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Islã x islamismo

4 de junho de 2015 - 3:00:00

A Mesquita Al-Azhar do Cairo, concluída em 972, representa um ponto alto da cultura muçulmana.

Aqueles que atribuem o problema ao Islã propriamente dito (por exemplo, ex-muçulmanos como Wafa Sultan e Ayaan Hirsi Ali), apontam para a consistência da vida de Maomé e o conteúdo do Alcorão e do Hadith à atual prática muçulmana. Concordando com o filme Fitna de Geert Wilders, eles apontam para a impressionante continuidade entre os versos corânicos e as ações da jihad. Eles citam as escrituras islâmicas para constatar o ponto de convergência da supremacia muçulmana, jihad e a misoginia, concluindo que uma forma moderada do Islã é impossível. Apontam para o primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdo?an, que ridiculariza a própria noção de um Islã moderado. A questão crucial para eles é se “Maomé era muçulmano ou islamista”. Eles sustentam que aqueles que culpam o islamismo, o fazem por correção política ou covardia.

A nossa resposta: Sim, existe certa continuidade e os islamistas, sem sombra de dúvida, seguem literalmente o Alcorão e o Hadith. Existem muçulmanos moderados mas carecem do poder, praticamente hegemônico dos islamistas. O fato de Erdo?an negar o Islã moderado aponta para uma curiosa sobreposição entre o ponto de vista do islamismo e do anti-islamismo. Maomé era rigorosamente muçulmano, não islamista, pois o conceito islamista data somente a partir dos anos de 1920. E de mais a mais, não somos covardes e sim, apresentamos nossa genuína análise.

E a análise é a seguinte:

Islã é uma religião de quatorze séculos com mais de um bilhão de seguidores que inclui desde os sufis quietistas até os violentos jihadistas. Os muçulmanos alcançaram sucessos militares, econômicos e culturais impressionantes, a grosso modo entre os anos 600 e 1200 da era comum. Ser muçulmano naquela época significava fazer parte da equipe vencedora, fato este que estimulou, e muito, a associarem sua fé com o sucesso mundano. Essas memórias de glória medieval permanecem não só vivas, mas são cruciais à confiança dos crentes no Islã e em si mesmos como muçulmanos.

Início do trauma muçulmano moderno: Napoleão na Batalha das Pirâmides, 1798, idealizado por Antoine-Jean Gros.

A principal dissonância começou por volta de 1800, quando inesperadamente os muçulmanos foram perdendo guerras, mercados e liderança cultural para os europeus ocidentais. E continua nos dias de hoje, à medida que os muçulmanos vão regredindo aos índices mais baixos de praticamente qualquer nível de realização. Essa guinada causou imensa confusão e rancor. O que deu errado, por que Deus aparentemente abandonou Seus fiéis? A insuportável divergência entre as conquistas do período pré-moderno e o fracasso pós-moderno, originou o trauma.

Os muçulmanos reagiram a esta crise de três principais maneiras. Os secularistas querem que os muçulmanos se livrem da Shari’a (lei islâmica) e copiem o Ocidente. Os defensores da Shari’a também querem copiar o Ocidente, mas fingem que assim a estão respeitando. Os islamistas rejeitam o Ocidente em favor de uma aplicação retrógrada e integral da Shari’a.

Bernard Lewis publicou um livro em 2001 intitulado What Went Wrong (O Que Deu Errado).

Os islamistas abominam o Ocidente por ele ser equivalente ao cristianismo, o arquiinimigo histórico e a sua vasta influência sobre os muçulmanos. O islamismo estimula a ânsia de rejeitar, derrotar e subjugar a civilização ocidental. Apesar dessa ânsia, os islamistas absorvem as influências do Ocidente, incluindo o conceito de ideologia. De fato, o islamismo representa a transformação da fé islâmica em uma ideologia política. O islamismo corretamente indica uma versão com toque islâmico da utopia radical, um ismo como qualquer outro ismo, comparável ao fascismo e ao comunismo. Por exemplo, imitando aqueles dois movimentos, o islamismo se baseia por demais nas teorias de conspiração, para interpretar o mundo, a ponto de promover suas ambições, utilizando métodos violentos para alcançar seus objetivos.

Tendo o apoio de 10 a 15 por cento dos muçulmanos, o islamismo inspira-se em grupos devotos e qualificados que impactam bem além de seus limitados números. Ele representa uma ameaça à vida civilizada no Irã, Egito e não apenas nas ruas de Boston, mas também nas escolas, parlamentos e tribunais do Ocidente.

