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Carta a um jovem leitor

19 de novembro de 2009 - 17:42:54

Prezado jovem,

Se eu não recebesse uma carta com a sua ficaria muito aborrecido. Afinal, você é o protótipo do personagem que descrevi em meu artigo. Seu fascínio por Che Guevara não precisa de razões. Aliás, você se recusa a fornecer razões. Ele para você é fetiche. É como tatuagem no traseiro. Não precisa explicar.

Para sua informação: conheço Cuba muito bem. Estive lá duas vezes. A última em 2002. Estando lá fui vigiado, filmado pela polícia, conversei com pessoas perseguidas, que depois foram presas e passaram anos na cadeia apenas por divergirem do regime. Morei no apartamento de uma família cubana. Sei como eles vivem. Escrevi um livro inteiro (não meia página) sobre Cuba. Diferentemente de você, rapaz, a mim me interessou saber por que Che lutou e quais foram seus ideais.

Por outro lado, o uso da palavra mentecapto foi seu e não meu. Mas você acaba justificando, em relação a si mesmo, o termo que emprega ao dizer que não lhe interessam razões, que, como se sabe, são decorrências da Razão, da cabeça e não do coração, nem da emoção, nem do palpite. Mente (intelecto, cabeça) capto (privado de) sacou?

A expressão “cidadãos de segunda categoria”, meu jovem, é de uso corrente entre os cubanos para referirem a condição em que se encontram no seu próprio país, onde os estrangeiros têm inúmeros direitos que a eles são proibidos. Mas você não quer nem saber, não é mesmo? É o que diziam os teólogos julgadores de Galileu quando ele queria lhes mostrar o universo com seu telescópio: “Noi non vogliamo guardare!” Nós não queremos olhar! Mentalmente são seus contemporâneos.

“Ciudadanos de segunda!”, assim os cubanos designam a si mesmos em seu país, porque não podem ter acesso à internet, hospedar-se nos bons hotéis, mudar de cidade sem licença e, nem mesmo, freqüentar a bela praia de Varadero! Ciudadanos de segunda, que não podem comprar automóvel, moto ou ferro elétrico. Ciudadanos de segunda porque não podem sair do país. Porque não podem dizer o que pensam. Mas nada disso interessa a você porque o que lhe vale é a emoção e a dedicação a um ideal…

Ora, rapaz! Os bandidos também têm paixões. Amaram, sofreram e, sem vantagem pessoal, também se empenharam por seus ideais os terroristas chechenos que mataram duas centenas de pessoas, na maioria crianças, em um teatro de Moscou. Quantos oficiais da Gestapo se enquadrariam nesse mesmo perfil? Quantos líderes e membros da Ku Klux Klan também amaram suas esposas, seus filhos, seu país e agiram com a convicção de estarem, sob risco pessoal, fazendo a coisa certa? Não eram humanos e não levaram suas convicções ao martírio os terroristas que se arremessaram contra as Torres Gêmeas? Você sabia que os homens-bomba também morrem por seus ideais? Que os terroristas das FARC matam, seqüestram e morrem por seus ideais? Que os radicais islâmicos são todos idealistas? Movidos a paixão?

Então comece a se preocupar com saber por que lutam os que lutam, o que motivam seus modelos (caso contrário eles viram fetiche), porque uma coisa é dar a vida pelos próprios ideais, e outra bem diferente é, em nome deles, sair a matar nossos semelhantes e a querer o sangue de todos aqueles de quem a gente diverge para, sobre esses cadáveres, implantar um inferno na Terra.

Sonho e paixão adquirem sentido quando estão postos no bem. Aquele jovem que cuidou dos leprosos, segundo o relato dos Diários de Motocicleta, se você prestou atenção ao filme, passou a viagem lendo livros marxistas. Com o decorrer dos anos, os livros e suas ideias transformaram o jovem idealista Ernesto num homicida frio, que se definia como alguém com ódio no coração, como uma “máquina de matar”, com sede de sangue. Vampiro, então. Ele não esperou que eu dissesse isso dele. Ele proclamou estas coisas sobre si mesmo. Sim, as ideias e as razões têm muita importância.

Mas considero pouco provável que você perca cinco minutos pensando no que estou lhe escrevendo. Aliás, não escrevi aquele artigo para ser lido por jovens como você, cabeça feita por professores falsários, que contam meias verdades e devem considerar como troféu a cabeça de um aluno que não se interessa por razões nem pela Razão. Escrevi para aqueles cuja mente ainda não foi dominada. Escrevi para os que, se escrevem a um articulista fazendo objeções ao que ele expôs, se ocupam com tecer argumentos. Escrevi para os que têm interesse na Verdade, no Bem. Escrevi para os que amam a democracia, a liberdade e a justiça. Escrevi para os que sentem náuseas diante de um paredón. Escrevi para os que ficariam constrangidos ante a falta de liberdade do povo cubano.

Não escrevi para você. De você eu queria apenas receber uma carta bem assim como a que me mandou. Você é a minha prova viva. Seu texto vai me servir para outro artigo.

E você, repito, é um troféu na prateleira de quem sonha com uma juventude fetichista, que se abraça a líderes sem sequer perguntar o que os move nem qual a relação que mantêm com o bem, com a verdade, com a democracia e com a liberdade dos demais.

Você xinga, mas não argumenta porque não pode nem saberia. Nunca lhe ensinaram!

Passe bem você também.

Percival Puggina

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