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Farrakhan exige reparações dos judeus

4 de agosto de 2010 - 22:53:53

Datada de 24 de junho de 2010, a carta resplandecente com o símbolo da lua crescente e o título retumbante e impressionante de Farrakhan (“Representante Nacional do Excelentíssimo Elijah Muhammad e da Nação do Islã”). Nela, ele declara que os livros (volume dois do The Secret Relationship Between Blacks and Jews e Jews Selling Blacks: Slave Trade by American Jews) apresentam um registro inegável de conduta anti-Negros, começando com o horror do comércio transatlântico de escravos, escravos nas plantações, Jim Crow (segregação racial), arrendamento, movimentação do trabalho do norte e do sul, sindicatos e a exploração do nosso povo que continua até os dias de hoje.

Farrakhan desafia os recebedores de sua carta – que se estende politicamente desde Jeremy Ben-Ami (do J-Street) a Lee Rosenberg (do Comitê de Relações Públicas Americano-Israelense) a Morton Klein (da Organização Sionista da América) – a encontrar uma atitude minha ou dos meus seguidores que tenha ferido um único indivíduo judeu, impedido judeus de fazerem negócios, obstruído sua educação, ferido suas famílias, pichado ou profanado suas sinagogas.

“Não encontrará nenhum,” declara Farrakhan, que em seguida pergunta: “com base em que vocês acusam a mim e a nós de sermos “antissemitas””? Bem pelo contrário, afirma Farrakhan, “nós podemos agora acusá-los da conduta mais veemente anti-Negros nos anais da nossa história nos Estados Unidos e no mundo. Nós podemos acusá-los de serem os mais desonestos dos assim chamados amigos, ao passo que a sua história para conosco demonstra que vocês foram nosso pior inimigo”. Farrakhan também poderia se concentrar no fato de que os judeus estão “sentados no topo do poder mundial, com bens e influência, enquanto as massas do seu povo aqui nos Estados Unidos, no Caribe, na América Central e do Sul e em qualquer outro lugar do mundo estão em condições piores do que qualquer outro membro da espécie humana”.

Ele poderia usar esses argumentos, recorda, mas optou por não fazê-lo: “Eu não escrevo com sarcasmo venenoso, ódio, amargura ou espírito de vingança”. Ao contrário, ele espera estabelecer vínculos com os judeus: “Eu implorei a vocês pelos anos afora por um diálogo sensato e inteligente. Vocês me rejeitaram”. Apesar dos fracassos anteriores, a publicação desses dois livros, inspira Farrakhan a tentar mais uma vez: “eu peço novamente um diálogo”.

Para Farrakhan, diálogo significa reparações. Visto que os judeus “estão em uma situação de me ajudar no trabalho de humanização outorgado ao Excelentíssimo Elijah Muhammad por Alá (Deus)”. Mais especificamente: “Essa é uma proposta que pede a vocês e aos gentios que vocês influenciam a me ajudarem na reparação ao meu povo pelo dano causado por seus ancestrais aos meus”. Em outras palavras, após anos de demandas malsucedidas por reparações para os negros ao governo dos Estados Unidos, ele agora se volta aos judeus por indenizações com base em suas alegadas injustiças do passado.

Farrakhan apresenta esse momento tanto como uma oportunidade única para os judeus (“Essa é uma maneira formidável da geração atual de judeus de escapar do Julgamento de Alá”) quanto como um ultimato:

vocês têm a opção de reunir suas forças para um confronto total contra mim, a Nação do Islã e a verdade que eu e nós expomos e escrevemos, ou sendo um povo inteligente e civilizado, podem sentar e conseguir através do esforço o caminho correto que possa apagar a mancha do passado e conceder, a judeus e negros… um relacionamento novo, honroso, e mutuamente respeitoso.

Caso o judeus rejeitem essa proposta, Farrakhan ameaça com “desgraça e ruína”:

caso vocês optem em dificultar a nossa luta em favor do nosso povo, eu respeitosamente aviso… quanto mais vocês me combaterem e se opuserem a mim, em vez de me ajudarem a levantar o meu povo de seu estado degradado, Alá (Deus) e Seu Messias levarão vocês e seu povo à desgraça e à ruína e destruirão seu poder e influência aqui e no mundo todo.

