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Chávez perdeu o pleito das bases

13 de agosto de 2009 - 10:18:51

Sua tarefa prioritária: impedir a assinatura dos acordos entre Bogotá e Washington sobre a presença de tropas norte-americanas em bases militares da Colômbia. Ante a dificuldade de impedir tal assinatura, Caracas trata por todos os meios de negociar, ao menos através de terceiros, uma redução do alcance desses acordos. Para isso o regime venezuelano utiliza o partido esquerdista colombiano Polo Democrático e os amigos que ainda lhe restam, como o ex-presidente Ernesto Samper (1994-1998) nas altas esferas da classe política colombiana.

As manobras do palácio de Miraflores contra esses acordos têm um certo fedor de desespero. O presidente Hugo Chávez se sente realmente desestabilizado pelo reforço da presença de militares norte-americanos na Colômbia. O chefe de Estado venezuelano não poupa esforço algum nestes dias para tratar de frear ou de desviar essa dinâmica. Chávez se mobiliza, ameaça, gesticula, intriga e exige e, além disso, que seus seguidores na Colômbia e em outros países façam outro tanto. Desde seu
bunker, medicado em Havana, Fidel Castro respondeu a seu chamado e estimou que o pacto colombo-americano é
“uma ameaça para a Venezuela e para toda a região”.

A abertura de sete bases militares colombianas às tropas norte-americanas, o que não é o mesmo que a criação de sete bases norte-americanas na Colômbia, como a propaganda “bolivariana” trata de fazer crer, é algo que nem Caracas nem seus aliados do Foro de São Paulo haviam previsto. Caracas se dá conta hoje, um pouco tardiamente, de que ordenar ao presidente equatoriano Rafael Correa o fechamento da base de Manta e ao cessar, Venezuela e Equador, toda a colaboração com os Estados Unidos na luta contra o tráfico de drogas, o chavismo cometeu um erro maiúsculo, pois aumentou as possibilidades de os Estados Unidos e a Colômbia encontrarem uma solução de recambiar esses dois importantes tropeços.

Os novos acordos militares entre Bogotá e Washington têm por marco a luta contra o narcotráfico e as organizações terroristas. São também o resultado necessário do rearmamento desproporcionado da Venezuela e das reiteradas ameaças bélicas e políticas que o mandatário venezuelano lança com muita freqüência contra a Colômbia, sem falar do apoio, cada vez mais evidente, que Caracas presta aos movimentos terroristas colombianos FARC e ELN. Em outras palavras, Hugo Chávez está colhendo os frutos amargos de sua política exterior briguenta e provocadora.

Nunca a Colômbia tinha se visto em uma situação geopolítica como a atual. Uma potência petroleira mundial vizinha, apesar dos laços históricos que unem as duas nações, utiliza todo seu potencial econômico, financeiro e militar para tratar de derrubar o governo colombiano, democraticamente eleito, e alterar a continuidade de sua tradição liberal e civilista. Tudo isso mediante o fomento visível de uma guerrilha comunista degenerada e o auspício de oposições pseudo legais e extremistas dentro do país. Essa potencia petroleira tenta, por outra parte, cercar a Colômbia pelo sul, pelo oriente ou pelo norte, com regimes agressivos e liberticidas, dirigidos com grande desfaçatez pelos regimes “revolucionários” de Cuba e Venezuela.

A resposta do Estado e da nação colombiana a esses graves desafios é conhecido de todos: a eleição e a reeleição de um presidente de mão firme contra a subversão armada, e um respaldo popular quase unânime e durável a uma política de defesa e segurança nacional que inclui agora a renovação dos acordos militares tradicionais entre a Colômbia e os Estados Unidos.

Hugo Chávez devia ter pensado nisso antes de empreender sua longa campanha que leva mais de uma década de humilhações e ameaças militares, comerciais e diplomáticas contra a Colômbia, sobretudo desde que dispôs de aviões russos de combate. Ele está colhendo o que plantou.

A aprovação de Bogotá de um reforço da presença militar norte-americana na Colômbia, ocorre precisamente em uma conjuntura dramática para o regime “bolivariano”. O fracasso da aventura golpista em Honduras e a queda de Zelaya não só deixou Caracas sem um peão essencial que ia reforçar seus planos na América Central, senão que serviu para abrir os olhos aos demais povos do continente sobre os métodos sinistros que a dupla Castro-Chávez é capaz de utilizar contra as sociedades democráticas.

Durante duas semanas o presidente da Venezuela apelou aos mais histéricos anúncios para tratar de parar ou travar as negociações Bogotá-Washington. Ordenou “congelar”, de novo, as relações diplomáticas com a Colômbia e retirou seu embaixador em Bogotá. A TeleSur fez com que a imprensa européia acreditasse que as negociações de Bogotá e Washington haviam criado uma “crise regional”.

