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Justiça para os mártires de Curvaradó

27 de dezembro de 2009 - 2:02:05

Manuel Moya Lara e Graciano Blandón Borja representavam 231 famílias afro-descendentes de Curvaradó e Jiguamiandó. Eles denunciavam desde há anos as ameaças das FARC que sua gente sofre. Estas se opõem às famílias da bacia do Atrato que aspiram a recuperar as terras do norte chocoano, das quais foram expulsas em 1997 pelo bando dirigido por Alfonso Cano e por para-militares.

A Procuradoria deve prender rapidamente os autores dessa nova matança. Porém, também deve descobrir quem são os autores intelectuais da mesma. A ONG Comissão Intereclesial de Justiça e Paz, dirigida pelo sacerdote marxista Javier Giraldo Moreno, deve ser objeto de uma exaustiva investigação por parte da Procuradoria. Essa ONG, pretensamente “humanitária”, é mostrada pelas comunidades de Manuel Moya e Graciano Blandón como o elemento instigador desses assassinatos. Desde há doze anos os esforços de Moya e Blandón sempre encontraram a hostilidade mais brutal dessa ONG e da ONG canadense Brigadas Internacionais de Paz (BIP)-PASC Canadá.

Além de ser investigada, esta última deve ser expulsa do país. As ONGs estrangeiras que atuam na Colômbia devem ser não só irrepreensíveis desde o ponto de vista moral e legal, mas também parecê-lo. Esse não é o caso da BIP. Sua vinculação direta ou indireta com essa matança de colombianos (a investigação determinará o grau de compromisso da BIP nisso) a inabilita desde já a permanecer no território colombiano.

A matança de Curvaradó destrói outro mito que se pretendia inflar na Colômbia: o da probidade e seriedade da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Desde 2004, os líderes de Curvaradó e Jiguamiandó haviam pedido a esse organismo, baseado no pacto de São José da Costa Rica, que lhes outorgasse as mesmas garantias que esse organismo concedeu em 2003 aos deslocados representados pela ONG de Javier Giraldo. Os mártires de Curvaradó haviam feito essa viagem até a Costa Rica, em fevereiro de 2008, para expor seus pontos de vista e pedir essa proteção para as suas comunidades. Entretanto, a CIDH negou-se a fazer esse gesto simbólico. Numa coincidência alarmante, no mesmo dia em que Pablo Saavedra Alessandri, secretário da CIDH, enviou a Manuel Moya e a Graciano Blandón a notificação que nega essa proteção, eles e o filho de Blandón foram seqüestrados e assassinados na beira do rio Caño Claro.

Em seu vergonhoso despacho, a CIDH preferiu dar proteção às 161 famílias que a Comissão Intereclesial de Justiça e Paz diz representar, e negá-la às 231 famílias de Moya e Blandón. Para a CIDH, estas famílias carecem de “critérios de pertinência” suficientes, quer dizer, que essas vítimas dos violentos são uma espécie de “universo” inexistente. Pior: a CIDH estima que o perigo em que vivem essas comunidades não é extremo nem iminente. Essa é a justiça que a CIDH distribui. As altas instâncias da OEA deveriam revisar seu patrocínio ao estranho conclave de São José que decidem tais aberrações.

Essa visão das coisas deve-se, em parte, às intrigas de Javier Giraldo e seus procuradores. Eles se opõem a que as famílias afro-descendentes da bacia do Baixo Atrato optem pela via da auto-representação. Para Justiça e Paz não é bom negócio deixar que as pessoas saiam de suas mãos. Por isso Moya e Blandón haviam sido objeto de tenazes campanhas de desestabilização. Justiça e Paz chegou ao extremo de incitar a Procuradoria para que os jogasse no cárcere sob a invenção de que haviam apresentado documentos falsos.

Os afro-descendentes querem livrar-se da influência de Giraldo, pois este se opõe ao progresso das comunidades. Os projetos agrícolas de desenvolvimento que o governo ou a empresa privada propõem às famílias são rechaçados pelo citado grupo e pela BIP. Com o falacioso pretexto de “proteger a biodiversidade”, eles prolongam o isolamento e a miséria dessas famílias. O grupo de Giraldo sempre cria a cizânia entre a população negra e a mestiça, e a rivalidade entre as comunidades submetidas e as liberadas dessa perniciosa influência é agora constante. As FARC aproveitam essa tensão para aterrorizar as pessoas, utilizar a região como corredor e impor a lei do silêncio.

