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Carta da esposa do Cel. Plazas Vega à juíza María Stella Jara

26 de junho de 2010 - 1:52:35

Vinte e três anos depois dos fatos dolorosos do Palácio de Justiça meu esposo foi detido, primeiro para investigação e depois para julgá-lo. Ele foi privado de liberdade pois um juiz decidiu que ele era “perigoso para a sociedade”. Durante esses anos tive que aprender a viver só, pois meus filhos saíram do país há seis anos pelas ameaças que receberam.

Passei muitas noites tristes, muitas noites amargas, muitas noites com medo. A de hoje é uma noite especial. São tantas as idéias e as perguntas que se atropelam em minha mente que decidi levantar-me para escrever, e tratar de organizar meus sentimentos.

Hoje tomei conhecimento pela mídia de que a senhora se foi do país depois de ditar a sentença de prisão perpétua contra o coronel Plazas Vega, porque 30 anos de cárcere para um homem que ontem completou 66 anos, é prisão perpétua.

Isso me faz pensar na imensa responsabilidade que significa ser juiz. Ser juiz significa ser quase Deus. Com razão chamam aos senhores de “Meritissima”. Nas mãos de uma juíza esteve e está nossa vida. A minha, a de meu esposo, a de meus filhos. A senhora acaba de destruir essa vida, essas vidas, sem razão: a de meu esposo, a minha, a de meus filhos e a de meu neto, e a de meus netos que virão, e as vidas de toda nossa família. Que responsabilidade tão grande! É quase sobrenatural. Manejar e definir a vida de um ser humano e decidir encerrá-lo em uma cela o resto de sua vida, castigá-lo dessa maneira porque “supostamente” cometeu um delito, é adiantar-se na terra à justiça Divina!

Quão íntegra, quão centrada, quão vertical, quão honesta, quão equânime, quão imparcial, quão preparada, quão equilibrada, quão valente deve ser uma pessoa para ser bom juiz! A senhora reúne essas virtudes? Estou certa que não. Creio que não reúne nenhuma dessas virtudes. Se fosse assim, a senhora jamais teria proferido essa sentença, nem condenado um homem inocente, honesto, cristão, servidor da Pátria, bom colombiano e com uma folha de vida inatacável. Contra ele a senhora não reuniu uma só prova. A senhora se baseou no testemunho de uma testemunha fantasma, ao qual nem a senhora nem a defesa viram, nem puderam interrogar pessoalmente porque nunca se apresentou à audiência, e cujo testemunho são quatro folhas cheias de mentiras nas quais nem sequer sua assinatura é autêntica. Meritíssima, a senhora condenou um acusado sem provas materiais. Isso sim, que é um delito comprovável e abominável, além de ser um pecado.

Como queria me sentar com a senhora, Meritíssima, frente a frente, para olhar nos seu olhos e para tratar de ver o que há dentro da senhora.

De quê a senhora juíza foge? Dizem os meios de comunicação que a senhora foge das ameaças que lhe chegaram por causa deste caso. Se a senhora tem dúvidas, quero lhe dizer uma coisa: não foi o coronel, nem sua família os que a ameaçaram.

Meus filhos vivem no exterior e são homens bem criados, que nasceram em um lar cristão e que são nosso orgulho por seus valores. O coronel Plazas Vega está submetido há dez meses a um tratamento médico no Hospital Militar de Bogotá, pelos danos emocionais que a senhora, com sua atitude brutal e intransigente, com sua decisão de lhe negar a possibilidade de acompanhar seu pai no momento de sua morte, lhe ocasionou. E depois, por tirá-lo do hospital e levá-lo amarrado de pés e mãos, como um delinqüente da pior laia, a um cárcere que não lhe correspondia – de acordo com a Constituição e a lei, às quais a senhora não se submete. A senhora, durante todo este tempo, ordenou que ele fosse vigiado por guardiães do Grupo de Reação Imediata do IMPEC, vigilância extraordinária que não foi posta para verdadeiros criminosos como cognome “La Pantera” ou a cognome “Pablito”, nem a nenhum sicário nem a nenhum guerrilheiro.

