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FHC e o tema de nosso tempo

3 de novembro de 2009 - 3:40:56

FHC inicia o artigo indo direto ao ponto principal, a plena alienação da sociedade brasileira diante da arrogância e exorbitância do governo Lula: ”
A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio ‘talvez’ porque alguns estão de tal modo inebriados com ‘o maior espetáculo da terra’, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?”

FHC só não pode afetar surpresa por isso. Ele sabe perfeitamente bem que o grande eleitor de Lula e o pavimentador dos caminhos do PT ao poder foi ele mesmo. A alienação da sociedade aconteceu em larga medida em seu próprio tempo de poder e oriunda de seus próprios métodos. Não faz muito eu comentei a entrevista que FHC deu à revista Dicta&Contradicta,  na qual ele se declarou partidário dos métodos políticos de Gramsci. Ora, o resultado disso não seria coroado no seu governo, socialista meia-boca, ainda com o ranço “burguês”. A social-democracia sempre preparou o terreno para que os radicais desembarcassem no poder de Estado. Como teórico da revolução gramsciana ele tem perfeitamente claro como funciona a coisa toda.

FHC completou no exórdio do artigo: “Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos“.

Sim, tem método, o método usado por FHC ele mesmo e seu grupo, desde antes de chegar ao poder. Impessoal, a despeito do príncipe tresloucado, um estúpido com cara de torcedor e futebol. A revolução no ensino, alienando os jovens, a edição de material didático mentiroso, o agigantamento acelerado do Estado, do lado da receita e da despesa, o controle ideológico dos meios de comunicação, foi tudo que FHC realizou. Até mesmo as malditas bolsas em troca de votos foi criação sua. FHC se preocupa talvez porque um insensato é um príncipe despreparado. Ora, quando os demônios são soltos fazem coisas que se esperam deles. Afinal, são demônios. É o que estamos vendo. Nada do que Lula faz é diferente do que FHC fez, exceto que o processo é cumulativo e está em grau muito mais avançado, praticamente temos vinte anos nessa marcha forçada no rumo do totalitarismo. Que a revolução gramsciana se faz assim mesmo, “devagarinho, quase sem que se perceba“. Agora FHC chama a isso de “pequenos assassinatos“, figura notavelmente apropriada, mas ele é mais que cúmplice desses crimes, pode ser considerado o mandante. FHC poderia ter salvo o Brasil desse desastre, mas jamais quis isso. Como um Fausto tupiniquim achou que poderia negociar com Mefistófeles sem entregar a alma. O fogo arderá para todos. FHC deu-se conta da dimensão da tragédia que nos espera.

Completou: “Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do ‘autoritarismo popular’ vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: ‘Minha casa, minha vida’; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos“.

FHC teve a coragem de vir a público dizer essas coisas todas, uma surpresa para mim. Falar, como o fez, em autoritarismo popular é ainda um eufemismo, mas uma figura de linguagem que já dá a dimensão trágica do real. Afinal, FHC carrega a autoridade de ex-presidente, patrono de todos os esquerdistas, inclusive e sobretudo de Lula e seu grupo. De uma maneira que me pareceu desapropriada comparou as ações de Lula com as dos governos militares, esquecendo-se de dizer que os militares implantaram o regime de força para livrar o Brasil das mesmas forças totalitárias aglutinadas em torno de Lula; e, depois, fizeram a abertura política e entregaram o poder aos civis, sem qualquer trauma. O processo agora é precisamente o inverso e mais paralelo vejo com o período imediatamente anterior ao pré-64: as esquerdas se aproximando do poder total pela via democrática, objetivando destruir a ordem democrática para perpetuar-se. FHC não perdeu o sestro de falar mal dos militares, para cortejar talvez aqueles a quem denuncia no artigo. Seu medo ainda não alcançou as devidas dimensões.

Não obstante, foi capaz de escrever: “Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados“. Nesse trecho podemos notar sua ansiedade e sua urgência. Partido e Estado formando uma unidade é o totalitarismo com todas as letras e o Brasil já vive isso, conforme ele observou. Infelizmente, é o que tenho escrito há bem mais tempo. Esse processo começou no dia da posse de Lula. Este artigo tardou a ser escrito.

Em meus artigos os leitores têm lido muito sobre o papel adquirido na economia pelos fundos de pensão e como eles se tornaram instrumentos para a chegada ao socialismo, a partir da resenha que fiz do livro de Peter Drucker. É a primeira vez que vejo o problema colocado nos mesmos termos que tenho escrito: “Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde“.

Pergunta: quem tem força para dar basta ao continuísmo? Ora, direis, as estrelas. Quais? As quatro, aquelas mesmas quatro que em 1964 tiveram a força e o discernimento para espantar os alucinados do poder. Que venham enquanto é tempo. Ora, direis, ouvir estrelas… Melhor ouvir clarins?

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