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Carta aberta ao Estadão sobre “Guerra ao terror”

12 de março de 2010 - 0:20:46

Nem vale a pena perder tempo em criticar “Avatar”, que não passa de um amontoado de clichês politicamente corretos bem embalado em novos recursos tecnológicos. Agora, “Guerra ao Terror” é um bom filme, independentemente de sua filiação ideológica, que, a bem da verdade, não é tão explícita quanto sugere Bolognesi. Quem se lembra de “O franco-atirador”, filme de Michael Cimino, datado de 1978, sobre a Guerra do Vietnã, sabe a que me refiro, pois o filme de Cimino terminava com a família dos heróis-soldados cantando “God Bless America”. Em “Guerra ao Terror” absolutamente não há esse tipo de patriotadas.

O filme de Bigelow se insere na longa tradição hollywoodiana dos filmes de guerra, a qual inova, mostrando por exemplo o timming de um duelo entre snipers. Tem nos americanos seus heróis e nem poderia deixar de ser assim. Seria o mesmo que pedir a Uderzo e Gosciny que escrevessem histórias de Asterix em que os heróis não fossem gauleses! Mas o grupo de soldados que protagoniza “Guerra ao Terror” está longe de ser formado por personagens planos que dificilmente podem ser considerados “mocinhos” convencionais, basta lembrar que um deles prefere abandonar o filho criança para se dedicar à guerra, o que não configura propriamente uma virtude sob o ponto de vista da moral.

Quanto à caracterização dos terroristas islâmicos, se ela não parece verossímil para Bolognesi, convém mandá-lo ler as notícias que chegam diariamente do Oriente Médio e perguntar-lhe se quem usa de “homens-bombas” e “mulheres-bombas” haveria de ter algum pudor em usar “crianças-bombas” e matá-las a serviço de sua “santa causa”. Quem parece recorrer a estereótipos é o próprio Bolognesi, quando fala em “forte apache”, em “heróis santificados” e se refere a “assassinos que dizimam outras culturas”. Que cultura os americanos estão dizimando, se até os estudos de árabe estão em alta nos Estados Unidos, para que o país consiga compreender a fundo a enrascada em que se meteu? E o que pretendem os radicais islâmicos em relação a nossa cultura ocidental, senão fazê-la desaparecer do mapa?

O único argumento mais sofisticado apresentado por Bolognesi é o de que os verdadeiros viciados em guerra são assassinos compulsórios e não salvadores de vidas, mas, para ser levado a sério, seria necessário, no mínimo, que o crítico apresentasse as fontes de sua pesquisa, pois o tema é complexo como qualquer tipo de dependência e não se pode afirmar nada sobre ele com base no achismo. De qualquer modo, dizer que Bigelow não foi completamente fiel à realidade não significa que ela a tenha distorcido para “santificar” os soldados americanos. Ver o contrário disso não passa de ideologia antiamericanista.

http://observatoriodepiratininga.blogspot.com

 

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