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Karl Marx, Roque Santeiro e o bode (expiatório)

17 de junho de 2009 - 1:45:13

Ao contrário de boa parte de seus coleguinhas uspianos, José de Sousa Martins é um homem inteligente e tem sido um crítico habitual do politicamente correto e da mentalidade esquerdista hegemônica. Se tivesse coragem de dar um passo à frente, talvez se tornasse efetivamente um cientista social. Escapar ao ópio dos intelectuais, porém, é tão difícil quanto escapar ao ópio de verdade. São muito poucos os intelectuais que se livram do vício.

Por isso, é mais fácil empreender uma engenhosa construção teórica, como a que Martins faz no artigo, analisando a situação da classe média no contexto – axiomático para os marxistas – da luta de classes, para daí extrair, travestida de verdade sociológica, uma conclusão estapafúrdia. Tão estapafúrdia que expõe seu autor ao mais gritante ridículo.

Para Martins, como para a esquerda de um modo geral, a classe média é odiosa, na medida em que anseia por transformar-se em classe alta e, principalmente, por servir de braço armado da classe alta na ignominiosa – oh! – exploração do proletariado. Nos momentos de crise, como na Alemanha de Weimar, é a classe média que se transformará, segundo Martins, nas primeiras bases do partido nacional-socialista.

O professor José de Sousa Martins confortavelmente se esquece que é dessa mesma classe média que saiu a vanguarda e a liderança do internacional-socialismo na Rússia de 1917, para me limitar a um exemplo do mesmo calibre. Mais confortavelmente ainda, se esquece de si mesmo e dos seus pares no Gulag do Butantã – a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo -, todos renitentes marxistas e integrantes dessa mesma classe média.

Enfim, de acordo com as idéias de Martins, a classe média, em momentos de crise, se agarra com unhas e dentes aos seus pequenos privilégios, que não quer repartir com ninguém. Isso, para ele, explica a greve que está ocorrendo – ou já acabou, não sei ao certo – na USP: usurpando o discurso “democrático” da esquerda, para garantir seus privilégios uspianos, os grevistas da universidade põem em ação supostas práticas de direita – isto é, o autoritarismo de uma minoria impor com violência e vandalismo uma greve à maioria!

Acredite quem quiser em semelhante disparate! Especialmente quando se sabe que comanda essa greve o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (sic) e uma dissidência ainda mais radical desse partido radicalíssimo, comandada pelo sindicalista e criminoso confesso Claudionor Brandão, demitido por justa causa do quadro de funcionários da USP. Todos eles – Brandão, funcionários, professores e alunos grevistas- integrantes da mesma classe média a quem Martins acusa de direitismo intrínseco.

Na verdade, ao acusá-los de “direitistas” – o que é um eufemismo para nazistas -, José de Sousa Martins pressente a proximidade existente entre nazismo e comunismo, mas não tem coragem de encará-la. Para admitir a escancarada identidade entre Hitler e Lenin (Stalin também, claro), é preciso colocar na fogueira o sr. Karl Marx e esse é um sacrifício que nem Martins nem a esmagadora maioria da “intelequitualidade” brasileira tem disposição, capacidade e coragem – nessa ordem – para fazer.

Para encerrar, ao transformar a greve da USP em obra da direita, o cientista social me fez concluir que a esquerda e o marxismo são uma espécie de Roque Santeiro do mundo das idéias. Roque Santeiro, o personagem da novela, era aquele que foi sem nunca ter sido. O marxismo é aquele que não é, tendo sido sempre. Senão, vejamos:

A extrema esquerda faz uma greve selvagem e a esquerda moderada a acusa de direitismo, pois a verdadeira esquerda é democrática e civilizada. Não é a mesma idéia que está por trás da expressão “socialismo real”? Para a “intelequitualidade” socialista, o “socialismo real”, isto é, aquele que vigorou da União Soviética e no Leste Europeu, não é o verdadeiro socialismo de Marx, assim como não é o verdadeiro socialismo de Marx aquele que ainda vigora na Coreia do Norte.

O verdadeiro socialismo de Marx é sempre aquele a que se vai chegar na próxima revolução, nunca na anterior. O socialismo das revoluções anteriores – mais sanguinário e repressivo do que o próprio nazismo – não é socialismo não: é a degeneração das idéias humanitárias de Karl Marx, perpetradas por Stalin, aquele monstruoso… bode expiatório.

 

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