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Fábulas e piruetas na Neveslândia

11 de março de 2010 - 17:00:21

Ontem, dia 8/3/2010, a RCV (Rádio Cabo Vede), no programa “13/14”, montou uma estratégia triste que mancha, definitivamente, a democracia cabo-verdiana. Num primeiro momento, o Primeiro-Ministro foi colocado “no ar” e falou da situação do país e, especialmente, da polémica colocação da Polícia Militar nas ruas. Depois, em poucos minutos, veio o contraditório deu-se voz à UCID (União Cabo-Verdiana Independente e Democrática) e ao MpD (Movimento para a Democracia), com os respectivos líderes a fazerem um conjunto de apreciações que acharam convenientes.

O PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde) também interveio, através de Armindo Maurício. Em princípio, a coisa devia ter acabado ali. Como é da praxe em todas as sociedades abertas e democráticas. Mas não!

Num golpe auspicioso, a Rádio “pública” manteve José Maria Neves em linha, dando-lhe, logo a seguir, e durante largos minutos, a bendita palavra, tendo o “premier” falado, então, de tudo e mais alguma coisa. Ele manda!

É este o conceito de igualdade e liberdade de imprensa que a RCV cultiva. Quanto ao conteúdo, a parlenda do sr. José M. Neves não trouxe nada de novo. Incapaz de explicar o fracasso governativo (ao não cumprir as suas próprias metas, inscritas aliás no Programa de Governo, que é o contrato da legislatura – “pacta sunt servanda”), JMN entrou no jogo das acrobacias, saltando, numa curiosa pirueta, de galho em galho, na tentativa desesperada de encontrar culpados e forças ocultas (a “crise internacional”, a “globalização” e tutti quanti) em quem lançar a responsabilidade.

Todos, excepto o dr. José Maria Neves, são culpados pela situação reinante! A trapalhada só descredibiliza, ainda mais, o Governo e o sistema político.

Julien Freund, um grande politólogo, já o tinha dito com clareza: a responsabilidade política é uma responsabilidade PROFISSIONAL, como qualquer outra. Faz-se uma ponte e ela, pouco tempo depois, cai, provocando vítimas. De quem é a culpa? Do engenheiro, que não fez os cálculos correctamente, ou do “liberalismo selvagem”?!

O Governo tem uma função precisa, no quadro constitucional. E responde estritamente por isso. Não compreender isto é não compreender nada, ou pretender, por meio de uma esperteza de botequim, subverter o sistema instituído. Mas, já o sabíamos, José Maria Neves considera-se, no cume da lógica revolucionária, um ser especial: não responde pelos crimes que pratica (cerca de meia dúzia, no dia 22/1/2006) nem se sente obrigado a prestar contas.

Ele, bafejado pelo sopro histórico dos déspotas, de Tutancamon a Fidel Castro, está acima das instituições e da justiça. É o manda-chuva, o rei da Neveslândia!

Há, contudo, um outro ponto que merece ser realçado, uma vez que tem sido explorado, insistentemente, pela propaganda oficial, tendo sido, de tão martelado, absorvido pela própria JpD (vide a entrevista de Miguel Monteiro, no Expresso das Ilhas de 3/3/2010).

É a ideia bizantina de que “a pobreza diminuiu com este Governo”. José Maria Neves, nas antenas da sua querida RCV, voltou a bater nessa tecla. Direi apenas o seguinte: tecnicamente, isto é IMPOSSÍVEL. Não pode haver diminuição da pobreza num país, como Cabo Verde, onde o desemprego e a taxa de inflação não param de aumentar.

Arthur Okun, um dos mais influentes economistas do séc. XX, membro da equipa económica do presidente Kennedy, criou o chamado “misery index” (índice de miséria, traduzido à letra). O famoso cálculo, criado por Okun, é fácil, inteligente e prático:

índice de miséria = desemprego + inflação. É só fazer as contas.

Ora, isso é absolutamente lógico, porque o aumento do número de pessoas no desemprego e a erosão do poder de compra só complicam a situação social de uma nação, com consequências gravosas ao nível do rendimento económico e da qualidade de vida da população. José Maria Neves não compreendeu nada disto. Não merece governar.

P.S.: Outros economistas acrescentaram, no entanto, “inputs” inteligentes (e enriquecedores) ao cálculo inicial de Okun. Para uma boa síntese, ver o artigo de Ricardo Reis, professor de economia na Woodrow Wilson School, em Princeton.

 

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