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Brasil: um plano por trás do Plano?

2 de fevereiro de 2010 - 6:28:24

1. No gigantesco e poderoso Brasil, o “moderado” presidente Lula da Silva entrou na reta final de seu mandato soltando uma “psi-bomba em cacho” que sugere medidas de controle sobre os meios de comunicação; de extorsão dos proprietários rurais e de apoio aos invasores de terras; de desmoralização dos militares com a reabertura de processos; de humilhação dos setores pró-vida com a liberação do aborto; e de choque frontal contra outros setores da sociedade. Trata-se do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH III), lançado pelo governo lulista como uma lamentável surpresa de Natal e Reis.

2. O que chamou a atenção de muitos é que o Sr. Lula da Silva fizesse essa investida geral na última hora de seu mandato, lançando uma “psi-bomba em cacho” que afetou de uma só vez a tantos setores. Com isso, arrisca seu prestígio de “moderado” com o qual ganhou a confiança de amplos setores privados brasileiros, em especial, do setor financeiro e dos grandes grupos empresariais.

3. O anúncio do PNDH terá sido um escorregão do experimentado lobo da política brasileira, que teria se deixado empurrar pelos círculos concêntricos radicais que o apóiam e que estariam cobrando o pagamento da fatura política? Será parte de algum plano estratégico, de hegemonia gramsciana da sociedade brasileira? Constituirá numa sondagem para ver até onde se poderá chegar em matéria de esquerdização sem grandes sobressaltos da elite e da opinião pública, ou talvez um pouco de cada coisa, tudo ao mesmo tempo?

4. Em 21 de dezembro de 2009, o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, lançou em Brasília o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH III) na presença do presidente Lula da Silva, de sua candidata presidencial, a ex-guerrilheira e atual ministra Dilma Rousseff e de figuras representativas das esquerdas brasileiras.

Pouco depois de lançada a “psi-bomba em cacho”, levantou-se um clamor contra o Plano desde os meios de comunicação, e foram publicados brilhantes artigos dissecando os aspectos totalitários e intervencionistas do referido projeto. Diante desse mal-estar, o presidente Lula da Silva e vários de seus ministros simplesmente foram baixando o perfil do Plano, dizendo que ele tinha um caráter propositivo e de debate, e de nenhuma maneira impositivo. E chegaram a anunciar a retirada de tópicos mais polêmicos, como o aborto, depois que o presidente Lula fosse acusado de “novo Herodes” nos meios eclesiais.

5. Tratou-se de retrocessos ziguezagueantes, de caráter meramente estratégico, sem que seus autores e patrocinadores se retratassem em nada das propostas formuladas. Porém, esses retrocessos bastaram para desativar, ao menos momentaneamente, a explosão de outros “psi-cachos” da bomba do PNDH, e fizeram com que as reações fossem diminuindo consideravelmente. Com isso, o PNDH foi ficando relegado a um segundo plano e até caindo em um quase esquecimento.

Não obstante, um primeiro passo fundamental foi dado pelos propulsores do Plano. Com isso, se vai acostumando e até aturdindo os ouvidos com certo tipo de “psi-explosões” políticas, com o qual se desensibiliza os tímpanos psicológicos e se prepara o terreno para lançar as próximas “psi-bombas”.

Porém, não somente se desensibilizam os tímpanos psicológicos, como se vão desconstruindo as próprias consciências. É aqui que entra aquilo que talvez seja o mais importante de tudo isto, e que é o que o ministro Vannuchi considera como a chave para entender o PNDH. Trata-se da denominada “transversalidade”.

6. Na ação política e de revolução cultural gramsciana, a “transversalidade” e a horizontalidade, em contraposição à verticalidade, substituem a ação ideológica direta, vertical, hierárquica e, a seu modo, racionalista, própria das velhas esquerdas. E passa-se a aplicar um estilo proselitista de desconstrução mental horizontal, não só das inteligências, mas sobretudo das mentalidades e das sensibilidades, para posições que se aproximem o máximo possível do sonho de uma sociedade anárquica, dissolvendo discriminações e favorecendo toda espécie de descriminalizações. A única e implacável discriminação e até criminalização que subsistiria, inclusive com instrumentos legais e policiais, seria a dos que levantem sua voz para se opor a esse plano anárquico, em nome da moral e dos princípios perenes da civilização cristã.

Como já foi mostrado, a “transversalidade” é um novo conceito das novas esquerdas, com um conteúdo ao mesmo tempo sociológico, estratégico, publicitário e psicológico, que foi debatido e lançado nos primeiros “Fórum Social Mundial” de Porto Alegre, e a aplicação desse conceito neo-revolucionário constitui um de seus principais ganhos.

7. Destaque Internacional já dedicou inúmeros artigos ao tema da “transversalidade”, em conjunto com a “diversidade” e a “desensibilização”, como instrumentos para ir implantando, gradualmente, tipos de controle mental e psicológico que, por seu radicalismo, poderiam talvez causar rubor a um Lênin, um Stalin, um Gramsci ou um Orwell.

8. O tema é delicado e é difícil de tratar exaustivamente em poucas linhas. Para minimizar essa natural limitação de espaço, ao menos em parte, colocam-se à disposição de nossos leitores, gratuitamente, links selecionados para ter acesso a alguns desses artigos sobre a “transversalidade” e novas formas de totalitarismos, assim como outros que comentam criticamente o PNDH.

Referências sobre o PNDH III:

Denis Lerrer Rosenfield, “Direitos Humanos”, O Estado de S. Paulo, 18-01-2010
http://arquivoetc.blogspot.com/2010/01/direitos-humanos-denis-lerrer.html

Editorial, “Lula e os estragos do Decreto”, O Estado de S. Paulo, 12-01-2010
http://arquivoetc.blogspot.com/2010/01/lula-e-os-estragos-do-decreto-estadao.html

Ives Gandra Martins, “Guerrilha e redemocratização”, Folha de S. Paulo, 22-01-2010
http://arquivoetc.blogspot.com/2010/01/guerrilha-e-redemocratizacao-ives.html

Referências sobre a “transversalidade” e a “desconstrução”:

Destaque Internacional, “World Social Forum, ‘transversality’ and chaos”, 15-02-2003
http://www.cubdest.org/0306/gfsm03ce.html

Destaque Internacional, “Foro Social Mundial, ‘transversalidad’ y caos”, 15-02-2003
http://www.cubdest.org/0306/gfsm03c.html

Destaque Internacional, “Foro Social Brasileño: la meta de ‘desconstrucción’ y ‘reinvención’ del hombre y la sociedad”, 15-11-2003
http://www.cubdest.org/0312/c0311fsbjurem5.html

Destaque Internacional, “Foro Social, ‘diversidad’ y nuevos totalitarismos” 14-02-2003
http://www.cubdest.org/0306/gfsm03div.html

 

Tradução: Graça Salgueiro

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