Nossa questão crucial é “qual é a proposta para derrotar o islamismo”? Aqueles que fazem do Islã, como um todo, seu inimigo, não só sucumbem a uma ilusão simplista e essencialista, como também carecem de qualquer mecanismo para derrotá-lo. Aqueles que se concentram no islamismo veem a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria como modelos para derrotar o terceiro totalitarismo. “Nós entendemos que o Islã radical é o problema e que o Islã moderado é a solução”. Nós trabalhamos com os muçulmanos anti-islamistas a fim de derrotar um flagelo em comum. Venceremos essa nova variante de barbárie, de modo que uma forma moderna do Islã possa aparecer. 

Publicado no The Washington Times
Original em inglês: Islam vs. Islamism
Tradução: Joseph Skilnik

Comentário sobre o artigo ‘Islã x Islamismo’, de Daniel Pipes
Heitor De Paola


“Islam is irreprehensible”.

Ditado corrente nos Estados Unidos atualmente.

Quando se discute Oriente Médio, Pipes é uma das principais referências, assim como Barry Rubin, Caroline Glick, Melanie Phillips, Clifford May, Cliff Kincaid, Rachel Ehrenfeld, e os sites Front Page Magazine, Foundation for Defense of Democracies, Middle East Media Research Institute, Middle East Forum, e Flame. Isto só para citar os que eu subscrevo e como sugestão para os leitores que querem se aprofundar. Todos, obviamente, defendem o direito do Estado de Israel, alguns com o compartilhamento de ‘dois Estados’ com os palestinos em diferentes graus, mas sem exceção dedicam-se a estudar profundamente o terror islâmico.

Assim sendo foi com surpresa que li Pipes defendendo a idéia de que existem dois tipos de Islã: o Islã propriamente dito, cujos crentes são os muçulmanos, e o ‘islamismo’, cujos crentes são islamistas. Os primeiros seriam o que é costumeiramente chamado de Islã ‘moderado’, os segundos o Islã ‘radical’.

Pipes coloca o início do Islamismo (radical) em 1920. Esta data fica solta no ar, sem nenhuma explicação. Claro que a data é crucial para o Oriente Médio como um todo: o final da I Guerra Mundial foi seguido do fim do Sultanato em 1922 e a Guerra de Independência, liderada por Mustafa Kemal Pasha (Atatürk); em 1924 foi abolido o Califado depois de declarada a República da Turquia com as profundas mudanças na exteriorização da fé Islâmica: abolição do véu obrigatório, do chapéu e dos sapatos turcos, do uso de bigode, e foi instituída a liberdade religiosa.

Talvez Pipes quisesse falar sobre isto quando escreveu:

‘O Islã é uma religião de quatorze séculos com mais de um bilhão de seguidores que inclui desde os sufis quietistas [i] até os violentos jihadistas. Os muçulmanos alcançaram sucessos militares, econômicos e culturais impressionantes, grosso modo entre os anos 600 e 1200 da era comum (D.C. para os Cristãos). A principal dissonância começou por volta de 1800, quando inesperadamente os muçulmanos foram perdendo guerras, mercados e liderança cultural para os europeus ocidentais’.

O início da década de 20 foi marcado pelo surgimento de três utopias: a wilsoniana, de origem protestante, com seus 14 pontos para a paz, a maioria já mencionada por Kant em seu A Paz Perpétua – Um Projeto Filosófico, o leninismo, de extração atéia, a versão prática e violenta do marxismo, e do nazi-fascismo. O mundo ocidental transformou-se numa luta entre materialismo e cristianismo, abandonando totalmente as crenças Islâmicas.

No terreno estratégico os vencedores da Guerra apossaram-se da área do Império Otomano e a dividiram como quiseram, criando países artificiais. A crescente sede de petróleo das nações ocidentais e da URSS também tornou o Oriente Médio uma presa valiosa. Já me referi em artigo anterior à traição anglo-francesa dos tratados anteriores à Guerra [ii]. Mas a traição não se refere ao Islã, mas aos países árabes que ajudaram o Ocidente a derrotar o Império que os sufocava.

