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A vigia do futuro: um dia no McDonalds

11 de outubro de 2009 - 19:42:56

Como um “ex-vapozeiro*”, parei para admirá-la, bonita, toda em aço inox, guardando por detrás do vidro um interessante painel de nós navais. Concentrado por contemplá-la, minha vente abstraiu-se do presente e foi viajando em direção ao passado, rumo às aulas de Arte Naval, na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, em Belém. Já completamente transposto, revivi o balso de calafate, a lais de guia, o balso dobrado, a volta de fiel, e até a bela e meramente artística encapeladura dobrada, que eu, garotão com 17 anos, exibidão, costumava mostrar à minha namorada, hoje a querida esposa.

Inebriado, eis que, para a minha surpresa, ouço uma triste voz feminina a me chamar, até perceber que provém da própria vigia: era ela própria, a pedir socorro! Em nossa conversa telepática, pedia-me em soluços para tirá-la daquele lugar no qual jazia feito um animal empalhado. Ansiosa por um amigo com quem pudesse extravasar suas lágrimas, contara-me que, antes de ter sido adquirida como sucata para agora servir de enfeite, havia pertencido a uma moderníssima embarcação: a “Atlântica”, um poderoso hovercraft, importado da Austrália, com o casco inteiramente em alumínio, impulsionada por dois poderosos motores e duas potentes turbinas que lhe permitiam, pasmem, “sobrevoar” a 35 nós (aprox. 65 km/h)!

Chorando, a deprimida vigia, na verdade a alma aprisionada da Atlântica, contara-me todos os insucessos pelo qual passara desde quando teve carimbado seu passaporte de chegada ao Brasil. Ainda no estaleiro, tão entusiasmada estava ao ouvir falar das belezas da Amazônia, por cujas águas haveria de deslizar, e sobre o caráter alegre e acolhedor do povo ribeirinho, confessara-me que jamais supunha sofrer todas as vicissitudes e humilhações às quais submeteu-se.

Projetada para ser o símbolo da uma Amazônia pujante e moderna, padeceu sob o jugo das autoridades fiscais, da burocracia que lhe dificultava a importação de peças de reposição, das exigências trabalhistas mais exóticas, das chantagens de grupos ambientalistas e até mesmo da pura incompreensão de um povo acostumado às antigas “gaiolas”, as invejosas embarcações de madeira, típicas do norte, que costumavam lhe atirar ofensas quando lhe passavam a contrabordo.

Foi assim que, depois de algumas esfuziantes apresentações, cobriu um ou dois festivais de Parintins, tendo depois cumprido uma rota alternativa regular de Belém a Macapá, até que seu dono, finalmente, a perdeu para os seus algozes, que, malgrado tanto empenho em tomá-la, logo a largaram em completo abandono, para esperar lentamente o seu fim em um cemitério de embarcações.

Impossível a um oficial da Marinha Mercante abdicar do seu dever e da sua honra de cavalheiro, torrei a paciência do proprietário do estabelecimento até que, enfim, por uma soma que o tivesse satisfeito, a levei para casa, para surpresa atônita de minha esposa e dos meus amigos.

Porém, isto não é tudo, caros leitores. Na noite passada, antes de eu dormir, a Atlântica voltou a comunicar-se comigo. Agradecida pelo que lhe tinha feito, pediu-me que olhasse atentamente através do vidro de sua vigia: ela estava me revelando cenas do futuro!

Na imagem, percebi um homem maduro discutindo com um atendente da lanchonete. Ao alto, do balcão, pude ler “McDonalds do Brasil”, com uma foto do Lulinha, sim, o filho do nosso cefalópode, trajando uma faixa presidencial e um sorriso tão cínico quanto o do pai. Com a atenção mais acurada, pude também ouvir o entrevero:

O atendente: – Senhor, perdoe-nos, mas não podemos atender ao seu pedido de um McLulinha Feliz. Ocorre que justo agora acabaram os nossos créditos de carbono.

O cliente: – rapaz, isto é uma falta de respeito! Antes de se reeleger, o Lulinha, desculpe-me, o “Respeitável Lula Filho” havia nos prometido que a espera no McDonalds, depois de estatizado, não passaria de três horas, mas estou aqui acampado desde a madrugada com esta droga de senha na mão, e agora você vem me dizer que não vou receber o meu prêmio de operário-padrão ganhado de forma tão suada.

O atendente: – Senhor, já temos protocolado nosso projeto de desenvolvimento sustentado desde o ano passado; estamos fazendo o possível junto ao Ministério do Meio Ambiente para liberar novos créditos de carbono. O senhor pode vir da próxima vez, e olha, se o senhor me der um pedacinho do lanche, eu lhe garanto o atendimento sem ter de pegar a fila, ok?

O cliente: – mas isto é um absurdo! Você sabe com quem está falando? (E, mostrando uma carteira com um brasão oficial da República Bolivariana das Américas, diz): Eu não sou qualquer um não, rapaz: eu trabalho na Marijuana Works, a maior fábrica de charutos de maconha do mundo, orgulho do nosso país! Eu quero é falar com o gerente, e já!

O atendente, visivelmente constrangido, tremulamente procura o gerente, que vem assistir o caso, e já tarimbado, por sua vez, pergunta: – O senhor pode me apresentar o seu passe médico?

Ao apresentá-lo, o gerente confere a foto do documento do cliente aborrecido; olha mais uma vez, atentamente, para conferir se é a mesma pessoa, devido à espessa barba, e indaga: – Senhor, sua licença está vencida. Quanto atualmente pesa?

Pego de surpresa, o cliente balbucia algumas coisas incompreensíveis, que tento decifrar, mas a esta altura a vigia vai ficando enevoada, até que a imagem some. Eu peço à Atlântica para continuar, mas ela me diz que já vi o suficiente, e não quer deixar-me mais tenso do que já estava. Ela tem razão.

Espero que a vigia ainda me conte mais coisas do futuro, ou quiçá, do passado. Repassarei aos caros leitores. Quando os marinheiros espiam o mar através da vigia e deparam-se com previsões de mau tempo, é hora de se prepararem e amarrarem as coisas a bordo, para que se não quebrem. Tempos ruins estão chegando…

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