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Em uma mesa de bar…

29 de dezembro de 2009 - 5:44:50

Os artistas, em geral, são pessoas bastante despojadas, irreverentes, descompromissadas, boêmias. Para eles, os horários não existem, salvo na hora do espetáculo. Não há para eles algo como os dias e as noites. Os horários, por assim dizer, são desencontrados. Meus amigos artistas ora dormem de manhã, ora dormem de tarde, ora dormem de noite. Ou então ficam acordados de manhã, de tarde ou de noite. Não me espantaria se, de madrugada, ligassem pra minha casa só pra sair e trocar idéias. Salvo quando possuem algum outro oficio, as horas não existem para eles.

E numa dessas discussões da filosofia de botequim, pensávamos sobre essa coisa tão simples como sentar numa mesa de bar, entre grades de cerveja e horas a passar, falando de altos papos e fofocas sem fim dos outros. Essas regalias são um verdadeiro luxo, um privilégio, uma dádiva das nossas democracias. Dormir à hora que quiser, bebericar num bar, falar livremente, gesticular e filosofar numa mesa de bar é um capricho que só um sistema de liberdades permite. E assim meditávamos: –
Neste mesmíssimo momento de quase madrugada, os norte-coreanos estariam no seu eterno toque de recolher, junto com os cubanos e os chineses!

A atriz da peça estava sentada ao meu lado e só achava graça de nossos comentários. O meu amigo ator é uma figura curiosa, sui generis, dentro dos padrões de sua classe: é um fervoroso, hidrófobo e incorrigível anticomunista. Por amar demais a liberdade, por crer que o espírito da liberdade está na alma individualista do artista e da própria arte, soaria intolerável para ele os controles exigidos por uma burocracia estatal iluminada. O coletivismo sufoca, esmaga a criatividade. Como dizia Nelson Rodrigues, no regime socialista ninguém é individuo, todo mundo é grupo, padrão, uma antipessoa. E como não devia deixar de ser, a unanimidade é burra!

No entanto, esse jeito polêmico de pensar causou alguns problemas a ele. Alguns atores e diretores esquerdistas, tomando conhecimento de suas tendências pró-liberais e capitalistas, começaram a fazer fofocas e mesmo estigmatizá-lo nos meios culturais belenenses. Tal como um patrulhamento ideológico comunista, os proxenetas vermelhóides, inclusive, exortavam a alguns conhecidos do meio artístico a evitá-lo ou simplesmente boicotá-lo.

Certos artistas, em nossa democracia, contraditoriamente, sonham com esse sistema estéril de controles governamentais policialescos e delações premiadas. Ou na pior das hipóteses, não percebem a monstruosidade que defendem. Nem por isso deixam de ser os idiotas úteis de sempre. O cantor Chico Buarque é o eterno defensor do tiranete do Caribe Fidel Castro, mas não deixa de beber o seu whisky e ter uma cobertura para o mar. O mesmo se aplica ao velhaco arquiteto Niemeyer, cuja riqueza é diretamente proporcional à sanha de stalinista psicótica e totalitária. Bertolt Brecht, um teatrólogo genial e patife notável, era também uma empregadinha doméstica de Stálin, junto com outro mentiroso compulsivo, mau caráter e artista notável, o pintor Pablo Picasso. Todos eles, sem exceção, atacaram ou atacam o capitalismo, a burguesia e as próprias elites que os financiam. Nem por isso abandonaram as maravilhas do conforto burguês. É muito dinheiro capitalista para muito comunista!

Por falar em artes, comentávamos sobre filmes interessantes, que tocam na liberdade do artista. Recordei-me do filme alemão “Mephisto”, que falava da história de um ator que vendeu sua alma ao diabo ao aceitar o apoio monumental do Partido Nazista, ainda que o preço fosse a delação de amigos, a rejeição da namorada negra e mesmo a perseguição e matança de seus amigos atores e escritores judeus. Embora o tema seja o nazismo, a descrição se encaixaria perfeitamente a Bertolt Brecht: um indivíduo que apoiou os expurgos de Moscou, nos anos 30 e se debandou para a Alemanha Oriental, apoiando alegremente o regime do Muro de Berlim. Ele também se tornou o todo-poderoso das artes cênicas neste país, ditando ordens sobre artistas, scripts, cenógrafos e produtores, como se fosse uma miniatura de um tirano comunista no teatro. E como um membro da nomenklatura soviética, tinha certos luxos, como um carro próprio, casa bem confortável e até os direitos autorais sobre suas obras no mundo capitalista, com direito de receber salário em moeda conversível e abrir conta em bancos ocidentais. Essa realidade de luxo destoava da esmagadora maioria da população alemã oriental, que vivia em casas caindo aos pedaços, recebia comida racionada e levava tiro se pulasse o outro lado do Muro de Berlim.