A Colômbia, entretanto, conservou o sangue frio. O presidente Uribe em vez de dar marcha-ré, propôs, ao contrario, explicar pessoalmente a cada presidente latino-americano (salvo aqueles que haviam rompido relações diplomáticas com a Colômbia), em um rápido giro, os alcances do acordo com os Estados Unidos.

Nesse momento, o chefe de Estado venezuelano já havia mostrado o garrote econômico com o qual esperava dobrar, por fim, a resistência dos colombianos: decidiu pelo cancelamento da importação de 10.000 veículos colombianos e advertiu que isso obedecia aos “atritos diplomáticos entre ambos os países”, gerados pelo acordo militar entre os Estados Unidos e a Colômbia.

Porém, nem os industriais colombianos, nem o país em geral entraram em colapso nervoso, apesar de que semelhante mostra de barbárie econômica, digna dos piores regimes totalitários do mundo, causará, certamente, enormes dificuldades ao setor automotriz colombiano e venezuelano.

Finalmente, o giro de Álvaro Uribe foi exitoso. Ele demonstrou que a tal “crise regional” era um balão murcho. Nenhum dos presidentes latino-americanos que Uribe entrevistou, nem sequer o exaltado Evo Morales, nem a irascível senhora Kirchner, repetiram as promessas incendiárias e guerreiristas do ogro de Caracas contra o ato de soberania da Colômbia. Luis Inácio Lula da Silva, em quem Chávez depositava suas maiores esperanças, tampouco se atreveu a tocar o disco arranhado da “ameaça imperialista que quer devorar a América do Sul”. Ao contrário, o presidente colombiano conseguiu de seu êmulo brasileiro uma atitude de respeito para com o acordo sobre as bases militares colombianas.

Após o encontro de Uribe e Lula, Celso Amorim, o chanceler brasileiro, assinalou que qualquer que seja o acordo do governo de Uribe com a administração de Barack Obama, “é uma matéria naturalmente de soberania da Colômbia”. Embora Brasília tenha pedido a Uribe “transparência”, o governo do Brasil acudiu à doutrina da “soberania nacional” para rechaçar imiscuir-se na decisão de Bogotá.

Antes desse desenlace favorável à Colômbia, Hugo Chávez tratou de incluir Barack Obama em seus planos. Acreditou que poderia fazer o novo presidente dos Estados Unidos sofrer com a conhecida farsa da reverência-intimidação. Em 5 de agosto, com efeito, Chávez suplicou ao chefe da civilização que ele mais aborrece, que não amplie a presença norte-americana na Colômbia. Ameaçador, sublinhou que essas bases “poderiam ser o começo de uma guerra na América do Sul”. E ante os repórteres deixou escapar, como para que em Washington não restassem dúvidas: “Estamos falando dos Yanquis, a nação mais agressiva da história da humanidade”.

Barack Obama lhe respondeu friamente em 7 de agosto. Disse que seu Governo não tem intenção de estabelecer bases militares na Colômbia, e que o acordo que negocia com Bogotá é para “melhorar os laços da cooperação”. Obama explicou que se trata de uma atualização do acordo de cooperação militar que ambos os países têm, e reiterou que nos Estados Unidos “não temos nenhuma intenção de estabelecer uma base militar norte-americana na Colômbia”. “Não autorizei uma base militar americana na Colômbia, nem me pediram”. “Não temos intenção de enviar um grande número de tropas adicionais à Colômbia”, concluiu.

Ao ver que não havia sido secundado por Obama nem pelos outros presidentes latino-americanos, Hugo Chávez deu marcha-ré e despachou de novo seu embaixador a Bogotá. Seria um erro tomar esse gesto como um sinal de apaziguamento. A ofensiva chavista para desacreditar e malograr o pacto e o governo de Álvaro Uribe já começou e continuará.

O aparato de propaganda do Foro de São Paulo apelou ao velho truque da arqueologia comunista de transmutar o bem no mal e o mal no bem. Exemplo: dizer que o pacto Bogotá-Washington equivale a uma “entrega da soberania” e a um gesto de “dependência ante os Estados Unidos”. Em seguida, os grupelhos chavistas em Bogotá e outras capitais latino-americanas armaram operações de “agitação e propaganda”. E começou assim a nova mobilização “anti-imperialista” a qual será, como sempre, de caráter combinado.

Carlos Gaviria, o grande manitú [1] do Polo Democrático (PD), foi o primeiro a tomar o microfone para repetir os insultos de Caracas. Disse que “a Colômbia é um país súdito dos Estados Unidos”, e que o governo de Uribe “está entregando a soberania”.

