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Atravessador da empulhação

24 de junho de 2009 - 19:49:36

Trata a matéria de denunciar a cadeia da distribuição do pescado que, no jargão de Lázaro Moraes, o autor, é operada por “atravessadores”, ou seja, por indivíduos maldosos que vivem de explorar o trabalho dos pescadores, aproveitando-se de sua falta de infra-estrutura, e também a população, por majorarem abusivamente os preços.

Informa o prodigioso:

A mesma gurijuba vendida pelos pescadores a R$ 4,50, no porto de Arapiranga, na quinta-feira pela manhã, era comercializada a R$ 7 para a população. O quilo da dourada, vendida a R$ 6 pelos pescadores, chegava a R$ 9 no Mercado Municipal de Vigia, a cerca de 1.000 metros dali, distância suficiente para que o preço do peixe tivesse um aumento de pelo menos 50% devido à ação dos atravessadores, ou 5% a cada 100 metros.

Que brilhante dedução pretendia demonstrar quando afirmou que o peixe teve aumentado o preço em 5% a cada 100 metros? Bom, a tomar esta informação por correta, o preço final no Mercado de Vigia seria na verdade de R$ 9,77, mas em Belém, distante 77 km dali em linha reta, o preço seria tal que nem todo o dinheiro em circulação no país seria capaz de pagar (o meu Excell não foi capaz de expressar esta quantia – se alguém tiver um supercomputador e se dispuser a verificar, o cálculo é 6 x 1,057700). Tomando, por condescendência, que o preço subisse R$ 0,30 a cada cem metros, um único quilinho da dourada chegaria ao Mercado do Ver-o-Peso a R$ 2.310,00.

Bom, o fato é que, mesmo nos supermercados da Grande Belém, a dourada pode ser comprada por menos de R$ 9,00 o quilo, a significar que haja não uma diferença baseada em metros, mas entre elos de uma cadeia produtiva em que agora são computados os custos com transporte, conservação e venda.  Parece isto ser tão complicado assim?

Como alguém que ocupe a posição de editor do maior jornal da Amazônia pode se permitir expor a tamanho ridículo, e com tanta desenvoltura? Hipóteses? Nunca caiu de uma bicicleta? Nunca botou a mão na tomada? Ou nunca foi criticado?

Porém, inconformado em expor os seus dotes acadêmicos somente na área da lógica e da matemática financeira, o repórter também se esmera na área econômica:

“Este cenário fica ainda pior com um novo ingrediente: os atravessadores interestaduais, que oferecem preços mais competitivos que o mercado interno, e levam o peixe para fora do Estado, provocando evasão de divisas”

Somente para o leitor não me estranhar, já que sabe que não escrevo estado com inicial maiúscula, lembro de que somente estou a reproduzir a citação alheia.   Agora voltando ao assunto, alguém, por favor, explique-me como é que uma operação de venda interestadual provoca uma “evasão de divisas”, e ainda mais pagando um preço melhor que os compradores internos?

Esta questão do preço do pescado no Pará tornou-se um verdadeiro fetiche político. Durante a época da Semana Santa, anualmente o governo estadual vem editando decretos proibindo a venda para fora das suas fronteiras, com o objetivo de forçar o preço para baixo. Se isto não é usurpação de propriedade privada, mesmo que enfeitada por expressões de sentido tão palpável quanto o vapor de uma chaleira, como o tal do “interesse público” ou “soberania alimentar”, já não sei mais o que significa o instituto jurídico que deveria nos proteger da mão grande estatal. Fico a imaginar o que aconteceria aos paraenses, que importam quase tudo o que se encontra nas prateleiras dos supermercados, se outros estados decidissem praticar a mesma atitude com relação aos seus produtos, ainda mais neste momento em que se decidiu abrir a temporada de caça às bruxas contra a pecuária.

Denominando a atividade do distribuidor como “esquema”, como se este fosse um ato ilícito perpetrado por gangues de marginais, ele “descortina” formidavelmente, como um grande “furo” jornalístico, seu modus operandi:

Um atravessador que atua no município de Vigia diz como funciona o esquema de compra e venda do pescado. Ele revela que a margem de lucro geralmente é de R$ 0,50 por quilo e que o segredo é conseguir arrumar fornecedor para o comprador.

