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Eutanásia e espetáculo

20 de fevereiro de 2010 - 8:30:38

Nem é preciso dizer que este observador de pássaros e de helicópteros que atulham os céus de São Paulo de Piratininga não integrará tal exaltado coral de progressistas. Não vejo em Gosling nenhum traço de heroísmo e tenho certeza de que seu lugar é mesmo em Old Bailey, a egrégia corte criminal de Londres, como bem sabem os admiradores de Dickens e Conan Doyle. Assim como a maioria de meus leitores, eu condeno Ray Gosling, embora, talvez, não pelas mesmas razões, ou não de todo por elas. Sou contra a eutanásia, isso é ponto pacífico, mas não é o fato de o jornalista bretão ter assassinado o parceiro que me levaria a condená-lo. Antes, eu o condeno por não sentir culpa, por não sentir remorsos, por sua absoluta certeza de ter feito “o certo”. É aí que se encontra o inominável.

Se tem realmente esse grau de certeza em sua consciência, se não sente de fato um pingo de culpa por nada, Gosling não pode ser considerado uma pessoa normal, um ser humano. Coloco-me no lugar dele, diante do moribundo (que, no meu caso, seria do sexo feminino) e da terrível decisão que me vejo forçado a tomar. Confesso que não consigo extrair de mim nada além da incerteza. Me vejo transido pela mais implacável dúvida. Serei movido pelo altruísmo e me sacrifico, cometendo essa abjeção que é o homicídio (pelo qual poderei ser responsabilizado algum dia), para abreviar o sofrimento de minha amiga? Ou estarei querendo me aliviar do fardo que é acompanhá-la nessa longa e dolorosa jornada rumo ao fim, deixando de lado meu cotidiano e meus próprios afazeres, por tempo indeterminado, para poder cuidar dela, sofrendo empaticamente cada sofrimento seu e me deixando arrastar para um inferno ainda pior, pois para mim, ao contrário dela, me esperam a superação desse maldito trauma e o retorno à amenidade da vida?

Duvido de que uma pessoa normal e não um assassino, gerado pela banalidade do momento, pela simplicidade do ato, conseguisse encontrar uma resposta para essas questões. Duvido de que, em plena posse de sua consciência, pudesse se sentir totalmente isento de culpa. De quem obteria a certeza de ter agido corretamente sob o ponto de vista moral, se a única pessoa capaz de dá-la, ele mesmo, não se encontrava nem se encontra integralmente apta a fazê-lo, uma vez que devassada pelas mais terríveis circunstâncias? Dar-se essa certeza, como se deu Gosling, sem poder dá-la, é tornar-se cúmplice de si mesmo e aí já se encontra um indício inapelável da autoria de um crime. Isso tudo, é claro, se o que diz Gosling é verídico, se de fato ele matou um ex-parceiro, já que não declarou seu nome nem outros detalhes concretos do caso, se é que ele não teve um surto psicótico e inventou, em delírio, toda essa história, se é que ele não engendrou a tragédia para fazer-se um mártir da causa gay ou tão somente obter seus quinze minutos de fama universal. Certezas numa situação como essa são impossíveis, especialmente numa civilização midiática.

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