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Década perdida

30 de dezembro de 2009 - 4:07:07

Tempo de balanço, fim de década, fim de um ciclo. Para mim uma década perdida, no sentido material, mas no sentido espiritual muito ao contrário. Se nos anos noventa conheci o meu zênite, posso dizer que no último decênio conheci o meu ocaso, o meu nadir. Mergulhei no abismo, como Nietzsche narrou de seu Zaratustra, depois de dez anos gloriosos. Tive que olhar nos olhos
o lado escuro da força e carregar um cadáver às costas para enterrar em um oco de árvore qualquer, o meu próprio. Pelos vales tenebrosos caminhei. Um cão medonho me fez companhia, que nenhum passeio no Tártaro se pode fazer sem que o Cão nos mande o seu representante.

Paradoxalmente, me elevei ao fazer o meu mergulho no vale das sombras. Para começo de conversa, jamais perdi a conexão com Deus e sempre e sempre o sangue vertido por Nosso Senhor Jesus Cristo me protegeu, assim como o manto sagrado de Maria. Não julgue, caro leitor, que isso é mera retórica. É um fato. E eu nada fiz para ter a dádiva, diga-se, foi-me dada pela graça de Deus, que eu nada mereço. Quis o bom Deus que eu sobrevivesse a tudo, apesar de tudo. Para falar nos termos poéticos de Bob Dylan, bati nas portas do céu, tendo antes descido aos infernos. Uma experiência e tanto para se contar, embora possa parecer a um incrédulo uma história literária. Quem me dera! Deixei no caminho as dores e as lascas do meu couro, que endureceu com as cicatrizes. Só espero que no período que agora se abre eu possa novamente trilhar, como Dante, o caminho da elevação e que, ao final, possa de novo voltar-me para a Luz. Beatriz já está comigo, com outro nome, doce nome. Dez anos de mergulho na floresta escura é o bastante para mim.

Aprender é sobreviver de forma consciente. Não se aprende, a não ser por puro impulso pavloviano (que não é verdadeiro aprendizado), se não sabemos de onde vem a dor e porque ela vem. Eu sei da minha dor porque sei como gira a minha Roda da Fortuna. “Mãe, guarde esses revólveres para mim“, poderia eu dizer para minha mãe, se ela fosse viva. Estou cansado de guerra e de derrotas. Mas não estou cansado nem da vida e nem do bom combate. “Mãe! Tire o distintivo de mim“. Bem sei que ela não pode fazê-lo, porque o tempo de maiores combates virá, na verdade já chegou. O distintivo é feito tatuagem, irremovível. Precisei primeiro enfrentar o dragão interior para emergir e se o bom Deus quis assim é porque outros combates, agora no mundo exterior, terei eu que combater. (Ouço a voz fanhosa de Bob Dylan, batendo na porta do céu).

Filme da década? Claro, a trilogia Matrix, de longe o grande filme. Certo que temos a obra de Clint Eastwood e outros grandes, mas nada se compara à aventura de Neo. Seriado? Roma, da HBO, sem dúvida. A mais perfeita reprodução de César já feita. O personagem Voreno encarna o guerreiro romano como sempre imaginei. Livro? Bem, fico com o Quixote, de Cervantes. Alguém dirá que não é da década. É, sim, é um livro para todo o século XXI, como ensinou Vargas Llosa. Se não é o livro para a multidão, é para mim. Junto com o livro de Guimarães Rosa, Grande Sertão, Veredas. Reli-o muitas vezes. Estão ali as minhas raízes, o meu pai, a minha mãe, eu mesmo. Toda a minha aventura, a minha alma brasileira. É o grande romance brasileiro, que honra Cervantes. Elejo-os.

No cinema brasileiro tenho que citar Tropa de Elite. Capitão Nascimento é o novo capitão do mato, o novo bandeirante que dormita em cada um de nós que está ansioso por restabelecer a ordem perdida para a malta niilista que tomou o poder. Bela história, grande atuação de Wagner Moura. Na crônica, João Ubaldo Ribeiro. Sem seu humor dominical eu teria ficado mais triste e infeliz. Sem seus ricos personagens da Ilha de Itaparica a política medonha dos podres poderes teria ficado impune. João Ubaldo vinga-nos a todos nós com a sua fina ironia, sua implacável elegância.

Que se vá logo esse tempo sombrio dominado pelas massas e pelos idiotas por elas eleitos, como o apedeuta Lula. Que se vá logo! Não vejo a hora de raiar o Ano Novo, um grande dia. Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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