Jornalista do Wall Street Journal, Mary Anastasia O’Grady havia denunciado essa situação em um artigo de 14 de dezembro de 2009, intitulado As ONGs amigas das FARC“. Nesse artigo, um guerrilheiro desmobilizado das FARC, cognome Samir, confirmou que desde o começo existe uma “relação aproximada” entre Justiça e Paz e as FARC. Samir reiterou que a “comunidade de paz” de Giraldo era “um refúgio para os rebeldes feridos e doentes das FARC, e para armazenar fornecimentos médicos”. Afirmou que “fornecedores do grupo armado se reuniam com guerrilheiros no povoado, onde sempre havia também cinco ou seis membros das Brigadas Internacionais de Paz”. O artigo sublinha que a comunidade de paz “ajudou as FARC em seu esforço para rotular o Exército colombiano como um violador dos direitos humanos” e que, “quando a comunidade se aprontava para acusar alguém de uma violação aos direitos humanos, Samir organizava as ‘testemunhas’, ordenando os membros das FARC que posavam de civis para que dessem seu testemunho”.

A resposta de Giraldo a essas acusações foi lançar, no mesmo dia do massacre, uma fatwa contra Mary O’Grady em um artigo difundido em uma página web etarra-comunista com base na Europa. Após a matança de Curvaradó, Javier Giraldo praticamente desculpou as FARC, ao deslizar a idéia de que os assassinos são uns latifundiários da região.

Como bem lembrou o advogado Fernando Vargas, presidente do Comitê Nacional de Vítimas da Guerrilha, e o senador Víctor Velásquez Reyes, do Partido da U, Manuel Moya Lara e Graciano Blandón Borja também haviam denunciado ante a Fiscalização 14 de Direitos Humanos (processo número 2022) o deslocamento forçado que suas comunidades haviam sofrido em 1997 pelas FARC, em conchavo com a ONG de Giraldo. Essa denúncia está em poder da Procuradoria Geral da Nação. Porém, o fiscal 14, Luis Alberto Reyes, contradizendo o que seu antecessor havia feito, deixou em liberdade vários dos indivíduos que participaram de atos violentos que originaram o êxodo das famílias de Curvaradó e Jiguamiandó.

Moya e Blandón também informaram ao ministério do Interior e Justiça o que estava ocorrendo. Dois dos cartazes que afixaram ante o ministério diziam: “O território coletivo é dos negros, não das ONGs Justiça e Paz”, “Zonas Humanitárias são refúgio das FARC” e “Somos Vítimas do Terrorismo Humanitário”. Foram ao Congresso e à Comissão Nacional de Reparação para apresentar suas denúncias e advertir que as FARC queiram matá-los. Ninguém os escutou realmente. Durante anos Justiça e Paz os havia caluniado e mostrado como agressores. Um jornalista, Daniel Coronel, a quem eles haviam procurado para que Noticias Uno alertasse a opinião pública, tergiversou seus testemunhos e os fez passar como “paramilitares”. Coronel jamais quis retificar seu malfeito. Outro que tentou destruir a história de Manuel Moya Lara foi Iván Cepeda, ativista comunista que escreveu em outubro de 2008 um texto no qual descreve Manuel Moya como uma “suposta testemunha”, um amigo dos militares e um adversário da “Comissão de Justiça e Paz” e da BIP.

As FARC passaram das ameaças ao ato quando se deram conta de que toda essa gente, e até a CIDH, haviam conseguido isolar esses lutadores sociais. Inclusive depois do triplo atentado a imprensa colombiana continua guardando silêncio, excetuando-se dois matutinos que publicaram artigos relativamente informados.

Horas antes do novo ato de barbárie das FARC, os conselhos comunitários de Curvaradó e Jiguamiandó anunciaram que o Tribunal Contencioso Administrativo (TCA) do Chocó havia reconhecido, em 9 de dezembro de 2009, os direitos à propriedade coletiva, à restituição efetiva e material dos territórios reclamados por esses conselhos, assim como o direito destes à vida e à autonomia. Também informaram que temiam uma invasão massiva a seus territórios por parte da ONG do padre Giraldo, a qual pretende, disseram, criar “várias zonas humanitárias” para congelar a entrega de terras aos conselhos beneficiados pela providência do TCA do Chocó. Pediram, em conseqüência, que as autoridades e a força pública estejam alertas para impedir esse ato eventual de recuperação ilegal de terras que se inscreve “dentro de uma estratégia (das FARC) para manter seu controle” sobre esses territórios.

Ninguém ouviu tampouco essa mensagem e os assassinos puderam atuar aleivosamente e de forma segura.

Após esses atos sangrentos, outra conclusão se impõe: o Vaticano deve assumir uma atitude ante o ocorrido em El Carmen de Darién e acerca do nefasto papel que vem exercendo o sacerdote Javier Giraldo no Chocó. Não é a primeira vez que a imprensa e as associações de base se queixam dele e que denunciam atos de violência e ameaças sofridos por pessoas que se opõem a esses desígnios. O assassinato de Manuel Moya Lara, Graciano Blandón Borja e o filho deste derrubou o véu de mentiras tecidos pelas citadas ONGs e mostra, finalmente, quem são nessa região os agressores e os agredidos.

 

Tradução: Graça Salgueiro

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