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Avôa Besouro!

12 de dezembro de 2009 - 5:16:53

Por que Besouro deixa um ar de frustração então? Penso que é porque em seus teasers e trailers, ele prometia ser um filme de artes-marciais selecionando a capoeira como veículo plástico mas não o é. A participação de coreógrafos de “O Tigre e o Dragão”, épico moderno das artes-marciais reconhecido por sua estética poética, sugeria uma pretensão de nos reapresentar a capoeira na mesma escala daquele filme. De fato, nada falta à arte para que ela servisse de matéria-prima para um poema visual daquela magnitude. Justiça seja feita, “Besouro” tenta chegar lá. Mas soa como um bom cantor lírico que não alcança as notas e o virtuosismo dos mestres. Não alcança, porém, menos pela falta de potencial – ele está lá, nos dá o gostinho -, e mais por uma terrível âncora que deixa os vôos de ” Besouro” pesados, se elevando ao ar com muita dificuldade e não superando as baixas altitudes.

Esta âncora é fato que “Besouro” não é um filme de artes-marciais, mas um folhetim ideológico e panfletário da mitologia política do movimento chamado negro. Para entender como uma agenda política sufoca uma promessa de um grande filme teremos que destrinchar alguns dos elementos do filme. E não se enganem, existem boas coisas lá, minha crítica sendo não que o “Besouro” rasteje, mas que não voa tão alto quanto poderia para atender aos programas políticos atuais. Minha análise focará os seguintes elementos: o personagem principal sob a luz de suas referências históricas, sociais e ideológicas, os vilões, que são basicamente o coronel, o capanga e o traidor, e na representação dos orixás, estes primeiramente segundo uma breve análise cristã e em seguida uma análise de suas funções narrativas e suas tensões simbólicas.

São três os Besouros de que falaremos: o histórico, o mítico e um Frankstein de propaganda. Os dois primeiros são os voadores, o último é o peso que segura o filme. O ser humano apelidado de “Besouro Magangá” existiu historicamente. Foi um capoeirista conhecido na Bahia em seu tempo por sua personalidade forte, destreza excepcional na capoeira, confrontos com a polícia, não ter profissão específica nem trabalho fixo e por defender os fracos de injustiças dos fortes e ser arrumador de confusão. Outra característica era de saber “sumir” quando via que o número de inimigos era muito grande, daí o dizer-se que ele virava besouro e “avoava”. Morreu aos 27 anos em circunstâncias duvidosas, segundo alguns em mais um confronto com a polícia, segundo outros por uma cilada armada por um de seus inimigos. Algumas versões incluem a faca de ticum, que também vemos no filme, como elemento necessário para ferir alguém de “corpo fechado”. O Besouro histórico era realmente candomblecista e filho de Ogum (seu lado guerreiro), protegido de Xangô (representando seu senso de justiça). Ou seja, concessões feitas às naturais falhas e imperfeições humanas, o Besouro histórico era um “valentão do bem”, utilizando sua genialidade marcial para resolver “na mão” as injustiças que encontrava pela frente. Era também um dos tipos que geraram o arquétipo do malandro brasileiro, vivendo de bicos aqui e acolá para sustentar o que ele mesmo devia considerar uma vida agradável. Mesmo sendo “do bem” acabou encontrando o fim que todo valentão encontra, sendo morto por uma brutalidade maior do que a que ele poderia lidar.

O Besouro mítico é o que acontece quando aquela pessoa de carne e osso se transforma em uma lenda, uma figura de sonho e imaginação. Este é a figura cantada nas rodas de capoeira. Tem contornos de um verdadeiro ancestral, uma espécie de figura espiritual intermediária entre orixás e homens, uma força e uma vibração, talvez um encantado ou um baba egum. O Besouro mítico é um signo, um arquétipo estrutural, formador e inspirador, um personagem verdadeiramente espontâneo e profundamente significativo. Suas canções exaltam suas capacidades sobrenaturais, seu senso de justiça e a tragédia de sua morte por traição. Esse era o Besouro que eu supunha iria encontrar no filme. Mas era o terceiro que lá estava.

