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Eu devia ter feito medicina, ou Rodolfo Oliveira

2 de abril de 2010 - 18:15:00

No velho dicionário que tenho aqui ao lado,
awe é “admiração, temor”. Essa recordação bilíngüe, sedimentada nas profundezas dos meus longínquos 17 anos, torna agora à superfície. Por qual razão? É que ontem experimentei coisa parecida, e a sensação me pôs a escrever este breve e cândido relato.

Semana passada, telefonei para um amigo dos tempos de faculdade. Rodolfo Oliveira é o nome da peça. Eu tinha um convite: “Grande figura humana, tanto no pessoal como no profissional, escreve um artigo pro Estado. Trinta linhas, o assunto que tu quiser”. E ele: “Escrevo sim. Trinta linhas, certo? Te mando em breve etc. e tal”. Estava combinado. No dia seguinte, nada do Rodolfo. Nem no outro. Tampouco no dia que vem depois do outro. Eu já achava que o rapaz esquecera ou desistira. Cobrei novamente, num tom grave, para causar medo. Ele desculpou-se, explicou que lhe faltavam tempo e conexão à internet. Tudo bem. Ontem, enfim, o texto apareceu.

Conhecendo o talento do cidadão, eu aguardava o escrito ansiosamente (creio inclusive que a demora foi uma velha jogada publicitária). Vejam aí que escritor habilidoso. Roubou telepaticamente minha intenção de falar do mestre Nelson Rodrigues e fez miséria. E tem a minha idade, o desgraçado. Ao fim da leitura, eu encontrava-me no estado da admiração, do temor respeitoso, do assombro. Após alguns instantes de contemplação literária, liguei para o autor: “Recebi o artigo. Seu ***, me sinto deprimido, desanimado”. Ele achava graça.

É isso, amigos. A verve rodolfiana me humilhou. Eu nunca escreverei com tamanha autoridade. Foi ali, ao telefone, em meios às ponderações de Rodolfo Oliveira (“Você tá exagerando, rapaz”), que me veio a melancólica constatação: eu devia mesmo era ter feito medicina. Minha conta bancária estaria multiplicada por mil. E em todos os ambientes e ocasiões as pessoas apontariam: “Olha lá o doutor Bruno Pontes!” Convenhamos, soa bem.

* * *

Ora, vamos ouvir o Saldanha!

Por Rodolfo Oliveira, jornalista

Não há autor que me tenha trazido ventos tão oportunos sobre aqueles anos do que o Nelson. Os anos a que me refiro são os que fecham a década de 1960 e o Nelson ao qual me reporto é o Rodrigues. Outro dia, ao reler uma seleção de crônicas do jornalista, constatei que, sem dúvidas, o Nelson Rodrigues foi um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos. Aqueles anos, principalmente o badalado 1968, Nelson os têm todos nas crônicas que escreveu para o jornal O Globo. Para mim, então, que sou de uma geração acostumada a ouvir de professores desiludidos com o fracasso do comunismo o quão duro foi aquela época e et cetera e tal, a coisa toda se torna ainda mais fantástica.

O cronista transitou no olho do furacão daqueles anos em que todos tinham que, de alguma forma, pagar um certo tributo ao radicalismo político para se livrar do estigma de conservador, ou, vá lá, de ser um “neutro”, pecado então capital. A legitimidade de cada sujeito era atestada pelo grau de radicalismo a que ele se permitia em suas ações político-partidárias. Nelson não se sujeitou a isso; a impressão que se tem ao lê-lo é que o pernambucano caminha incólume – sem prescindir de graça e elegância, algo que deveria magoar profundamente os idealistas de primeira viagem e os grosseiros estudantes país afora – através da radicalização que parecia querer “virar o mundo de pernas para o ar”, nas palavras do escritor Ruy Castro.

Em tempos distantes, à época da universidade, eu próprio convivi com algumas viúvas do comunismo totalitário. Alguns desses sujeitos falavam em União Soviética e do comunismo chinês com um amor comovente, desses amores que ecoam como choro de bêbado abandonado (e, de fato, alguns pareciam estar sempre ébrios). Sujeitos estranhos, gastos, tediosos, e, no mais das vezes, confusos. Mentalmente, eu os colocava frente a frente com Nelson: eles, de foice e martelo nas mãos, a arrancar paralelepípedos das ruas para arremessá-los contra as vitrines dos bancos, e o Nelson, de pé em uma padaria, a tomar um café, com um radinho de pilha ao ouvido acompanhando atentamente o comentário de João Saldanha sobre o último jogo do Fluminense, ao mesmo tempo em que procura nos bolsos da camiseta o maço de cigarros.

– Nelson, Nelson, acaba de estourar uma revolução na França! É a nova Revolução Francesa! Estão pondo aquele país abaixo!, berra o alarmista.

– Ah, você se refere àquela agitação infantil? Ora, vamos ouvir o Saldanha!, responde um impaciente Nelson.


O artigo de Rodolfo Oliveira foi publicado no jornal O Estado.

Bruno Pontes é jornalista – http://brunopontes.blogspot.com

 

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