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Cerca de 200.000 presos norte-coreanos estão em campos de concentração

23 de julho de 2009 - 7:08:27

Nova York, 20 de julho – Na Coréia do Norte há cerca de 200.000 presos políticos que estão internados em campos de concentração onde trabalham entre 12 e 15 horas diárias. Não podem tomar banho com sabonete e sua roupa consiste em uns quantos farrapos. Em muitos casos, morrem de enfermidades relacionadas com a desnutrição.

Assim o revela um informe da Associação de Advogados Coreanos, recolhido por
“The Washington Post”, que detalha a vida cotidiana destes presos políticos baseando-se nos testemunhos de sobreviventes dos campos e antigos guardas.

A dieta diária destes centros de detenção se baseia fundamentalmente em milho e sal. A maioria dos internos perdem os dentes ao longo do tempo e as gengivas tornam-se pretas. Os ossos ficam tão debilitados que muitos não podem sustentar o tronco e caminham inclinados à altura da cintura.

Quando entram no campo de concentração recebem umas roupas que são as únicas que terão durante toda sua estada, sem possibilidade de troca, e vivem sem ceroulas, roupa interior, sabonete ou toalhas. Na maioria das vezes os falecimentos por enfermidades relacionadas com a má nutrição acontecem por volta da idade de 50 anos.

Estes campos nunca foram visitados por estrangeiros, de modo que os testemunhos dos sobreviventes e ex-guardas não puderam ser verificados. Entretanto, as últimas imagens por satélite, acessíveis em todo mundo através da Internet, revelam a existência destas instalações nas montanhas da Coréia do Norte.

As imagens corroboram boa parte das histórias dos sobreviventes, já que mostram inclusive as entradas às minas onde os antigos presos dizem que trabalhavam como escravos, assim como as instalações onde os ex-guardas asseguram que os internos que não cooperavam eram torturados até a morte. Também se vêem os lugares onde os reclusos eram obrigados a presenciar execuções, além de torres de vigilância e alambrados eletrificados que rodeiam todo o perímetro dos campos.

“Temos este sistema de escravidão diante de nossos narizes. Os grupos de Direitos Humanos não podem detê-lo. A Coréia do Sul não pode detê-lo. Os Estados Unidos terão que estabelecer esta questão na mesa de negociações”, explica An Myeong Chul, um antigo guarda que desertou para a Coréia do Sul.

Porém, este tema não foi abordado em nenhuma reunião das conversações a seis lados sobre o programa nuclear norte-coreano. “Falar com eles sobre os campos não foi possível”, assinalou David Straub, um alto responsável pelo escritório de assuntos coreanos do Departamento de Estado norte-americano, durante as administrações de Bill Clinton e George W. Bush, em declarações recolhidas por “The Washington Post”. Estes encontros não se produziram mais desde que Barack Obama tomou posse em janeiro.

MEIO SÉCULO DE ANTIGÜIDADE

Segundo o informe, os campos de concentração da Coréia do Norte existem desde há meio século. Embora seja impossível obter cifras precisas, governos ocidentais e organizações defensoras dos Direitos Humanos estimam que centenas de milhares de pessoas morreram nestes campos.

A versão oficial norte-coreana é que estas instalações não existem e, para evitar a apresentação de provas, as autoridades limitam o movimento dos estrangeiros apenas aos que têm permissão de entrar no país.

Suzanne Scholte, ativista norte-americana que atende a sobreviventes destes campos e os convida a dar conferências e bate-papos em Washington, lamenta que todas estas vítimas não tenham uma figura que os represente. “Os tibetanos têm o Dalai Lama e Richard Gere; os birmaneses têm Aung San Suu Kyi; os darfurianos têm Mia Farrow e George Clooney. Os norte-coreanos não têm ninguém”, alertou.