E mais adiante, revela até onde chega a criatividade da mente criminosa dos atravessadores:

Sem recursos para viajar, o pequeno pescador aceita óleo, mantimentos e até material para pesca conseguidos pelo atravessador. Tudo para ser pago quando a carga for desembarcada. O preço é previamente acertado. O atravessador receberá do comprador o valor combinado, do qual retira a sua margem de lucro e desconta as despesas com o material “financiado” para o pescador.

Que me seja permitido verificar se bem entendi: o distribuidor (ops, “atravessador”) procura o comprador, negocia os preços (o que garante ao pescador o proveito da empreitada), fornece ao pescador os insumos (financia-o, de fato, e por que não, Sr. Moraes?), arranja a logística do transporte e da conservação e afinal, é um ladrão por conseguir cinqüenta centavos por quilo?

Porém, o que jaz exposto ainda não é tudo: atribuindo a depoimentos de pescadores o que possivelmente desejaria apresentar como a sua própria solução, cita-os da seguinte maneira:

Os pescadores reclamam da falta de ação do poder público, que não intervém no processo de produção e comercialização do produto, deixando-os à mercê dos atravessadores, já que eles não têm condições de vender o produto diretamente para a população por falta de estrutura, como fábricas de gelo, câmaras frigoríficas e outros recursos. “A culpa é do governo. Se o governo vendesse o óleo (combustível para as embarcações) com subsídio, a gente tinha saída. Hoje, o (litro) óleo sai a 1,18 à vista, ou R$ 2,35 a prazo, no cartão de crédito”, reclama o pescador Bento da Silva Andrade, 42 anos, dono do barco “Comandante Igor” que trabalha na profissão desde os 10 anos de idade.

Bom, “se”, “se” e “se”, melhor que todas estas facilidades caíssem do céu, não? Ou como dizer, em linguagem lulo-futebolística: se a bola estivesse da frente da trave, e se o goleiro não estivesse lá para defendê-la, assim seria mais fácil marcar o gol! Decerto, mas ainda assim, não haveria de estar lá alguém que a chutasse? E este alguém, também não necessitaria comer?

Talvez não tenha ocorrido ao primoroso repórter questionar por que as pessoas não se dirigem ao porto de Arapiranga, às cinco horas da madrugada, para, aproveitando-se da plena liberdade que possuem, comprar diretamente o peixe dos pescadores. Teria percebido que lhes seria mais caro moverem-se individualmente? Também poderia perguntar a si mesmo por que motivo os pescadores preferem voltar ao mar imediatamente, e ao invés, desprezar todo o investimento na embarcação para deterem-se em terra a fim de transportarem e venderem ao consumidor final, um a um: ” – o cliente quer em postas ou que retire o filé?”

Entretanto, pela atividade dos distribuidores, a quem os chama de atravessadores, e pela atividade dos comerciantes varejistas, na reportagem retratados como avarentos, são propriamente os cidadãos que compram peixe os que patrocinam toda esta cadeia produtiva.  Ademais, estes consumidores são uns sujeitos um tanto exigentes e infiéis: basta que alguns destes agentes – pescadores, distribuidores ou varejistas – atuem com desperdícios ou cobrem demasiado, que eles logo procurarão meios alternativos de consumo, via carne bovina ou avícola, por exemplo.

Em via oposta, caso toda esta logística – transporte, refrigeração, ponto de comércio, balanças – venha a ser oferecida pelo estado, nem por isto seria gratuita, pois não só os consumidores de pescado pagariam, mas também todos aqueles que, como o meu pai, detestam peixe. Farão isto por meio dos impostos, que encarecerão o resto de tudo o que for produzido. Também não haverá mais o estímulo para que todas estas atividades sejam oferecidas segundo uma forma mais barata e eficiente. Obras superfaturadas, propinas para vagas nas câmaras frigoríficas e a concessão de pontos de venda mediante critérios políticos serão a nova marca da economia de distribuição e comércio estatizadas. Finalmente, duvido que, supridas estas condições, os felizes pescadores não aumentassem o valor dos seus produtos ao mesmo patamar atual.

A matéria do Sr Lázaro Moraes teria sentido em Cuba, onde os órgãos de repressão do governo estouram fábricas clandestinas de creme de leite e manteiga e confiscam galinhas nos restaurantes que não apresentem certificado de origem, enquanto a população passa fome. Fica a sugestão aos Maiorana: esqueçam a gloriosa história do jornal e mudem o seu nome.

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