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Especialista em Ética!?

12 de junho de 2009 - 17:21:13

– Só pode ser cousa do chifrudo! Cousa boa não é! Quem ensina estas cousa é pai e mãe e o patrão velho lá de riba.

– Bueno, tá aqui, dá uma espiada.

O bagual pega a edição de dia 10/06/2009 e lá na página 4 lê que o tal Roberto Romano é isto mesmo.

– Ah, Romano, já entendi, é coisa dos italiano lá de Bento! Só podia ser cousa de estrangeiro inventar estas moda.

Pois nosso peão pode não saber, mas não é coisa dos italiano de Bento, é coisa bem pior: um intelectual da UNICAMP  – o que não exclui a intervenção do chifrudo, antes a confirma, é claro. Trata-se de um Professor de Filosofia e Ética, chiquérrimo! Seria muito difícil explicar para o peão que é cousa de italiano sim, mas não de Bento, que é tudo gente trabalhadeira, mas, das bandas da Sardenha, um tal de Antonio, que inventou uns causos esquisitos para os tais intelectuais especialistas.

Nesta entrevista o tal Romano deita falação e normas supostamente éticas para os jornalistas. A matéria é sobre o malfadado blog da Petrossauro, no qual a estatal pegajosa passou a expor todas as entrevistas sobre suas atividades, desmascarando as editorias que cortam, pinçam frases soltas, juntam de forma diferente para comunicar outra coisa que não a original, etc. Longe de mim defender este mamute estatal que deveria ser pulverizado e desestatizado em pequenas porções, vendido para empresas de verdade que nos forneçam gasolina de primeira a preços razoáveis, e não esta porcaria de baixa octanagem  a preços absurdos, enquanto manda fortunas para o MST, CUT e outras ONGS apaniguadas. Não obstante, neste assunto o mamute tem toda razão, que o diga quem teve a má sorte de dar entrevistas à imprensa sem exigir a publicação das perguntas e respostas na íntegra. Em agosto passado fui entrevistado pela Revista Isto É e como as respostas foram o oposto do que o comando totalitário esquerdista quer nada saiu. Mas há tempos eu me antecipei e só respondo por escrito me reservando o copyright e o direito de publicar em qualquer lugar, à minha escolha. (ver a entrevista em http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=236).

Pois o tal especialista em ética é um dos produtos mais bem acabados de intelectual orgânico, a invenção do indigitado Antonio, o Sardo, mais conhecido como Gramsci. Vamos à entrevista.

Já no início ele dá a orientação que o entrevistador amestrado deveria seguir, numa clara expressão do totalitarismo midiático. Perguntado o que achava da polêmica sobre o blog, respondeu: “Não existe polêmica” e assim dita a regra: não pode haver opinião contrária à dos “especialistas”, no mais puro estilo Al Gore encerrando o debate sobre o “aquecimento global”. Como o blog é utilizado para divulgar as perguntas e respostas dadas aos jornalistas antes da publicação, diz: “… é um instrumento de ataque (…) é absolutamente antiético, ilegal e insuportável (meus grifos) que uma empresa mantida pelo dinheiro público utilize um instrumento para pressionar o Poder Legislativo e a imprensa”. Vejam só o totalitarismo em marcha: o sujeito determina o que é ético, afirma ser ilegal sem mostrar a lei que a impede e, sobretudo, pontifica: é insuportável!

Será mesmo um instrumento de ataque, ou de defesa do mamute ferido pelas lanças ferinas da imprensa e das CPIs, cujo funcionamento corrupto é sobejamente conhecido? Uma pergunta se impõe aqui: por que a esquerda ataca a empresa que sempre defendeu – junto com a direita retrógrada que abomina o liberalismo econômico? Para os que não sabem, a Petrossauro foi criada por lei de Vargas como empresa estatal não monopolista para não permitir a exploração sem controle pelas estrangeiras, nos moldes da ENI (Ente Nazzionale Idrocarburi) italiana. Quem introduziu a emenda do monopólio foi a UDN, partido supostamente à direita e liberal. E quem tinha todas as condições de privatizá-la, o “liberal” Roberto Campos, não o fez e passou o resto da vida falando mal dos sucessores exatamente por não terem feito o que ele não fez. Qual o interesse das esquerdas em fazer definhar o traste que sempre defenderam? Como diria o nosso peão, boa cousa não é, é cousa do demo!