O senador Jaime Dussán, outro cacique do PD, partiu tão rapidamente em cruzada que se equivocou. Em 4 de agosto disse à imprensa que pedirá ao presidente Uribe que “descarte definitivamente a possibilidade da presença de bases militares na Colômbia” (sic). Jaime Dussán se referia, talvez, à presença militar norte-americana em bases colombianas. O lapso cometido ante os jornalistas (ver El Espectador, “Polo busca mediação com Chávez e Correa”, 4 de agosto de 2009) revela o desejo profundo de Dussán: que na Colômbia não existam bases militares de nenhum gênero, nem norte-americanas nem colombianas, pois para sua seita marxista o melhor é uma Colômbia desnuda ante os modernos tanques, mísseis e aviões russos adquiridos pela fracassada porém bem armada revolução “bolivariana”. Dussán anunciou viagens de chefes do Polo a Caracas e a Quito para preparar ações internacionais contra seu próprio país. Outra eminência do PD, o ex-guerrilheiro e senador Gustavo Petro, reiterou que esses acordos, em sua opinião, “isolarão a Colômbia da América Latina”.

Quem estão se isolando do mundo são os senhores do Polo, pois as maiorias colombianas, segundo inúmeras sondagens de opinião, dizem estar de acordo com o governo de Álvaro Uribe, com o acordo sobre as bases e com o giro empreendido pelo chefe de Estado colombiano pela América Latina.

Ante cada conjuntura delicada que a Colômbia vive no espaço internacional, o Polo Democrático se alinha servilmente com as posições dos ditadores.

A nova mobilização da esquerda caviar não inclui só discursos. Em sincronia perfeita com a agitação política, sobreveio o ataque armado contra uma propriedade da multinacional Cartón da Colômbia. Homens armados chegaram a uma localidade perto de Popayán, no estado do Cauca, e destruíram bosques e maquinário que dava trabalho a 200 pessoas. Esse ato terrorista mostrou que a campanha contra o tratado com os Estados Unidos tem e terá artistas nos quais as FARC farão das suas diretamente.

Depois, entrou em cena o espetáculo arqui-conhecido das “mediações” espontâneas e das viagens “salvadoras”.

O ex-presidente Ernesto Samper acreditou ser indispensável ir em peregrinação a Caracas. De seu encontro com Chávez se sabe pouco. Horas depois, Chávez recebeu Piedad Córdoba e mudou de tática. Ordenou o retorno a Bogotá de seu embaixador e começou a falar de “desuribizar o diálogo com a Colômbia”. Pediu que a ex-chanceler colombiana, María Emma Mejía, fosse a Caracas para servir de “mediadora”, e convidou prefeitos e governadores colombianos da região fronteiriça a iniciar conversações com ele acerca das tensões entre os dois países.

Essa insidiosa tática é conhecida. Em 2003, Chávez quis tirar do presidente Uribe o tema da libertação de Ingrid Betancourt e para isso realizou contatos diretos com o governo francês. Em agosto de 2009, Chávez reforçou sua tentativa de apoderar-se do assunto dos reféns com o pretexto de adiantar uma gestão “mediadora”. Seu fracasso foi espetacular. Agora retoma o mesmo método, com a ajuda de Córdoba e Samper. Porém, Mejía rechaçou fazer esse papel e lembrou a Chávez que quem dirige as relações exteriores da Colômbia é o presidente Uribe e seu chanceler. O presidente Uribe saiu na frente da tentativa chavista e desautorizou em um comunicado todo gesto nesse sentido. “A Constituição Nacional é expressa: as relações exteriores são de exclusiva competência do Presidente da República e do chanceler e, portanto, nenhum funcionário de nível nacional, estadual, municipal ou local poderá adiantar gestão que viole este preceito constitucional”.

Desgastada até o osso por seu discurso pró FARC e seu servilismo ante o regime chavista, a senadora Córdoba faz chamados alarmistas. Pretende que o “conflito” colombiano (um conceito das FARC) “inundará toda a América do Sul” e que por isso a casca vazia da Unasul deve discutir os novos acordos Bogotá-Washington. Sua idéia é infiltrar essas discussões e transformar as bases militares colombianas com presença norte-americana em “bases de paz”. É necessário impedir essa ingerência. Já se sabe o que faz a esquerda caviar quando fala de “paz”.

 

[1] Manitú foi um líder dos Dakota e Sioux da América do Norte. Para eles, manitú é alguém que tem poderes sobrenaturais podendo se transformar em águia, cacto, o que quiser. A língua francesa adotou essa expressão há tempo, para designar um “personagem poderoso”. Na França costuma-se falar “o grande manitú da imprensa”, “o manitú do partido”, etc., e agora a língua espanhola está começando a adotá-la com o mesmo sentido de “poderoso”, ou “todo-poderoso”. (N.T.)

Tradução: Graça Salgueiro

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