Eu sou uma mulher só. Eu não sei formular ameaças. Minha formação, minha educação, rechaçam essa maneira de atuar. Como mãe e esposa sofri a tortura psicológica que as ameaças produzem. Fomos ameaçados durante vários anos quando o coronel Alfonso Plazas enfrentou o narcotráfico deste país desde a Direção Nacional de Estupefacientes. Jamais nos ocorreria fazer o mesmo com alguém.

Eu acredito que a senhora foi ameaçada por outra gente, não pelo coronel Plazas. E esse medo a pressionou a atuar, a sentenciar como o fez. Estimo que a senhora não esteja fugindo de tais ameaças. A senhora foge ante os temores que lhe gera o fato de haver cometido um delito grave como é condenar a um inocente. Presumo que tenha sido isso o que ocasionou a demora de mais de oito meses em proferir sua iníqua sentença condenatória, enquanto planejava como cumprir com um pacto secreto e infame, como resguardar-se do que pode implicar moral e juridicamente sentenciar sem provas e enviar à prisão, pelo resto da vida, a um inocente.

A senhora está fugindo de sua própria consciência. Fugir disso é muito difícil. A senhora pode ir ao lugar mais distante do planeta, porém a sombra de sua culpa sempre a seguirá.

A verdade é que nós estamos sofrendo imensamente, e que a senhora acabou com nossas esperanças, porém temos paz interior. Temos fé em que, quando este caso chegar às mãos de um juiz probo, sereno, com as virtudes que mencionei, a justiça abrirá passagem.

Não sei em que país do mundo a senhora está agora. O que sei sim, é que a senhora não pode estar tranqüila. Sua irresponsabilidade e sua crueldade foram imensas, e por isso sei que não encontrará paz nem sossego em lugar nenhum.

Recomendo-lhe que seja valente e que descarregue sua consciência contando quem a ameaçou a tal ponto que não pôde operar como uma verdadeira juíza da República da Colômbia. Não sou pessoa de ódios nem de ressentimentos. Peço a Deus que me livre desses sentimentos. Sou sincera ao dizer que sinto pela senhora certo pesar e certa comiseração, pelo enorme peso que a senhora mesma decidiu carregar sobre sua consciência.

Em uma entrevista que deu a El Espectador, a senhora disse que teve que pedir ajuda psiquiátrica e tomar remédios. Eu sei o que é isso porque o coronel Plazas teve problemas emocionais. Já expliquei isso. Queria saber o que é que atormenta tanto a senhora.

Durante o julgamento orei pela senhora, para que Deus entrasse em sua alma e a ajudasse a operar no Direito e na Justiça, e a não sei deixar vencer pelos interesses malvados que a espreitam. Vejo, entretanto, que neste caso, até agora, o Mal venceu o Bem. Porém, nunca é tarde, senhora juíza. Alivie sua consciência para voltar a ter paz interior. Faça-o por temor a Deus. Sempre me perguntei porquê, nas audiências às quais assisti, nunca pude encontrar seu olhar. A senhora nunca me olhou nos olhos. Agora eu entendo. A senhora estava comprometida e sua luta interna não lhe permitia me olhar nos olhos.

Hoje a senhora está provavelmente na Alemanha, apoiada por algumas ONGs e por organizações de esquerda. Entretanto, o coronel Plazas ficou aqui privado da liberdade, lutando com sua equipe de defesa para demonstrar sua inocência, porque a Justiça na Colômbia, apesar do que dizem a Constituição, as leis e a jurisprudência, não se tem que demonstrar a culpabilidade dos militares mas eles é que têm que demonstrar sua inocência.

Porém, o coronel Plazas também está apoiado por centenas de milhares de cidadãos, de diferentes níveis, por gente comum, por colombianos de bem, e inclusive por pessoas de outros países que nos manifestaram seu apoio e sua solidariedade.

Tenho absoluta certeza de que a senhora não está bem interiormente. E não estará nunca enquanto sua vítima, o Coronel Plazas Vega, esteja privado da liberdade. Creio, senhora juíza, que a senhora frustrou sua própria vida. A senhora poderá fugir da Colômbia, porém não poderá fugir de seu próprio remorso.

Aqui, embora não tenhamos liberdade, temos paz interior, apesar da infâmia de que somos vítimas. Deus está conosco.

Atenciosamente,

Thania Vegas

Bogotá, 23 de junho de 2010.

 

Tradução: Graça Salgueiro


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