Ao invés de um “bom malandro” que desenvolve poderes e cresce em caráter para se tornar um herói, o que vemos é um tipo de “super-ativista social”. De fora fica o malandro brigão que tira satisfações com os bullies locais subjugando-os com sua capoeira superior, e entra um “alienado” político cujo “crescimento” consiste e “conscientizar-se” politicamente e fomentar a luta de classes, estas, aqui, em sobreposição perfeita com as melaninas das peles. Todos os negros são proletários semi-escravos e boa gente, todos os brancos são senhores e malvados. Ao Besouro cabe apenas assumir seu “papel histórico” e dar início à “consciência negra”. A luta de classes inspirada por ele é simbolizada no final quando vemos o “negro alquebrado” e a “negra estuprada” possuídos do espírito de Besouro lutando e humilhando os senhores brancos.

Os outros dois Besouros foram tão radicalmente eliminados do filme que é necessário que o tempo todo os outros personagens nos informem em suas falas sobre como Besouro costumava ser vaidoso, irresponsável, malandro. Na verdade em momento nenhum vemos esse personagem. Logo no início do filme ocorre a morte de Mestre Alípio “por causa de suas idéias”, como uma personagem também nos informa insinuando que ele era algum tipo de intelectual proletário que só não agia por faltar-lhe a habilidade física e portanto cabia a Besouro executar as idéias do “pensador”. Imediatamente Besouro entra em crise, que porém é mal notada pois não o conhecemos antes daquele momento. Mestre Alípio e todos os demais personagens profetizam sobre o dever de Besouro de executar as idéias revolucionárias de seu mestre. Mestre Alípio era um mobilizador social com suas idéias, Besouro tinha que sê-lo com suas ações. Como Besouro é o personagem principal do filme é com ele que o espectador se identificará e, portanto, a mensagem é clara: o papel do herói é ser um agente de revolução social seguindo as idéias e heranças dos pensadores sociais do passado e que “morreram por elas”. Como um filme tão visceralmente comprometido em ser uma propaganda política poderia alcançar as alturas de poema visual épico, mesmo possuindo alguns elementos plásticos dele, tão mesquinhamente constrangido desde dentro por objetivos tão pequenos?

Por sua vez, o mal está representado quase excluivamente pelos brancos. Da parte destes não há uma só qualidade boa, nenhuma virtude redentora, nenhuma complexidade. São plana e bidimensionalmente malévolos. Se até as femme fatales russas de um filme do 007 são capazes de uma ambigüidade primária, ainda que por desejo pelo herói, os homens brancos do filme patrocinado pela ANCINE não possuem sequer um sentimentozinho bom. São resoluta e inequivocamente perversos. O coronel, arremedo de elite, é visceralmente malicioso e ganancioso. Suas únicas lágrimas são pela plantação queimada, seus sentimentos pelos negros são exclusivamente os de posse, ódio, luxúria e inveja. Quando ajuda o povo é para seduzi-lo diabolicamente a maior servitude. Quando elogia a capoeira é com o fim de corromper seus praticantes. Derrotado, sequer jura vingança ou “Eu voltarei” como os mais rasos vilões. Cai na bebida, apanha de mulher, é ridicularizado pelas crianças, vive como sombra pelos cantos e não sustenta o olhar de um menino. Nada nele se salva, nem mesmo enquanto vilão.

Os capangas, por sua vez, são o mesmo que o coronel, porém sem o polimento de senhorio. O líder dos capangas é o “corifeu” do grupo, sendo através dele que a persona deles se expressa plenamente. Brutais, ignorantes, cegos, caninamente subservientes, cruéis, seu maior prazer é bater em negros, fazer piadas racistas e humilhar os semi-escravos. São apenas um conceito, não pessoas, vivendo unicamente para odiar os negros. Sem amor sequer entre eles mesmos, zombam quando um dos seus morre, especialmente por considerarem a humilhação suprema o fato de morrer travestido de negro. Se o coronel é uma espécie de demônio-mor, os capangas são sua pequena legião de diabretes.

