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A vigia do futuro: o destino do ribeirinho

3 de novembro de 2009 - 3:09:48

A vigia, muito bela, construída inteiramente em aço inox, foi encontrada pendurada num restaurante de peixes e frutos do mar, exibindo em seu interior uma coleção de nós navais. Triste e acabrunhada, veio me pedir socorro, isto é, para que a tirasse de lá, desejo que atendi trazendo-a para o meu lar, onde hoje ela pode repousar e desfrutar alguns momentos de felicidade, entre boas conversas com este ex-vapozeiro e a vista para a baía do Guajará, com seu bucólico pôr-do-sol alaranjado.

Pois, voltando ao assunto, ontem lhe revelei a minha preocupação com a próxima eleição presidencial. Quem poderia salvar a Amazônia da posição de refém do discurso ecológico de segundas, terceiras e infinitas intenções em que se encontra? De um lado, temos Lula e Dilma, que antes a tinham como a menina dos olhos por conta de um utópico projeto de biodiesel gerado por oleaginosas cultivadas pela agricultura familiar e que depois, chegados os primeiros e nada promissores resultados, voltaram-se ao pré-sal e abandonaram todos os que haviam se comprometido com os seus devaneios. De outro, temos Marina Silva, a ex-ministra que pretendia instalar um corredor polonês aos produtores e exportadores, impondo-lhes a necessidade de obter sequencialmente a anuência de um sem-número de órgãos para que pudessem… ufa, simplesmente trabalhar. Enfim, um Serra que, ávido por aparecer aos olhos do mundo como um bom mocinho e capaz de vender a nossa região se preciso for, não nos seria melhor…

Com um semblante de quem sentia um dó danado pelo que ouvia, pede-me a atenção ao que vai me mostrar, e aos poucos seu vidro vai se enevoando, até exibir um ambiente que logo percebo ser um tribunal…

Percebo pelo relógio ao alto que estamos no ano 2026. No banco dos réus, um homem humilde, acabrunhado, esperando apático pela solução do seu caso. Ouvindo o relatório, tenho conhecimento do que se trata: está ali pelo “assassinato” (sic) cometido contra uma sucuri.

Da boca do advogado de defesa, ouço que o simplório acusado, tendo deixado tomar-se pelo sentimento de piedade, descontrolou-se, e sob o domínio do impulso irrefletido, investiu contra o réptil para salvar a vida de um menino “neo-bastardo”, este já todo enrodilhado e prestes a ser espremido para servir-lhe de refeição, matando-o a terçadadas. Àquela hora, pergunto à vigia que história era aquela de “neo-bastardo”, ao que ela brandamente me reprime e me insta a perseverar com a atenção aos desdobramentos do julgamento…

Vejo então, ato contínuo, entrar em cena um eloquentíssimo promotor público, cujos argumentos parecem convencer a todos do júri que, a cada golpe de seu dedo em riste, balouçam a cabeça em um misto entre a concordância e a indignação afetada contra o réu. Foi então que compreendi o que viria a ser o neologismo, cujo significado vem para denominar as crianças nascidas sem permissão do estado. Nesta época que não dista tanto da nossa, os nascimentos somente serão autorizados a quem comprovar possuir suficientes créditos de carbono ou que, pelo menos, obtenham autorização expressa do Supremo Comitê Lulo-Bolivariano. Não era o caso do pobre ribeirinho, por cuja criança – seu próprio filho – ele nem sequer tinha o direito de dar-lhe um nome, quanto mais salvar-lhe a vida como o seu pai de direito.

Em nossa Amazônia futura, face às grandes distâncias e às dificuldades de acesso – as últimas estradas foram aquelas mesmas construídas pelos governos militares do século XX, e já nem sequer existiam mais, tendo sido tomadas pelo mato que cresceu ou servido de campo de plantio para as lucrativas plantações de maconha – os neo-bastardos são o resultado da tolerância do estado, incapaz de impor à região uma fiscalização tal qual exercia sobre os grandes centros urbanos. Todavia, isto não lhes significará, em absoluto, qualquer direito à vida com dignidade: serão verdadeiros seres fantasmas, a acarretar a mão pesada do estado contra os responsáveis por qualquer fato de que puderem fazer parte.

Não por outra razão, o veredito proclamado tratou justamente de esclarecer que o salvamento daquele pequeno ser podia explicar a atitude do alquebrado homem, sem, contudo, fornecer-lhe a devida justificativa quanto ao ato bárbaro cometido contra o meio-ambiente. Pelo contrário, a existência do menino significava um atentado à mãe natureza, quanto ao carbono despejado que escapava ao controle e quanto aos recursos do estado, i.e., alimentos, remédios, quiçá roupas, provavelmente desviados para a manutenção de sua vida ilegal, o que, por via de consequência, impunha ao juiz decidir pela condenação do acusado a passar o resto da sua vida nas minas de ferro de Carajás (que naquela época, já terá voltado ao poder estatal), e quanto ao menino… ser encaminhado para uma usina de reciclagem(!)

Ei, vigia, “reciclagem”? Que papo é este? – perguntei, mas ela prefere não me responder nada: o meu espanto já me dizia que eu entendia e me negava a tal mister, ao que a imagem no seu vidro vai se desfazendo…

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