As metas económicas não foram cumpridas. O Governo falhou em toda a linha. Hub, call centers, nada disto se concretizou. A “nova economia” não passa de uma miragem.

Paulo Monteiro Jr., uma voz autorizada, tem chamado a atenção para a perigosa regressão da balança externa, “peça fundamental – segundo explica – para se constatar se há ou não transformação e para medir a saúde de uma economia”. O défice da balança comercial (“termómetro da competitividade da economia”) aumentou 2,4 vezes, entre 1999 e 2008. Além disso, existe uma forte diminuição do investimento directo estrangeiro e um aumento da dívida pública do País.

O Estado, utilizando velhas receitas do “Planeamento Central”, aumenta o seu peso na sociedade. A iniciativa privada, meramente tolerada, não consegue concretizar o seu potencial de criatividade: estiola-se perante um Fisco sedento dos seus poderes e das suas notáveis prerrogativas burocráticas.

Cabo Verde é hoje, diria Peter Drucker, uma “sociedade antieconómica”.

O Estado é um sorvedouro de recursos e, nas franjas do assistencialismo, debilita a liberdade e o progresso da nação.

O “jet-set” burocrático, fazendo uma clara “opção pelo atraso”, teima em não assimilar as lições da história económica! Prefere, na doçura de uma ilusão, comer ananases na Lua…

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