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As crianças na guerra

9 de abril de 2009 - 6:53:59

Chama a atenção que os porta-bandeiras da suposta paz, como por exemplo, o Partido Comunista e os Colombianos pela Paz, guardem silêncio cúmplice frente a este ato de barbárie e de corrupção de mentes infantis. Seria de se esperar que os fervorosos defensores dos direitos humanos, sempre voltados a procurar condenações jurídicas politizadas contra os que os combateram no campo de batalha, – por exemplo, o aberrante caso de injustiça contra o coronel Plaza Vega – se pronunciassem com a mesma veemência e fizessem seguimentos minuciosos aos processos pelo recrutamento de menores para os grupos terroristas.

Nós que comandamos operações de contraguerrilha em diferentes regiões do território nacional, diariamente tomamos contato não só com a realidade da Colômbia rural, tão desconhecida como distante para os burocratas citadinos, senão que vimos de perto menores de idade capturados, mortos ou feridos em meio dos combates.

Para mencionar só um caso dos muitos que conheci de perto, cito Henry Gutiérrez Restrepo, cognome “Daniel”, da quadrilha Carlos Alirio Buitrago do ELN, que se apresentou voluntariamente à base militar de Juanes na zona rural de San Carlos Antioquia em 1990.

Na época ele tinha 12 anos de idade, quatro deles de militância na quadrilha terrorista. Foi recrutado pelo ELN por Rigoberto Buitrago Ramírez, cognome “Saúl”, cabeça do grupo e irmão de Carlos e Alirio Buitrago, em cuja memória o sacerdote Bernardo López Arroyave fundou este grupo terrorista no sul oriente antioquino.

Tenho a vívida lembrança do que li em um pedaço de cartolina rasgada de uma caixa de creme dental, que o imberbe trazia na carteira: “Se matarem ou ferirem Henry, localizem minha mãe em San Luis e lhe informem. Ela vive perto do parque municipal”.

Com apenas o segundo ano da escola primária, Henry fazia parte da Comissão de Trabalho Político Organizacional, encarregada entre outras coisas de “limpar a região dos ‘sapos’ [1], dos paramilitares e inimigos da revolução popular”.

Impressionado pela vivacidade do imberbe, complementada por sua extraordinária memória fotográfica e a precisão dos detalhes que narrava, demorei dois dias inteiros, desde as oito da manhã até as nove da noite, desenvolvendo a entrevista e cotejando os dados para a inteligência militar. Muitas de suas revelações foram importante apoio para o livro de minha autoria intitulado “El ELN por dentro”, publicado anos depois desta experiência.

Henry relatou com riqueza de detalhes o planejamento do assalto Cementos Río Claro em 1987, os “justiçamentos” que Palizada cometia, as vezes que o mesmo incinerou carretas na autopista Medellín-Bogotá, os seqüestros de uns ciclistas e uns japoneses inscritos em Isa, o ataque terrorista contra a Central Hidrelétrica de Jaguas, os maus tratos de palavra e de ação que recebeu dos cabeças, e em especial o temor de escapar por medo de que os terroristas assassinassem sua mãe, como lhe havia advertido.

 Henry prestou testemunho ante o promíscuo juiz de San Carlos, porém, de maneira curiosa não houve ação legal contra os que integravam as milícias populares urbanas a quem Henry assinalou com nome próprio e atividades específicas, senão que em pouco tempo todos os denunciados estavam a par das acusações; entretanto, nem foram chamados para depor, nem tampouco foram requeridos por autoridade alguma.

A mesma coisa acontece agora com as reticentes denúncias dos claros nexos do Partido Comunista com as FARC, ou com as críticas sentidas de alguns colunistas acerca do tratamento diferente dos meios de comunicação e das autoridades judiciais, frente aos casos da para-política e da farc-política. Ou ainda com as graves denúncias que Olivo Saldaña fez contra sindicalistas, um ex-governador e dirigentes políticos regionais no Tolima. Uma vez mais, o silêncio cúmplice foi a matriz do assunto.

Chama também a atenção que o grupelho de Piedad Córdoba, agarrado à futilidade do acordo humanitário, sob pena de ressuscitar o decomposto cadáver político das FARC e buscar a candidatura presidencial da polêmica senadora liberal [2], jamais se detém para questionar aos terroristas pelo recrutamento de menores, ou pelos seqüestros, ou por envenenar aquedutos, ou por destruir a infra-estrutura econômica, ou por deslocar tanto camponês ameaçado de morte, etc.

