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Entre fatos e mitos

25 de abril de 2010 - 4:36:10

O encontro, segundo Santos, “poderá ser um convite à formação de novos grupos marginais”.

E, mesmo, institucionalizar os thugs, enquanto “organização e parceiros do Estado”.

Os jovens delinquentes, recebendo uma espécie de incentivo político ao mais alto nível, prenhe de significado simbólico, erigir-se-iam num como que “sindicato do crime”.

Palavras certeiras, sem dúvida. O que o Daniel Santos não diz é que o Governo de José Maria já é, por mérito próprio, sem qualquer favor, um belo SINDICATO DO CRIME.

O dr. José Maria Neves, primus inter pares, cometeu, no dia 22 de Janeiro de 2006, meia dúzia de crimes e até hoje, contando com a incrível subserviência da “justiça” e das demais instituições da República, não respondeu pelo facto.

O ilustre Governo, que sobretudo desgoverna, nos píncaros da “governança”, conserva ainda, no seu seio, um falsificador de atestados médicos (S.M.) e uma senhora (M.M.) que esteve envolvida no escândalo do “saco azul”. É gente que percebe da faina!

Mas, por um deslize inexplicável, Daniel entrou na ladainha das “desigualdades” como explicação do fenómeno da violência urbana. Ora, não faz qualquer sentido. As “desigualdades” não explicam nada.

Nos anos 90 do séc. XX, a desigualdade de rendimentos aumentou nos Estados Unidos da América, enquanto as taxas de criminalidade conheciam um declínio notório.

Foi neste período histórico que o major Giuliani pontificou em Nova Iorque, com a avisada política de “tolerância zero” (inspirada na “broken windows theory” de James Wilson e George Kelling, especialistas em criminologia), cujo êxito foi simplesmente espectacular e contagiante.

A Europa passou a imitar esta medida sensata, que privilegia a liberdade e o respeito pelas leis.

Em épocas recuadas, havia muita desigualdade em Cabo Verde. Mas os jovens (pobres e “excluídos”, na célebre fraseologia crítica) não formavam grupos nem praticavam crimes de uma forma quase gratuita.

Havia FOME (algumas fomes dramáticas foram, inclusive, celebrizadas pela literatura e pelo cancioneiro popular) em Cabo Verde, miséria generalizada, carências de toda a espécie, mas as pessoas eram pacíficas e a criminalidade reduzida.

Não havia “grade” nas residências particulares. As famílias dormiam, aliás, e sobretudo nos dias de calor, com as janelas abertas. Sem medo. Havia um clima de confiança e respeito mútuo.

No Fogo, mesmo na cidade, o hábito de dormir com as portas e janelas franqueadas era frequentíssimo, e na Praia também, pelos relatos que ouço dos mais velhos.

A “pobreza” e a “desigualdade” são apenas uma tentativa de legitimação, a posteriori, de uma vasta decadência moral e espiritual, incentivada, primeiro, enquanto raison d’État, pelo “materialismo dialéctico” do partido único e, depois, pelo triunfo do relativismo moral no sistema educativo e na imprensa, o que levou, sem uma consistente oposição, à “ditadura do politicamente correcto” e à gradual inversão dos valores, que é, hoje, regra, e não excepção, na sociedade cabo-verdiana. (A “ética da malandragem” é o produto de uma lenta desconstrução da alma cabo-verdiana, iniciada nos alvores do “socialismo precário” do pós-independência, cuja grande aposta era o alcançar do “homem novo”, um homem light e desprovido do sentido de transcendência, mas fiel à lógica revolucionária e à política subversiva do partido-guia e do seu exército de intelectuais orgânicos, os guardiões do Mito e das maravilhas rutilantes da propaganda; não se pode ignorar os estragos que a “engenharia política” de inspiração totalitária fez no tecido social cabo-verdiano, fragilizando as famílias, a administração pública, a ética do trabalho e a sociedade civil).

Não, o nosso sistema de ensino não é “elitista”, como pensa o Daniel. É, pelo contrário, massificado e não promove a transmissão dos valores autênticos, tendentes à formação de uma cidadania dinâmica, cosmopolita e responsável.

