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As belas e a fera

2 de agosto de 2009 - 21:14:39

Há quem diga que a aparição surpreendente de Susan não passou de mera armação de marketing. Refiro-me à sua primeira apresentação, muito tímida, com roupas simples, até mesmo cafonas, seguidas por imagens dos jurados embevecidos, segurando os queixos, por admirados. Não duvido disto. Até acredito. Todavia, tenho que, dentro do ponto de vista do
show business, isto acontece a toda hora e é válido, conquanto o artista tenha realmente talento e não se trate de uma fraude, o que não é o caso da cantora cujo trinado é realmente maravilhoso.

O que me leva a comentar sobre Susan aqui foi a sua posição firme no sentido de aceitar a derrota para o grupo de dança que galgou o primeiro lugar naquela disputa televisiva: “- eles foram os melhores, e por isto venceram”, mais ou menos nestes termos ela tem se pronunciado, e sem hesitação, para todos os repórteres, sempre que perguntada.

Posso até mesmo imaginar que, no seu íntimo, Ms. Boyle tenha se ressentido com o resultado que não esperava.  Do meu próprio ponto de vista, um grupo de rap (ou será que era de hip-hop?) não teria sequer chegado às semifinais. Será que sua internação foi resultado de sua frustração? Pode ser. Porém, isto já faz parte da vida privada daquela gentil senhora, e não nos compete julgar, senão especular levianamente.

O que interessa mesmo, no que pesem os seus sentimentos íntimos, é a postura pública, marcada por uma imagem que é fruto de sua decisão de fazer prevalecer a sua nobreza de caráter e a sua elegância. O julgamento foi injusto? Os jurados agiram parcialmente? Não importa. A sua estrela não depende disto. É categórica: submeteu-se a eles antes e demonstra respeito a todos depois.

Ter percebido a atitude de Ms Boyle disparou-me na memória um caso totalmente diferente. Parece que nossa mente às vezes não é nossa – age como um grilo falante, ou senão, por que razão nos aparecem casos e comparações que, de tão longínquos, pelo menos à primeira vista, aparentam não possuir nenhuma correlação? Ah, mas têm sim, e vou logo explicar: pois, em que página o livro das efemérides se me abrira? No caso Fernanda Montenegro, em Central do Brasil (1998).

Antes, porém, preciso aqui adiantar que ainda vou escrever um artigo comentando sobre as minhas manias militantes politicamente incorretas, tais como me negar a abastecer em postos de Petrobras (e muito menos da PDV), de me negar a adquirir produtos oriundos da China, a ser contra produtos piratas e… a assistir filmes nacionais. O meu amigo Leonardo Bruno vive me sugerindo assistir ao Capitão Nascimento baixando o porrete pelas favelas cariocas, mas, perdoe-me, Conde, aqui o caso não é apenas o de exercer uma esquisita militância de sinal trocado: é alergia mesmo! Filme nacional sempre me passa a impressão de ser mais uma das vítimas da Talidomida.

Bom, voltemos à Sra Fernanda Montenegro, o monstro sagrado do teatro, do cinema e da tevê brasileira, e aqui convido o leitor a buscar na memória se alguma vez a viu exortar as qualidades morais do filme para o público, fosse brasileiro ou americano. Nada? Pois, de minha parte, foi da boca do filósofo Olavo de Carvalho, muitos anos depois, em um de seus programas “True Outspeak”, que vim a ouvir sobre a película os primeiros elogios, no tanto que tinha o filme de enaltecer sentimentos e valores humanos (pode até ser, mas prefiro cuidar da minha alergia).  As minhas lembranças, sim, referem-se às constantes estocadas que a Sra Montenegro fazia ao prêmio que alegava não ser da arte, mas da “indústria globalista” do império norte-americano; àquelas limusines “enoooormes” e “constrangedoras” (sic); e ao povo americano consumista e arrogante!

A Sra Fernanda Montenegro não deixava de inocular seu veneno anti-americanista nem mesmo para os próprios americanos, como uma vez tive a oportunidade de vê-la num programa de David Letterman, a detratar a nação que a recebia com curiosidade e acolhimento, e a vilipendiar os organizadores do prêmio para o qual não fora convidada, mas que candidatou-se voluntariamente, e pelo que seu diretor Walter Salles empenhava-se duramente em jogo de corpo a corpo nos bastidores para adquirir votos para a sua produção.

Será que havia alguma estratégia neste jogo, digamos, à moda petista-bolivariana? Ela desde o início detrataria o evento, “denunciaria” sua parcialidade, achincalharia a indústria hollywoodiana e os jurados, quem sabe, consagrariam “Central Station” para mostrarem como são independentes! Pode ser, talvez não. Afinal, fosse uma mera estratégia de captação de votos, uma Fernanda Montenegro mais aliviada, serena e altiva restaria caso não tivesse logrado êxito: teria cumprido o script, e isto seria tudo.

Porém, nem mesmo após o fim do evento, frustrada tanto a premiação de melhor filme estrangeiro (venceu a produção italiana “A Vida é Bela”), quanto a de melhor atriz (aclamada Gwineth Paltrow, por sua atuação em “Shakespeare Apaixonado”), a Sra Fernanda Montenegro procurou recompor-se: em entrevistas à tevê brasileira, ela não perdia a chance de detratar a bela atriz americana, alegando o seu fingimento, por chorar perante a platéia quando soube que poria as mãos na estatueta, e muito pior do que isto, depreciando e colocando em dúvida as suas qualidades como atriz.

Talvez, para esta senhora que é um ícone das artes cênicas, Central Station estaria fadado desde o início não somente a conquistar uma ou duas estátuas, mas a fazer história, ou a descer como a epifania de Obama e buscar o que era seu por direito, perante uma turma de jurados de bundas pra cima e joelhos no chão.

Não duvido do seu talento e de sua obra, mas hoje me pergunto como esta senhora pôde se deixar rolar pela ladeira do rancor e da inveja, e ninguém à época teve por percebido e criticado tão deprimente postura. Confesso que eu mesmo, inebriado de falacioso arroubo nacionalisteiro, engrossei o coro dos ignorantes indignados. Parece-me que o passar dos anos, pelo menos aqui, fez-me algum bem.

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