1. Arquivos
  2. Cultura

As três soluções

23 de janeiro de 2010 - 8:46:43

Nada mais errado. Quem me conhece sabe que sou completamente contra o “quietismo político” – a nemesis da política do ceticismo que se disfarça sob os nomes de “tolerância”, “pluralismo” e “conciliação”. Trata-se nada mais nada menos de uma paralisia do espírito que estimula a tal da entropia da qual já falei. The best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity, dizia o bom e velho Yeats.

Para quem ainda não está familiarizado com alguns termos, a política do ceticismo é uma atitude que se contrapõe à chamada política da fé. Os conceitos não são meus e sim de Michael Oakeshott. A , no caso, não é a crença religiosa, mas uma fé em acreditar piamente que só a razão humana, em sua auto-suficiência, pode resolver os problemas humanos e, conseqüentemente, também os problemas políticos. O ceticismo é a atitude de oposição, que se resguarda das supostas vitórias da razão e prefere deixar as circunstâncias e a falibilidade humana ditarem os fatos. Segundo Oakeshott, os maiores exemplos de política da fé seriam os progressistas, os liberais e os socialistas; e os do ceticismo seriam ninguém menos que os mal-fadados conservadores.

Oakeshott falava a partir de uma perspectiva européia e frisava um detalhe em seu raciocínio: ambas as atitudes podem, em um determinado momento, parecer semelhantes. Além disso, elas não são atitudes ideológicas – ou seja, não são sistemas acabados de dogmas ou argumentações encadeadas. São somente atitudes de governo, nunca de Estado. A área que Oakeshott desejava abarcar era um espectro de ação pré-política, antes de qualquer classificação partidária e, claro, de ideologia.

Como estamos a tratar do Brasil, ficamos afoitos em encaixar a teoria de Oakeshott no nosso mundo político. Qualquer um com dois dedos na testa sabe que isso é impossível. E o motivo é simples: não há como encontrar nenhuma espécie de atitude de oposição entre uma política da fé e uma política do ceticismo. Durante anos e anos, a tradição política brasileira se baseou nos pilares da “conciliação”, como descreve bem Paulo Mercadante em seu livro A Consciência Conservadora no Brasil. O conservador citado aqui não é o mesmo que se inspira em Burke, Nabuco, Tocqueville ou Churchill; um outro sinônimo para isso é “acomodado”. O político prefere se “acomodar” no rame-rame estatal e faz suas “conciliações” conforme as circunstâncias permitem ou exigem, esquecendo-se, é claro, de um possível projeto de nação ou até mesmo de se preocupar com o que a sociedade concretamente necessita. Esta linha de pensamento formou a nossa tradição da “social-democracia obscurantista” (a expressão é também de Paulo Mercadante) que, nos dias atuais, é representado pelos partidos do PSDB e do PT.

Estes dois partidos, apesar de aparentarem uma “oposição”, na verdade falam a mesma língua e trocam farpas no mesmo ambiente cultural. São duplos miméticos, para usarmos um termo girardiano, em que um imita o outro conforme a rivalidade se intensifica, tornando-os indistingüiveis quando a propaganda os faz parecer diferentes. Formam a “social-democracia obscurantista” porque criaram o totalitarismo cultural e espiritual que vivemos nos nossos dias. Você pode até pensar que não está em um regime totalitário porque ainda (repito: ainda) não foi preso por uma Securitate ou uma KGB tupiniquim, mas pergunto-lhe: Já tentou falar de algo que escape do relativismo moral que abunda nas universidades e redações de jornais? Experimente falar de qualquer tema metafísico ou religioso; é batata que você será catalogado como “carola”. Defenda a hieraquia da realidade, em que a ordem das coisas se sobrepõe ao fanaticismo da igualdade – e veja como as pessoas não o convidarão mais para o cocktail bacana onde você poderia descolar um empreguinho trendy. Isso sim é totalitarismo – e o pior de todos pois é o totalitarismo consentido, fortalecido na pusilanimidade humana, na apatia da ação débil, que confunde caridade com coniviência criminosa. Se não matam o seu corpo, matam a sua alma.

O PSDB e o PT – e José Sarney, Collor de Mello, Democratas, you name it – simplesmente acabaram com qualquer espécie de oposição no debate político do país. Eles são adeptos totais da política da fé; são jacobinos elevados a terceira potência, tomando decisões dentro de seus gabinetes, completamente descolados do real, possuídos por uma ideologia que, somada à libido dominandi, resulta no país onde vivemos: uma vitrine feita apenas para inglês ver que, seduzida pelas estatísticas e pelos números, acha que está em pujança econômica quando isto é, na verdade, o primeiro passo para a queda definitiva.