Podemos especular que os interesses do neo-comunismo gramsciano em aliança com os metacapitalistas (ver em http://www.olavodecarvalho.org/semana/051010dc.htm), tendo superado as esquerdas e as direitas tradicionais para estruturar a Nova Ordem Mundial, esteja interessadas numa privatização em bloco no estilo da privataria (apud Gaspari) tucana, aliás os mais interessados na tal CPI.  Não é à toa que FHC é o maior representante da globalização no Brasil. A tensão (oposição coisa nenhuma!) entre PT e PSDB é porque o primeiro ainda mantém um resquício da esquerda nacionalista e o segundo está totalmente dedicado aos projetos de George Soros, do Diálogo Interamericano, da ONU e do shadow party http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=902).

Voltando à entrevista. A pergunta e a resposta finais devem ser transcritas integralmente, pois devem ter feito Gramsci sorrir no túmulo. (Entre parêntesis minhas observações).

Pergunta: Os jornalistas têm de publicar todas as informações prestadas pela fonte?

Resposta: De jeito nenhum. A profissão de jornalista é eminentemente intelectual (leia-se orgânico). Uma das funções do intelectual é criticar os dados e interpretar os dados para o leitor (a função não é apresentar os fatos ao leitor, mas interpretá-los de acordo com o intelectual coletivo – note-se a contribuição de Frankfurt: crítica) O jornalista não é obrigado a dar a íntegra de uma entrevista. A função do jornalista não é de xerox, vocês não são porta-vozes mecânicos dos interesses vários que se digladiam na sociedade civil e no Estado. (Claro, são porta-vozes exclusivos do intelectual coletivo). O jornalista dá uma interpretação a mais próxima possível do espírito da coisa (leia-se: o espírito da coisa é o que manda o intelectual orgânico). Jornalista não e uma maquineta de reproduzir os interesses conflitantes (claro, não há conflito, não há polêmica). E neste caso bota interesses conflitantes nisso.

A entrevista, além de mostrar a abjeta submissão da imprensa ao representante máximo do intelectual coletivo, serve para exemplificar o que Gramsci queria.

Gramsci mantém a idéia marxista do sujeito conhecedor e pensante coletivo e faz uma distinção entre o intelectual “orgânico”, aqueles conscientes de sua posição de classe – criado pela classe dos intelectuais, pelo partido-classe – e o intelectual “tradicional” – aquele que mantém sua autonomia e continuidade histórica. A organização da cultura é conseguida exatamente através da hegemonia dos intelectuais orgânicos – organizados, como órgãos de um único organismo, o Partido-classe, o “intelectual coletivo”. Não me refiro aqui ao conceito tradicional de partido político. Um intelectual orgânico não necessariamente integra os quadros de um partido, mas sabe quais são seus interesses de classe e, por assim dizer, “toca de ouvido”: não é preciso uma partitura para que conheça a “música” que lhe interessa; na dúvida, basta ouvir a música que seus pares estão tocando. Cabe a estes homogeneizar a classe que representam e levá-la à consciência de sua própria função histórica: transformar uma classe em-si numa classe para-si.

Esta atividade dos intelectuais, na prática necessita criar uma espécie de escola de dirigentes, um grupo de intelectuais “especialistas”, que servem para orientar os demais quanto a seus interesses específicos de classe. Sempre que ocorre algum fato relevante a imprensa recorre logo a “especialistas”. A proposta de revolução educacional – pedagogia crítica – de Gramsci sugere a criação de escolas profissionais especializadas, nas quais o destino do aluno e sua futura atividade serão predeterminados (UNICAMP, USP, UFRJ e a quase totalidade das universidades brasileiras), pessoas designadas pelo intelectual coletivo para dizer como os outros devem pensar a respeito do assunto. Quem ouse pensar diferente é severamente admoestado pelos “especialistas”, obrigado a uma autocrítica e se reincidir, é posto no ostracismo e perde o apoio dos companheiros de viagem. Deve-se frisar que as palavras desses “especialistas” expressam sempre a opinião que deverá ser adotada em comum para os interesses exclusivos do Partido-Classe, do Intelectual Coletivo. Estes são os agentes transformadores da consciência e do senso comum, popularmente conhecidos como “formadores de opinião”.

Ética tem em Gramsci um sentido totalmente diferente do que significa para as pessoas em geral acostumadas pelo senso comum com o “discurso moralístico burguês”. Ético é tudo que serve para fazer avançar a tomada do poder pelo pensamento hegemônico quando atinge o estado de consenso: em que todos concordam em aceitar sua ideologia de classe. (*)

Eis o Sr. Romano!

 

(*) Os três últimos parágrafos foram retirados do Capítulo III do livro O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial, É Realizações, 2008.

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