Outro filme interessantíssimo surgiu em nossas conversas, que retratava a vida difícil dos livres pensadores da Alemanha Oriental: “A vida dos outros”. É a história de um agente da polícia política alemã, a STASI, que espionava os passos de um escritor de teatro. A namorada do teatrólogo, uma famosa atriz, foi obrigada a trabalhar como espiã para delatar amigos e companheiros, sob pena de nunca mais atuar. Isso é a morte para o artista. E foi de fato o que ocorreu: a mulher, desesperada, acaba se matando no final. A atriz do bar ficou chocada com a história.

Bertolt Brecht não está só nessa empreitada. O que há de artistas, professores e intelectuais defendendo a destruição das liberdades em geral é algo espantoso. Recentemente, uma turma de jornalistas esquerdistas se reuniu num evento em Brasília chamado Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), que supostamente se prestava a discutir “meios para a construção de direitos e da cidadania na era digital”. E o que esse povinho pregava? Em nome da “democratização” da imprensa, a estatização completa da imprensa e a destruição dos meios de comunicação privados. Em outras palavras, os jornalistas se reuniam justamente para destruir a liberdade de expressão e de imprensa e pregarem o controle total do governo sobre as opiniões que deveriam ser publicadas. Porém, os comunistas têm uma expressão típica de uma linguagem totalitária: o “controle social” da informação.

Na terra das liberdades, a obsessão dessa gente é o “controle”. Os jornalistas querem revogar o livre mercado dos jornais, pago pelos próprios leitores, para que o Estado subsidie e tenha completo domínio sobre a informação. Claro, as empresas privadas de comunicação são acusadas de servirem ao capital. O negócio mesmo é que sirvam ao “outro capital”, ou seja, a do próprio Estado, censurando, ditando e determinando o que a população deve ou não saber. Alguns militantes histéricos pediam o fechamento da Rede Globo ou de outras emissoras privadas, como que inspirados no tiranete sargentão da Venezuela, o ditador-presidente Hugo Chavez. O paradoxo da liberdade de imprensa é que essas idéias têm popularidade entre os jornalistas brasileiros. Os jornalistas não confiam nos seus leitores. Se bem que os (desin)formadores de opinião mintam um bocado para eles. E se pregam controle estatal em tudo, não é por acaso que a imprensa brasileira atual, infelizmente, já sente os braços do Estado, através de pesados subsídios governamentais para defender as opiniões e mentiras do governo. Por que os jornalistas, com essas boquinhas, pensariam diferente?

Entre os artistas, a situação é parecida. Na revolta contra a “ditadura do capital“, deve ser bastante dispendioso para certas pessoas procurarem patrocínios privados da comunidade, seja através de empresas ou de seus próprios espectadores. Melhor mesmo que o Estado pague previamente os espetáculos, à revelia dos contribuintes, ainda que para isso, o cidadão comum seja forçado a tirar o dinheiro do seu bolso por algo que não quer pagar. A estatal Embrafilme, a produtora dos filmes brasileiros, ainda passa pela memória quando o assunto é filme ruim. Os artistas e cineastas faziam a farra! E o povo odiava aquilo e não extraia um níquel sequer, salvo quando pagava os impostos! Se nos países totalitários, o artista é um capataz, um lacaio bovino do regime, nos países democráticos, quando recebe dinheiro público, é uma besta quadrada, um verdadeiro funcionário público!

Se bem que a eterna dependência do Estado não é vício somente de artistas e diretores de cinema. Alguns dos maiores empresários do país, beneficiados com os empréstimos do BNDES, deram uma dinheirama para fabricar o mito da história do Presidente Lula, financiando o seu filme “O Filho do Brasil”. Claro que isso foi o paraíso para os lacaios próximos do poder. É muito mais grotesco: o presidente aceita uma espécie indireta de suborno das empresas para futura troca de favores. No final das contas, o filme, messiânico, patético, cheio de mentiras bem elaboradas e fantasiosas, bem ao gosto do oficialismo estatal das artes, vai servir para a futura campanha da ministra terrorista Dilma Roussef à Presidência da República.

Não há como não se espantar com o presidente Lula: ele é um grande artista do fingimento, preparado para qualquer platéia! Dizem que chorou quando viu o filme sobre sua vida. Entretanto, é curioso como alguém seja capaz de chorar por uma biografia irreal de sua vida, por algo que não viveu. Isso lembra a cena de uma propaganda soviética, em que o tiranete da Geórgia, Josef Stálin, aparecia descendo dos céus, sob os escombros de Berlim, aclamado por todos como o Messias da Rússia! Comenta-se que o próprio Stálin chorou pela cena fictícia. Qualquer semelhança não é mera coincidência!

Filosofar em uma mesa de bar continua sendo uma dádiva da liberdade. Há certos idiotas que não entendem isso. . .

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