Mesmo nos dias de hoje, se compulsarmos as estatísticas, veremos que os “thugs” são uma imensa minoria no total dos jovens pobres, desempregados e excluídos. A pretensa explicação falha, portanto, redondamente. A diferença está nos valores, nas crenças individuais.

A maioria, mesmo sendo pobre, sabe que o crime não é a via mais aconselhável para se afirmar numa sociedade. E tenta, como sublinhei num artigo pretérito, “subir na vida com princípios e honradez”. Foi esta a via que o meu pai, um menino pobre e excluído do seu tempo, escolheu.

É esta a via que aconselho, hoje, a todos os miúdos pobres do meu país. O crime não compensa e nem pode compensar. Esta é a mensagem que devemos passar à juventude; a mensagem certa.

A pobreza, quer para as pessoas individuais, quer para as nações, pode ser vencida, se adoptarmos, claro está, os VALORES correctos: trabalho, seriedade, dedicação, carácter, lealdade, confiança, inteligência, criatividade.

O Estado tem de fazer a sua parte, criando as condições institucionais favoráveis.

Mas nós também, we the people, como se diz na Constituição americana de 1787, temos de fazer a nossa parte. Esta é uma responsabilidade indeclinável. Nós é que fazemos, em larga medida, o nosso destino.

Há 30/40 anos atrás, Singapura era um país pobre. Hoje, é uma nação culta, próspera e confiante.

Uma outra falha lamentável do discurso do Daniel é a associação fácil entre os falhanços do actual Governo e as receitas contidas nos “manuais do liberalismo”. É um preconceito. José Maria Neves falhou na política económica, não por causa do liberalismo, mas por causa do ESTATISMO.

O Estado cabo-verdiano, consumindo cerca de metade da riqueza nacional, esmaga a nação e impede a inovação e a criação da prosperidade. É um Estado assistencialista. Rentista.

O que vigora em Cabo Verde não é o ideal económico de Adam Smith.

É, antes, a “economia da corrupção”, em que o Estado é “colonizado” por um partido e distribui favores e subsídios consoante a cor política dos felizardos. Não temos pioneiros como Bill Gates nem empresas criativas como a Google.

Temos, ainda, aquilo que sempre tivemos desde a fundação quinhentista da nossa nacionalidade: pessoas que, estrategicamente, se colocam no recinto do poder e, num ápice, fazem fortunas admiráveis, mexendo, habilmente, os cordelinhos oficiais e as “ligações” que abrem a roda da sorte e das fartas manigâncias.

O nosso “mal colectivo” não é o liberalismo: é o primado da burocracia, o nepotismo selvagem, o rent-seeking incorrigível, o viver prodigamente à custa do Leviathan e dos contribuintes.

O Governo do PAICV é orçamentívoro e centralizador.

As nossas políticas “públicas”, estafadas e improdutivas, resumem-se a isto: endividamento crescente e construção de elefantes brancos (de duvidosa rendibilidade).

O que conta não é a criação de empregos, a base de uma economia saudável. É a glória do príncipe e a grandiloquência do reino.

O mercantilismo ibérico, preocupado, avant tout, com os “cofres do Estado”, é o pensamento que melhor se adapta ao actual estado de coisas.

No séc. XVI, os olhos dos burocratas reluziam perante a acumulação dos metais preciosos; agora, exibem-se, na televisão, os milhões de euros que o Governo negociou lá fora!

É esta a esplêndida filosofia política da Neveslândia, a sua marca indelével: a “acumulação primitiva do capital“. A marca do subdesenvolvimento e do atraso.

Os países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Finlândia) são apontados, frequentemente, como o modelo ideal a seguir, por conciliarem a liberdade com a solidariedade. Ora bem: veja-se a posição que eles ocupam no índice da Heritage Foundation sobre a liberdade económica.

A Dinamarca aparece no 9.º lugar da lista. Pelos nossos padrões, é um país dominado pelo crudelíssimo “liberalismo selvagem”! E é próspero e civilizado.

A liberdade é a chave da prosperidade.

 

Nota:

1 – O Dr. José Maria Neves é o atual primeiro-ministro de Cabo Verde.

 

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