O único vilão que apresenta alguma ambigüidade é o negro traidor; afinal, não sendo branco, pode apresentar certa humanidade. Seduzido pelo discurso da “classe opressora”, abdica da sua “identidade afro” deixando de lado as roupas e penteados de escravo para adotar as roupas e penteado dos brancos. A menção ao cabelo é importante pois no início do filme vemo-lo precisamente elogiando o cabelo encarapinhado da moça que ama. A adoção de uma tentativa de penteado de cabelo liso simboliza, assim, a mudança de valores do personagem e sua “perda de identidade”. A transição é rápida. Basta o coronel tecer alguns elogios para que o personagem seja seduzido e sua parceira, logo percebendo o “pecado ideológico” do parceiro, nos informa que ele é burro por fazer isso e nos dá um exemplo de como devem ser tratados esses “vendidos”: se afastando dele. Na ideologia do racismo afro, o negro que deseja “sair da senzala” sem ser matando brancos física ou simbolicamente, necessariamente é vendido e desprezível e o filme nos apresenta o personagem com o fim de transmitir este dogma. Vigoroso e belo enquanto ainda “de raiz”, se torna uma figura patética e débil ao fim do filme, não sem antes ser humilhado tanto por negros (nas pessoas de sua ex-namorada e de Besouro) quanto pelos próprios brancos aos quais desejava se unir (na figura do líder dos capangas). A lição está aprendida. Lugar de negro é na revolução, mas que não saia da senzala.

Finalmente, os orixás. Não há como dizer tal coisa delicadamente. Os deuses pagãos, sejam eles gregos, escandinavos ou africanos, são todos, sem exceção demônios. Penso que se a liberdade religiosa protege as pessoas que fundamentam suas intenções de assassinato, adultério e opressão em práticas e crenças fetichistas, há de proteger aqueles que meramente se escandalizam com a glamourização estética destas práticas. Talvez haja quem considere que cortar o pescoço de um bode vivo em um ritual extático sob a cacofonia de sons opressivos que provocam a posse da alma por entidades sombrias (ou forças subconscientes) seja equivalente a conscientemente tomar pão e vinho misticamente transformados na carne e sangue de Jesus Cristo sob cânticos litúrgicos, não para ser possuído, mas para sermos libertos. Este autor considera que não e pensa também que não está desacompanhado em tal sentimento no Brasil de maioria católica e no qual 55 milhões de negros são católicos (ainda que apenas 10% fosse praticante, seriam ainda 5 milhões), 8.7 milhões são pentecostais, enquanto, entre candomblecistas e umbandistas, o número de negros não chega a 250 mil. Ao mesmo tempo, na “Mama – África” os negros optaram maciçamente pelo Cristianismo e Islamismo, abandonando as práticas fetichistas e xamânicas das tribos. O primeiro conta com uma adesão média de 45% dos africanos, enquanto os segundos com cerca de 37%. Juntas, estas religiões que possuem opiniões bastante semelhantes quanto a natureza dos “deuses” tradicionais da África, somam quase 90% da população daquele continente. Bastariam tais números para colocar em suspeita a qualidade moral e mesmo da verdade espiritual contida nas práticas que os africanos abandonaram. E também fazem pensar porque o movimento dito negro passa ao largo de uma tão inegável e sistemática escolha dos seus “protegidos” por religiões com uma profunda capacidade civilizacional e filosófica para tentar, por força da repetição, associar a identidade deles a práticas de alienação psico-espiritual e cultivo da mentalidade mágica.