Cinco sobreviventes contam histórias arrepiantes, como execuções sumárias, para tirar da cabeça dos reclusos idéias tão descabidas como tentar escapar. Antes que os guardas matassem vários presos por esta razão, os internos de mais de 16 anos foram obrigados a presenciar o assassinato.

Segundo os testemunhos, o oficial no comando costumava ler antes das execuções um texto no qual destacava que o “Apreciado Líder”, o ditador King Jong Il, havia oferecido uma “oportunidade de redenção” aos acusados, mediante os trabalhos forçados.

“Quase experimentamos as execuções nós mesmos”, explica Jung Gwang Il, de 47 anos, que assegura que presenciou duas execuções de presos no Campo 15. Depois de três anos, diz, foi libertado e depois de fugir para a China, chegou a Seul, onde reside atualmente.

INTERROGATÓRIO

Como outros prisioneiros muito antigos, Jung afirma que o mais duro de sua reclusão foram os interrogatórios por parte da Bowibu, a Agência Nacional de Segurança. Foi detido depois que um companheiro de trabalho de uma repartição do Governo o acusara de ser um espião sul-coreano.

“Queriam que admitisse que era um espião. Me golpearam nos dentes com um taco de beisebol. Me fraturaram o crânio em duas ocasiões. Eu não era um espião, porém admiti que era, após nove meses de torturas”, relata.

Quando Jung foi preso pesava 75 quilos, porém quando o interrogatório acabou, chagou a pesar 36. “A maioria das pessoas morre de má nutrição (nos campos), acidentes no trabalho e durante os interrogatórios”, conta Jung, agora convertido em advogado defensor dos Direitos Humanos.

“As pessoas com perseverança são as que sobrevivem. Os que pensam todo o tempo em comida acabam loucos. Eu trabalhei duro, pelo que os guardas me selecionaram para ser o líder do meu barracão, de modo que não tinha que gastar muita energia e a recuperava com o milho”, explica.

Os reclusos são proibidos de qualquer contato com o mundo exterior e o suicídio está relacionado com a extensão da condenação. Os guardas podem golpear, violentar e matar prisioneiros com impunidade, e quando as internas ficam grávidas sem permissão, seus bebês são assassinados, segundo o informe.

SISTEMA DE CAMPOS

O número de campos de concentração na Coréia do Norte passou de 14, que havia no princípio, em cinco grandes instalações, segundo antigos guardas. O chamado Campo 22, perto da fronteira com a China tem quase 50 quilômetros de largura por 40 de extensão, uma área maior que a cidade de Los Angeles, onde há uns 50.000 reclusos.

Os delitos pelos quais alguém pode ser condenado incluem tanto oposição real como suposta ao Governo. “O sistema de campos pode ser percebido inteiramente como um massivo e elaborado sistema de perseguição no terreno político”, assinala o investigador de Direitos Humanos David Hawk.

A maioria dos campos são “distritos de controle completo”, o que significa que os internos trabalharão ali até sua morte, porém o Campo 15 se considera uma exceção. Chamado de “distrito revolucionário”, os presos podem receber doutrinamento no socialismo e depois de alguns anos, se aprendem de memória os escritos de King Jong Il, são liberados embora sob vigilância das forças de segurança.

Desde que se ofereceu como lugar seguro para os desertores, a Coréia do Sul é o lar de muitos sobreviventes dos campos que têm contado sua experiência ao serviço de Inteligência desse país, que provavelmente sabe mais sobre estas instalações do que qualquer outra agência do mundo.

An Myeong Chul conta que quando estava sendo treinado para ser guarda, seus instrutores o ameaçaram a converter-se em preso se mostrasse pena dos reclusos, aos quais podia golpear ou matar a seu bel prazer. “Nos ensinaram a olhar os presos como porcos”, indica An, de 41 anos. Depois de sete anos de trabalho, conseguiu escapar para a China e agora trabalha em um banco em Seul.

 

Fonte: http://www.europapress.es/

Tradução: Graça Salgueiro

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