Não. Na agenda dos autodenominados Colombianos pela Paz só aparece escrito o mandado do Foro de São Paulo dirigido por Lula, Chávez, Correa, Ortega, a ditadura cubana e as FARC, que determina: fazer um acordo humanitário na Colômbia que dê status aos terroristas, reconheça sua beligerância e permita-lhes abrir embaixadas em Manágua, Quito, Caracas, Brasília e desatar a etapa final da guerra contra a Colômbia, com o fim de impor uma ditadura totalitária similar à cubana.

O tragicômico do assunto é que, em que pese as revelações dos computadores de Reyes, as anotações do diário da terrorista holandesa que anda ao lado de Lozada, as declarações de Cano em que as FARC não renunciaram a seu Plano Estratégico e que o Foro de São Paulo continua empenhado em envenenar mentes como fizeram em Caracas há uma semana com a homenagem a Tirofijo, ainda há idiotas funcionais que crêem que Lula age de boa-fé, que a idiotice pacifista dos Colombianos pela Paz não tem duplo sentido, e que as FARC com seu comunismo estão perdidas.

Não se dão conta de que, por culpa dessa indiferença e indolência, se não tivesse sido pelo certeiro bombardeio à guarida de Reyes, o maquiavélico complô teria seguido seu curso. E tampouco se dão conta de que as FARC assassinam a vida em flor, que os bandos mal chamados paramilitares são uma conseqüência do terrorismo comunista, que muitos dos “paras” foram primeiro membros das FARC e do ELN, e o que é mais grave: que mais da terça parte dos crimes de lesa-humanidade cometidos pelos grupos terroristas na Colômbia são executados por menores de idade como Henry Gutiérrez, cuja fogosidade é utilizada com macabra e sinistra intencionalidade por desadaptados ou ressentidos sociais como o padre Pérez, o sacerdote Bernardo López Arroyave, e outros bandidos cujos nomes são utilizados pelas quadrilhas das FARC e do ELN.

Duas ou três semanas atrás Ramón Isaza reconheceu ser o autor intelectual da morte dos irmãos Carlos e Alirio Buitrago. Herlinda Ramírez, a mãe das duas vítimas que também é membro ativo do ELN, pediu em público a reparação pela morte de seus dois anjinhos. Compreensível desde o ponto de vista maternal e humano, pois seus dois filhos foram massacrados por assassinos profissionais a serviço de Isaza.

O que não é compreensível desde o ponto de vista jurídico, é porque a mencionada senhora não responde ante os tribunais de justiça pelos crimes de lesa-humanidade que seus filhos cometeram, pela cumplicidade com que os apoiou no transigir clandestino, pelos atos de rebelião que participou, como denunciaram em seu devido momento Angélica Mazo, cognome “Mónica”, Faber e o próprio Henry Gutiérrez.

Porém, é claro, a justiça está sobrecarregada de processos em um país onde a lei e a ordem não se ligam intimamente. E, finalmente, há a tendência ao espetáculo midiático ou às aberrações jurídicas como o politizado julgamento contra o coronel Plazas Veja. Entretanto, por conveniência lógica Petro, Navarro e os demais terroristas desmobilizados do M-19 dizem que tudo foi pelas suas costas, que eles eram do M-19 mas não participaram do sangrento assalto, portanto, não são responsáveis e, claro, que eles nunca recrutaram crianças para o M-19.

Na prática, enquanto milhares de imberbes bajulados nos obscuros estratagemas da guerra leninista contra a institucionalidade continuam enredados em uma sangria feroz, os comissários políticos dessa barbárie, dedicados a legitimá-los, seguem juntos com a atitude calculada e condescendente dos mandatários marxistas do Equador, Venezuela, Brasil, Bolívia e Nicarágua.

Esse é um esboço global do entorno das crianças que estão na guerra contra a Colômbia.

Cel. Luis Alberto Villamarín Pulido é analista de assuntos estratégicos – www.luisvillamarin.co.nr

[1]. “Sapo” significa alcagüete, aquele que colhe informação dos bandos terroristas e passa para os policiais e militares. Tal expressão também é usada palas FARC. [N.T.]

[2]. N. do E: O termo aqui significa “esquerdista”, como acontece nos EUA.

Tradução: Graça Salgueiro

 

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