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Católicos, anticapitalistas e socialistas

11 de março de 2010 - 17:15:05

Não se pode negar que houve uma inimizade histórica entre os liberais e a Igreja Católica, nas vertentes revolucionárias e anticlericais do iluminismo francês dos séculos XVIII e XIX. O viés anti-religioso, senão ateísta, de alguns
“philosophes” franceses afastou diametralmente os liberais dos católicos e criou um clima insanável entre as duas perspectivas filosóficas. Todavia, não se pode confundir o liberalismo revolucionário, causador da revolução francesa e precursor do socialismo, com a visão clássica tradicional do liberalismo, que tem um profundo viés conservador.

Mas, voltando ao caso católico, nas hostes
“tradicionalistas” e
“progressistas” da Igreja há uma propensão revolucionária e moderna de achar o Estado como uma entidade imbuída de alguma autoridade moral em si mesma. É curioso que em nome da ética e dos bons costumes, prega-se um modelo estatal que é estranho à tradição da Igreja Católica e que muitas vezes é contrário a ela. Refiro-me aos modelos socialistas implícitos nos discursos moralizantes anticapitalistas. Parte-se do pressuposto de que a sociedade comercial é isenta de uma fundamentação moral própria e que é dever do Estado fazer valer esse princípio de moralidade. Ou na pior das hipóteses, o comércio é o
“mal necessário” da nossa modernidade, que deve ser domesticado por burocratas elevados a virtuosos eclesiásticos. Nesta lógica há uma transferência da responsabilidade moral de indivíduos concretos para a estrutura abstrata do Estado. E uma desconfiança na própria sociedade civil em fundamentar seus critérios morais, repassando ao Estado uma autoridade moral superior.

É paradoxal que o clero brasileiro e muitos católicos preguem a supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal e dêem ao Estado uma autoridade divinizatória. Fundamentar, em si mesmo, a moral no Estado, é um caráter psicológico típico das filosofias estatólatras e revolucionárias dos séculos XIX e XX. Na prática, os católicos, sejam
“tradicionalistas” ou
“progressistas”, estão corrompendo a fé católica de forma assustadora. A lógica do Estado, na visão desses católicos, é tipicamente rousseana, um simulacro de uma religião civil estatal, ainda que a carapaça de catolicismo disfarce a sua essência ideológica leiga. Pois se o catolicismo se tornar apenas uma formalidade cívica e moral do Estado, não passará de uma fé utilitária e deixará de ser uma confissão cristã. Não é de se espantar que os católicos
“tradicionalistas” inventem sofismas dos mais assustadores para transformar sua religião num antro de formalidades e máximas categóricas, autoritárias e vazias. E os
“progressistas” de todos os matizes politizam de tal forma a religião, a ponto de agredirem seus aspectos filosóficos essenciais, em favor do credo marxista. Não é assustador pensar que o fascismo e o comunismo tenham seduzido tanto os
“tradicionalistas”, de um lado, como os teólogos ”
progressistas”, de outro. Na verdade, os princípios mais autênticos das ideologias revolucionárias estatais estão impregnados no propósito político de seus espíritos.

E por que os setores católicos
“tradicionalistas” e
“progressistas” são antiliberais e anticapitalistas? Será mesmo por conta da doutrina social católica, que condena o liberalismo? Ou será por razões mais ocultas da engenharia social implícita que há por trás dos discursos moralizantes do Estado personificador das virtudes? É bem verdade que a doutrina católica critica o liberalismo nos aspectos relativistas desta filosofia. O subjetivismo moral e ético de alguns postulados liberais pode ser insustentável para a Igreja. Mas não só a ela. A experiência mostra que a democracia liberal só se preservou em alguns países, justamente pelo fato de existir uma moral cristã preexistente, que limitou os abusos desse subjetivismo moral e ético do pensamento liberal e deu coerência aos valores políticos e jurídicos instituídos. Por mais que haja um zelo ético de respeito às liberdades e escolhas individuas, a sociedade liberal-democrática não pode prescindir de uma moralidade objetiva existente, que organize a vida social e oriente as pessoas no sentido dessa liberdade, sob pena de ser destrutiva.

