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Fim de leitura – Crônica do Quinho

5 de junho de 2009 - 21:33:32

– Doutor, que prazer. Hoje é um dia especial.

– O que houve de especial, Quinho?

– Acabei de ler o livro do Cervantes, aqui, olha. Não me desculpo por tê-lo feito tão tardiamente. Mas como ler Quixote guiado pelos professores ignorantes que temos por aí? Quando falam da obra cervantina põem logo um sorriso no lábio, como se esse livro fosse uma peça meramente humorística. Uns ignorantes! A última coisa que interessa na obra é o humor, embora Cervantes o utilize do começo ao fim. A situação é bem humorada porque o personagem beira o ridículo toda a vida, mas ele espelha o ridículo dos homens desde sempre. Quixote é o retrato de toda a gente.

– Tudo isso, Quinho?

– Não menos, doutor. Isto aqui é um tratado de psicologia, de filosofia e de ciência política na forma de romance. Veja, Cervantes inaugurou o gênero por ser ele o único capaz de dar conta de descrever artisticamente essa realidade. O livro condensa toda a nossa tradição intelectual e espiritual.

– Que livro é esse aí, Quinho? Perguntei, ele que folheava outro volume.

– É o Volume I das Obras Completas do Ortega y Gasset, que tem um texto seminal do autor, Meditaciones Del Quijote. Doutor, Ortega vai buscar o fio condutor de seu pensamento em Cervantes, que é o seu pai espiritual. O mesmo fez Voegelin. A filosofia desses dois é filha direta do que escreveu Cervantes. E, veja, se abrir os jornais sem ter lido Dom Quixote, nada compreenderá do que se passa.

– Como assim, Quinho?

– Doutor, essa degradação que está o mundo, a loucura galopante, a farsa do igualitarismo, a mente revolucionária, em suma, a vida como está, toda ela trazida para a Segunda Realidade, é a grande faceta profética de Cervantes. Quer entender a Coréia do Norte? Quer entender a crise econômica atual? Quer entender a decadência do Ocidente? Leia Cervantes. É o mapa do caminho.

– É um livro antiquado e chato, Quinho.

– Não, doutor, desde que se contextualize e se aceite a proposta estética do autor. Os poemas, os sonetos que ornam a obra, são deliciosos. Vemos aqui a poesia a serviço da narrativa mais sofisticada. A maestria de Cervantes vai encantar quem conseguir ultrapassar as primeiras páginas;

– Do que mais gostou, Quinho?

– De tudo, claro, mas especialmente a descoberta da Segunda Realidade revolucionária será sua contribuição mais maiúscula. Na parte final, com a introdução do Quixote na corte do duque, que brinca com ele e que contribui para ampliar seus delírios, vemos a profecia do que fizeram os homens de Estado no poder: abrigaram como seres engraçados e inofensivos os revolucionários que vivem profissionalmente dentro da Segunda Realidade. Isso não é meramente tolerar a loucura, é alimentar o inimigo da civilização que virá destruí-la.

– Isso é grave, Quinho?

– Muito grave, doutor. Houve um momento decisivo em que os homens sãos que detinham o poder deixaram de exercê-lo e recuaram de seus deveres públicos. A elite se acovardou e desapareceu. Aí que entornou o caldo. Cada país passou por seu processo particular, uns com mais violência, outros com menos. No Brasil, a omissão dos governos militares contribuiu para que os militantes da Segunda Realidade tomassem os centros de formação da juventude, os instrumentos de cultura, a mídia, as universidades. Tomar o poder político foi questão de tempo. Desde então o descenso foi inevitável e culminou com a eleição do cachaceiro para presidente da Republica.

– Você não gosta do Lula mesmo, Quinho,

– Não é questão de gostar ou não gostar, doutor. Esse homem não é apenas despreparado, ele lidera uma gangue de lunáticos que está destruindo o Estado brasileiro e deixará uma herança maldita para as futuras gerações. Oito anos dessa gente desmandando no Brasil podem demandar outros oitenta para trazer tudo de volta ao lugar.

– O negócio é sonhar o sonho impossível, à moda do Quixote, falei rindo e me despedindo.

– Até logo, doutor, Não se esqueça: sonhos não são apenas sonhos.

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