Ele termina com “Apresentado Respeitosa e Atenciosamente pelo Excelentíssimo Ministro Louis Farrakhan, Servidor do Lost-Found Nation of Islam no Ocidente”.

Comentários:

(1) Em um importante discurso em 26 de junho, Farrakhan anunciou ter enviado esses livros a mais do que aos mencionados líderes judeus:

nós publicamos o Volume nº. 2 do The Secret Relationship Between Blacks and Jews. … eu enviei esse livro junto com outro já impresso chamado Jews Selling Blacks, ao Sr. Abraham Foxman da B’nai B’rith [sic] e a todos os líderes das organizações judaicas mais importantes. Eu o enviei ao Presidente Obama, a Rahm Emanuel, a David Axelrod, a Timothy Geithner, a Larry Summers e a Ben Bernanke.

(2) Segundo a publicação de Farrakhan, The Final Call, todos os líderes judeus responderam a sua carta, censurando-a.

(3) A “Equipe de Pesquisadores de História da Nação do Islã” (observe a ausência de seus nomes) apresentou o primeiro volume do The Secret Relationship Between Blacks and Jews em 1991. Resumindo, o primeiro volume é similar aos Protocolos dos Sábios de Sião, não um livro acadêmico e sim um artefato de propaganda conspiratória cuja única intenção é a de gerar ódio aos judeus. Harold Brackman iniciou a demolição de suas pretensões acadêmicas em Ministry of Lies: The Truth behind the Nation of Islam’s “The Secret Relationship between Blacks and Jews” (Four Walls Eight Windows, 1994) e Saul S. Friedman a concluiu em Jews and the American Slave Trade (Transaction, 1998).

(4) As tentativas de culpar os judeus pelo comércio de escravos lembram as teorias conspiratórias culpando os judeus pelos atentados de 11 de setembro: em ambos os casos, os judeus são transportados infundadamente para dentro de uma história no que tange predominantemente acerca dos muçulmanos.

(5) Farrakhan se baseia em uma óbvia, porém esperta duplicidade em sua carta: “nós podemos acusá-los” com muitas acusações, mas não iremos fazê-lo. Estamos propondo um acordo, mas se vocês o rejeitarem, “desgraça e ruína” os esperam. A carta equivale a uma tentativa nada sutil de extorsão.

(6) Ela também apresenta um exemplo perverso de antissemitismo benigno, pelo qual o interlocutor espera que os judeus irão usar o que ele imagina estar no poder deles a fim de ajudá-lo – nesse caso suplicando por ajuda para com “os gentios sobre quem vocês têm influência”.

(7) Poder-se-ia imaginar que com Barack Obama na Casa Branca e a África gozando de altas taxas de crescimento econômico, Farrakhan iria parar de se focar nos judeus para “tirar o meu povo de seu estado de degradação”.

(8) A carta se encaixa num padrão de antissemitismo por parte de Farrakhan que lembra o início, quando do reestabelecimento da Nação do Islã em 1978. Em contrapartida, sob Elijah Muhammad, que faleceu em 1975, Farrakhan e o NoI de maneira geral mostravam pouco interesse nos judeus.

(9) Klein do ZOA chama essa carta de “uma pregação para a violência contra os judeus”, no que ele está certo: Farrakhan sabe muito bem que não terá a resposta que exige.

(10) Farrakhan elogiou Obama como “a esperança para o mundo inteiro,” “aquele que pode resgatar os Estados Unidos da sua queda” e o enviado pelo “Messias“. a presidência de Obama aparentemente incentivou-o a renovar os ataques contra os judeus.

(11) Onde estão o Conselho de Relações Americano Islâmicas, a Sociedade Islâmica da América do Norte, a Sociedade Americano Muçulmana e o Conselho Muçulmano de Relações Públicas? Espera-se que condenem Farrakhan.


Atualização
: O leitor Alan Silverman, assinala que eu deixei de mencionar um terceiro livro, posterior, que demole ainda mais a “pesquisa” da Nação do Islã”: Jews, Slaves, and the Slave Trade: Setting the Record Straight (New York University Pres, 1998) por Eli Faber. E o leitor Wallace Edward Brand lembra de um importante artigo de Henry Louis Gates, “Black Demagogues and Pseudo-Scholars.”

 

Publicado na National Review Online.

Original em inglês: Farrakhan Demands Reparations from Jews

Tradução: Joseph Skilnik

 

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