É neste sentido que o catolicismo critica o liberalismo, com certa razão. Quando o papa Pio XI disse que o liberalismo preparou o caminho para o comunismo, quis dizer, basicamente, que o relativismo moral e ético liberal preparou o espírito para o coletivismo. É pior:
o materialismo implícito em algumas perspectivas liberais economicistas é incrivelmente semelhante ao propósito marxista. São os parâmetros éticos e morais genuínos que definem a esfera do Estado, da propriedade privada e da liberdade civil, muitos deles, criados ou consolidados pelo próprio cristianismo. Sem eles, a democracia liberal vai para o ralo.

Por outro lado, nem sempre a Igreja esteve totalmente simpática às liberdades, vide a encíclica papal de Gregório XVI, que considerava a liberdade de imprensa e de consciência um
“erro”. Muitas vezes em nome da verdade, a Igreja acabou contradizendo seus próprios conceitos de livre arbítrio e sacrificando a liberdade. Há de se entender que muitas destas reações foram conseqüências do espírito de uma época determinada, de conflitos entre o clero e uma modernidade muitas vezes hostil à tradição. Na ânsia de se proteger dessas novas forças políticas, a Igreja acabou se fechando em si mesma ao tomar partido de escolhas nem sempre corretas. O posicionamento crítico e severo da Igreja com a modernidade, sem uma postura realista que pudesse contrapô-la, permitiu que muitos segmentos católicos ”
tradicionalistas” aderissem a ideologias radicais, inclusive, assimilando os métodos e formas de organização dos movimentos revolucionários, ainda que supostamente preservassem uma máscara conservadora. No final, essa reação acabou por isolar a Igreja da sociedade, prejudicando-a. Nenhum católico, atualmente, defende algum “retrocesso” político, neste sentido, salvo, é claro, em alguns círculos sectários e demagógicos de chamado
“tradicionalismo” católico.

Nem todo liberalismo é isento de uma perspectiva moral. É um exagero achar que dentro da filosofia liberal se ignore a importância da moralidade na vida pública. O liberalismo pode cair no relativismo ético e moral, perigoso para as democracias, como pode ser um elemento orientador dos valores conservadores, como a proteção da família, da liberdade e da propriedade. As bases da democracia representativa moderna e do individualismo político liberal são genuinamente morais. E mesmo o casamento feliz do conservadorismo e do liberalismo é um reflexo dessa tendência.

Ademais, alguns aspectos do liberalismo, como a defesa da livre empresa, do mercado, do trabalho livre, e demais direitos individuais, não são contrários aos fundamentos da doutrina social católica. Em determinadas situações são até semelhantes. A concepção subsidiária do Estado apregoada pela Igreja Católica é muito parecida com a visão do ”
Estado mínimo” liberal. O Estado liberal é também subsidiário da sociedade. Não pretende substituir o que a sociedade deve fazer para si, de forma voluntária. Visa somente complementar a vida civil privada, sem substituí-la. Essa intervenção é limitada pela esfera dos direitos naturais da propriedade privada e da liberdade civil e política. O Estado de Direito é princípio comum tanto nos Estados liberais, como na visão católica de política. E a idéia de que há direitos naturais preexistentes e acima do Estado são lugares-comuns tanto liberais, quanto católicos.

Outros aspectos aproximam católicos e liberais:
a questão da escolha individual e do livre arbítrio. Na concepção católica, nem toda transgressão moral deve ser reprimida pelo Estado, salvo se for de tamanha relevância e ameaça à paz social, como a natureza do crime de assassinato, de roubo, etc. Isso não isenta as pessoas do pecado, porém, faz delas responsáveis pelos seus atos e cujo sofrimento elas assumem por eles. O mesmo princípio se aplica aos liberais. A única diferença, por assim dizer, é que alguns liberais erram ao assumirem um relativismo moral e negarem uma escala objetiva de valores, em nome da supremacia da vontade do indivíduo. O subjetivismo exacerbado de alguns pensadores liberais não sobrevive a uma análise séria.

Cada pessoa deve assumir os riscos e o preço de seus atos, sejam bons ou maus. E não se pode achar que o Estado ou qualquer outra entidade queira determinar as escolhas particulares dessas pessoas. Estas devem ser feitas conscientemente por qualquer indivíduo, de acordo com seu livre convencimento. Nem por isso pode-se nivelar socialmente esses valores, em favor de uma subjetividade ou escolha que nem sempre está certa. O livre arbítrio, como a liberdade, é princípio de ordem moral e ética. Princípio que exige, na consciência de cada pessoa, as noções de bem e mal, certo e errado, justo e injusto, e suas naturais conseqüências e assim por diante.