Mas nada disto explica o que Pipes diz a seguir:

‘E continua nos dias de hoje, à medida que os muçulmanos vão regredindo aos índices mais baixos de praticamente qualquer nível de realização. Essa guinada causou imensa confusão e rancor. O que deu errado, por que Deus aparentemente abandonou Seus fiéis? A insuportável divergência entre as conquistas do período pré-moderno e o fracasso pós-moderno, originou o trauma’. Os muçulmanos reagiram a esta crise de três principais maneiras. Os secularistas querem que os muçulmanos se livrem da Shari’a (lei islâmica) e copiem o Ocidente. Os defensores da Shari’a também querem copiar o Ocidente, mas fingem que assim a estão respeitando. Os islamistas rejeitam o Ocidente em favor de uma aplicação retrógrada e integral da Shari’a.

E o que ocorreu com os judeus, também traídos, e por que os países árabes que não tinham maioria muçulmana, como o Líbano, tornaram-se ‘pérolas’ de desenvolvimento até serem atacados e destruídos pela Síria?

Talvez a resposta esteja no último artigo de Pipes, Islamism’s Decade of Spreading Polio:

‘A poliomielite estava quase erradicada quando o médico e presidente da Suprema Corte da Shari’a na Nigéria sugeriu, em 2003, que a vacinação era parte de uma conspiração Ocidental para tornar as crianças muçulmanas inférteis. A vacinação parou e a pólio se espalhou para mais 17 países africanos e 6 asiáticos fazendo com que a Peregrinação à Meca se tornasse um meio rápido de transmissão da doença’.

A superstição faz muito mais mal do que qualquer ‘inimigo’ externo e esta é uma das características do Islã: um atraso monumental em tudo que se trata de ciência e progresso, não por falta de cientistas capazes, mas superstição religiosa que vê na aceitação de qualquer progresso oriundo do Ocidente uma ameaça à fé Islâmica. E talvez seja mesmo: tenho sérias dúvidas se o Islã é realmente uma religião ou não passa de uma ideologia, a pior ideologia totalitária que já existiu, ceifando mais de 360 milhões de vidas. Mais do que o dobro todos os genocídios das ideologias ocidentais do século passado. É um princípio corânico de que a jihad é uma obrigação de todo fiel, significando o controle total do mundo aos brados de ‘morte aos infiéis’. A suposta existência de um Islã moderado não passa de cortina de fumaça para obscurecer a invasão. O início do ‘islamismo’ não foi em 1920, mas em 622 D.C.

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyipp Erdo?an deixa isto claro em outro artigo de Pipes:

“A expressão ‘Islã moderado” é errada. Se você usa ‘Islã moderado’ cria uma alternativa imoderada. É apenas Islã’.

Sir Winston Churchill, no livro The River War, de 1899, já criticava o Islã e antevia o seu futuro:

 

Que terríveis maldições o maometanismo impõe aos seus adeptos. Além do fanatismo histérico, que é perigoso para o homem com a hidrofobia para os cães, há o terrível fatalismo apático (…) que existem sempre que os seguidores do Profeta são os responsáveis. (…) Um sensualismo degradado priva suas vidas de dignidade e santidade. O muçulmano, individualmente, pode ter esplêndidas qualidades, mas a influência da religião paralisa o desenvolvimento social daqueles que a seguem. Não existe força mais retrógrada no mundo. Longe de estar moribundo o maometanismo é uma fé militante e proselitista. Já se estendeu para a África Central criando soldados que desconhecem o medo a cada conquista, e se a Cristandade não estivesse abrigada nos braços fortes da ciência, aquela mesma ciência à qual inutilmente combateu, a civilização da Europa moderna poderia sucumbir, exatamente como sucumbiu a civilização da antiga Roma.

 

Será que já não está sucumbindo? 

Notas:

[i]
O Sufismo é considerado apóstata e herege, e é violentamente perseguido, principalmente os dervixes rodopiantes, com exceção da Turquia onde subsistem devido à liberdade religiosa.

[ii] Em 1915-16, o Alto Comissário inglês no Egito, Sir Henry McMahon, entrou em negociações com o Sheriff de Meca Hussein ibn Ali. A chamada Correspondência McMahon-Hussein garantia a independência dos territórios árabes desde que estes se aliassem à Inglaterra contra os turcos. Mas em 1916 britânicos e franceses firmam secretamente o Tratado Sykes-Picot onde previam a divisão do Oriente Médio em: (1) áreas controladas diretamente por cada um dos dois países, (2) áreas de influência e (3) mandato misto na Palestina. Não haveria a menor chance de independência árabe.

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