Entretanto, no filme, os Orixás são entidades protetoras do personagem principal em sua missão de insuflar a luta de classes sob a máscara de luta de raças. Assim, representam-nos como figuras eminentemente positivas apesar das confissões de amoralidade do único Orixá com fala no filme, o repulsivo Exu. Esta imagem de positividade é alcançada não só pelo apoio dos entes espirituais aos personagens “do bem”, como por uma estética da beleza, do vigor e da sensualidade na busca de conduzir o gostar do espectador através de impulsos primários. A ligação com a natureza, também contribui para essa positividade dados os valores ecológicos atuais. Os Orixás do filme “Besouro” portanto, são as forças telúricas e espirituais que fomentam e coordenam tanto o ideário ecológico quanto o social, sendo fonte e base da harmonia entre os dois. Assim, até estes pobres demônios são reduzidos de sua condição infernal a meras peças de propaganda, encarnando a força dos movimentos revolucionários.

Uma contradição digna de nota é a comparação da relação de Besouro com Exu e sua relação com o Coronel. Enquanto Besouro revolta-se contra a exigência de submissão do Coronel, e esta revolta é imantada de positividade, ele submete-se servilmente a Exu, que repete para Besouro as palavras de Satanás para Jesus no deserto, exigindo que o personagem se curve perante ele para receber a força para dominar vencer o mundo. Esta abjeta queda de Besouro que se curva de joelhos e cabeça abaixada perante o demônio é, entretanto, apresentada com o signo da “humildade”, como o momento em que Besouro vence seu orgulho personalista, deixa de ser alienado, compreende as idéias do seu mestre e inicia seu caminho como vingador dos oprimidos.

Estuturalmente, Exu e o Coronel são idênticos. Ambos são representantes de classes “superiores” (espiritual e social respectivamente) de seres. Ambos exigem que Besouro se curve, ambos consideram que ele estar de joelhos é necessário, ambos o atacam e castigam por ele não se submeter, ambos consideram sua resistência e impetuosidade como orgulho, ambos prometem benesses caso ele submeta. Qualquer força espiritual ou de caráter que a vitória sobre o Coronel poderia ter é completamente esvaziada pela submissão de Besouro a Exu. Sua derrota espiritual é um lodaçal que impede que ele voe mais alto posteriormente, pois tudo que ele faça em relação ao coronel já está espiritualmente consumado com sinal oposto desde o encontro de Besouro com a entidade amoral.

Nesta debochada inversão da vitória cristã sobre as três tentações fundamentais do demônio (gula, vaidade, poder) a serviço da idolatria e danação da alma humana, revelam-se as forças psíquicas ou espirituais, como queiram, que impedem o vôo de “Besouro”. O épico exige algo do sublime, como vemos em “O Tigre e o Dragão” e filmes que nele se inspiraram (“O Clã das Adagas Voadoras”, por exemplo). Exige a superação das forças cadentes e abissais da alma. “Besouro”, porém, cegado pela ideologia, supõe que estas mesmas anti-forças da escuridão é que iriam gerar um herói, no sentido literário do termo. O drama épico é implodido inteiro na genuflexão de Besouro ao demônio, toda a possibilidade de grandeza morta ali mesmo para dar lugar ao ideário da “consciência negra”, da “resistência racial” e da luta de classes. É naquele momento trágico, que o filme se afasta daqueles que o teriam inspirado no gênero, se afasta da promessa que sentíamos nos trailers e se afasta de qualquer relevância que poderia ter na colaboração do alargamento da alma humana, reduzido a pífia peça de propaganda animada por cenas de ação.

O atrativo filme, porém, como em “Tropa de Elite”, são os potenciais positivos, infelizmente abortados pela propaganda ideológica. O Brasil se tornou nos últimos anos um deserto tão seco de altos ideais, tão ideologicamente raso, que o brasileiro está sedento de grandeza, de verdadeira sabedoria e virtude, de coragem viril e reto discernimento. Que nossos artistas apreendam essa necessidade, corajosamente deixem de lado seus patronos filicidas e expressem na arte a grandeza da virtude, do amor, da verdade, do belo, execrando a mesquinharia da ideologia, da ignorância voluntária, da fomentação de ódios entre classes e raças, da prisão de pessoas individuais em identidades sociais coletivas. Seus filmes são bons e fazem sucesso pelas virtudes imanentes que suas ideologias negam. Assumam estas virtudes.

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