Para piorar, não temos sequer uma resistência digna de nome. Exceto o trabalho pioneiro de Olavo de Carvalho, que avisou todo mundo, mas ninguém ouviu, não se pode contar com uma vivalma; nem com os liberais, que se preocupam somente com a economia e com uma tal de “liberdade” que nem eles próprios desconfiam o que seja; nem com os conservadores, que não existem no Brasil e, se isso ocorrer, tenham certeza de que será um milagre; nem com uma suposta resistência cristã, que, dividida entre a Igreja Católica e uma parcela dos evangélicos, não sabem se tomam o lado da caridade dos tolos ou assumem de vez o vírus da Teologia da Libertação. E se alguém espera alguma coisa do setor empresarial, que, sem dúvida, é o que sai mais prejudicado com toda essa situação (afinal, um livre mercado só pode existir se a liberdade existir dentro de uma determinada ordem e hierarquia), podem esquecer: como já sabemos, o PT fez questão de comprar a consciência de cada um, tornando-os socialistas de carteirinha.

No aspecto cultural, que é o que me interessa, as conseqüências são seríssimas: a sociedade passa a viver em uma espécie de realidade alternativa, onde as coisas se apresentam como uma espécie de alucinação, impossibilitando os pequenos detalhes que fazem a vida prática funcionar. Mas como todos querem uma existência sossegada, então aceitam a situação e se abaixam até um dia o focinho alcançar o chão. É um passo para a estratégia da avestruz: enfiar a cabeça na terra e mentir para si mesmo parece ser a resposta certa, pelo menos segundo esses senhores.

Quando uma sociedade se descola propositadamente da realidade, toda a sua cultura se torna um instrumento de poder. E quando as pessoas pensam somente dentro de uma lógica de poder, é apenas um passo para uma guerra civil. Contudo, essa guerra civil não acontecerá de modo apocalíptico; é a destruição das instituições por dentro, como o cupim que come a madeira, para depois atingir a população numa letargia sem precendentes, da qual ninguém sabe mais de onde vem o mal que a aflige. A guerra civil se dará entre as famílias, entre os amigos, entre as pessoas mais queridas. E o fato de que, para destruir a sua vida, você não precisa mais de ter um inimigo e sim somente um bom amigo – eis a grande novidade do totalitarismo do século XXI.

Por isso, nesta situação sufocante, as pessoas me perguntam:

– Mas qual é a solução, Martim, qual é a solução?

Confesso que não sei. Minha função não é dar solução para ninguém – nem mesmo eu tenho isso para a minha própria pessoa. Mas, recentemente, li um livro que foi lançado em Dezembro, O Diário da Felicidade (É Realizações, trad. Elpídio Mario Dantas Fonseca), do filósofo romeno Nicolae Steinhardt. Logo na sua abertura, Steinhardt, que foi preso pela Securitate (a KGB romena), fala sobre as três soluções que dão certo para o homem que tenta se manter íntegro em qualquer ambiente de espírito totalitário (e, por qualquer ambiente, entenda-se cultural, espiritual, político, social, etc.):

– A primeira é inspirada em Alexander Solzhenitsyn, o autor de Arquipélago Gulag: a partir do momento em que você for preso, depois de ter atravessado o interrogatório de uma Gestapo, de uma KGB ou de uma Securitate, decida-se pela seguinte resolução – você é um homem morto. Se decidir isso, nada mais tem importância; podem torturá-lo, xingá-lo, incitar seus amigos e parentes à traição, nada disso lhe atingirá. Porque, afinal de contas, você morreu para o mundo.

– A segunda é inspirada em um romance chamado As alturas ocas, de Alexander Zinoviev, a partir de um personagem apelidado de O Rebelde. Consiste na decisão pela total inaptidão em relação ao sistema. Você se finge de louco – aliás, torna-se o próprio bobo da corte; assim, pode gritar aos quatro cantos sobre as mazelas da sociedade que ninguém o escutará porque, afinal de contas, sempre será considerado pelos outros como um pinel de marca maior.

– A terceira é inspirada em episódios das vidas de Winston Churchill e de Vladimir Bukowski. Churchill afirmava que, mesmo com o pressentimento de uma guerra terrível, sentia-se rejuvenescido como se tivesse vinte anos; Bukowski não podia esperar pelo momento de ser chamado pela KGB e enfim ser interrogado porque queria entrar na sala “como um tanque de guerra” e gritar a todos a verdade sobre a Rússia. Esta é a decisão do “retroceder nunca, render-se jamais”; a de que é melhor quebrar do que vergar; a do sujeito que encontra suas forças mesmo quando o combate parece estar completamente perdido.

Steinhardt afirma que essas três soluções dão certo em termos práticos e ninguém lhe disse o contrário. São atitudes essencialmente a-políticas, mas, se realizadas com uma certa retidão, podem provocar terremotos consideráveis na política de nosso país. Afinal de contas, o totalitarismo que reina no Brasil é o da estupidez humana. Logo, por que ter medo?

E aí, leitor? Agora sou eu que lhe faço a pergunta: Qual é a solução que você prefere?

{slide=Artigos Relacionados}{loadposition insidecontent}{/slide}

{slide=Artigos do Mesmo Autor}{loadposition insidecontent2}{/slide}