Os católicos
“tradicionalistas” e
“progressistas”, de maneira desonesta, ou movida por ignorância, apregoam que o capitalismo é um sistema que prega o lucro como o fim em si mesmo, que o liberalismo é materialista e desvia o foco da atenção à religião, em favor do dinheiro. Ou que o liberalismo é uma filosofia anarquista, que nega a autoridade e a existência do Estado, no princípio da não-intervenção estatal ou isenção governamental. Quando a CNBB anuncia a Campanha da Fraternidade condenando os
“lucros desmedidos” e associando acumulação de capital com
“exclusão social”, “miséria”, “desigualdades”, reproduzindo um discurso típico do Fórum Social Mundial, ou quando a minoria
“tradicionalista” prega a chamada
“democracia orgânica” corporativista, que na prática, é puro viés fascista, essas críticas ao capitalismo nada têm de católicas. São genuinamente socialistas. Todas essas análises, sem exceção, desconfiam da sociedade voluntária e idolatram o Estado como entidade moral absoluta.

Primeiramente, dentro de uma sociedade pluralista, é difícil crer que no sistema capitalista haja uma finalidade em si mesma. Usa-se o lucro, o dinheiro, o capital, para os mais complexos e variados fins. O
“capital em si mesmo” é tão somente um discurso, mais do que uma realidade. Ninguém come capital. Ninguém se veste de capital. Usa-se o capital como meio, para chegar aos fins, inclusive, os fins da caridade. Como alguém pode afirmar um único fim para milhões de cabeças? A concepção também é tipicamente socialista:
presume-se que a economia de mercado tenha planejamento central para ter um único “fim”.

É verdade que há um risco de um intenso materialismo na sociedade capitalista. O vício da falsa segurança do bem estar econômico pode ofuscar a importância de outros valores. A prosperidade econômica pode iludir muitas pessoas e acomodá-las, fazendo-as negligenciar outras aspirações. Entretanto, isso se deve muito menos à natureza das sociedades comerciais do que ao relativismo ético e moral ligado às ideologias revolucionárias. Riqueza não é sinônimo de falta de humildade e religião. E se algum católico crê que a prosperidade é um elemento condicionante para a licenciosidade, nem pensa como católico, e sim como um materialista histórico, um marxista!

Ademais, acusam-se os liberais de serem anarquistas. Espantosa ignorância, em parte, cultivada pelos chamados
“libertários” ou anarco-capitalistas, que pregam uma sociedade utópica sem governo. Contudo, os católicos que fazem acusações como esta sabem que estão sendo intelectualmente desonestos.

Como um católico que se identifica com alguns postulados econômicos e políticos do liberalismo, já fui chamado de herege, inimigo da Igreja e
“revolucionário”. Como um liberal que se identifica com os postulados morais conservadores do catolicismo, já fui chamado de
“reacionário” por alguns católicos de tendências abertamente esquerdistas. Enfim, estou no centro da questão, entre os dois extremos. Lamentavelmente, uma grande parte dos católicos é abertamente revolucionária, abertamente idólatra das ideologias de engenharia social, seja no âmbito do Estado, como na questão civil. Se por um lado simula a adoração da autoridade coletiva, na idéia de um Estado que represente a vontade de Deus
(ou o próprio Deus), por outro, colabora abertamente para a corrupção moral e intelectual da Igreja e a sua dissolução.
“Tradicionalistas” e
“progressistas” possuem um inimigo comum:
a liberdade e a sociedade voluntária, que pode ser rotulada de “sociedade liberal”. Os primeiros, em nome de um passado romântico e mitológico que se supõe seja restaurado através da força; e os últimos, em favor de um futuro utópico, hipotético e milenarista da história, sujeitando a fé católica ao credo materialista marxista e visando uma sociedade totalitária. Todos esses caminhos, sem exceção, estão longe de salvar as almas. Na melhor das hipóteses, são caminhos mais próximos para levar ao inferno.

 

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