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Keynes, o rei do ilusionismo

19 de agosto de 2009 - 21:04:46

Em várias ocasiões tenho me manifestado sobre a improdutividade de ações governamentais que promovam isto ou aquilo mais barato ou grátis. No caso em comento, o governo americano já autorizou um orçamento de 3 bilhões de dólares para o projeto, sendo que 1 bilhão evaporou-se em apenas uma semana.

A reportagem conduzida pela revista não contém estratagemas ardilosos de desinformação gramscista – chega mesmo a ser honestamente informativa – mas contém erros de concepção devidos à grande popularidade de que ainda desfruta Keynes. A propósito, esta é a questão fundamental que rege este artigo: porque o bichola fabiano, malgrado as sucessivas crises – e guerras – que a aplicação de seus preceitos  desencadeou, demonstra tanta vitalidade?

Não é necessária muita investigação. Por primeiro, há uma comparação com as piadas dos comediantes, que também é aplicável ao caso: a piada envelhece, mas o público rejuvenesce. Bom, também vale o brocardo de que todo dia um otário decide tirar os pés da cama. Em seguida, o trunfo da ilusão de ótica econômica reside em enaltecer sob luzes e som as alegadas virtudes, enquanto se faz desaparecer, à sombra e com discrição, os seus efeitos colaterais deletérios.

Se 3 bilhões parecem uma cifra colossal – pretensamente dirigida com a finalidade de prover oxigênio à economia – pelo menos 4 a 6 vezes mais migrarão dos bolsos dos americanos em direção às montadoras e aos bancos. Eis aí sobre o que não se fala! Eis a carta debaixo da manga, o coelho sob o fundo falso da cartola.

Podemos então raciocinar sobre 15 bilhões de dólares, quantia tal que deixará de ser aplicada na obra de ampliação do consultório médico do Sr Fulano, ou na faculdade do Sr Beltrano, ou, em suma, em milhares de empreendimentos produtivos que pudessem ser aplicados de uma forma mais racional – em investimento, ao invés de em consumo – inclusive no próprio campo do setor imobiliário, que foi o estopim da crise ianque.

Ao cambiarem seus veículos, os americanos estarão adiantando decisões de consumo que, em situação normal, estavam esperadas para acontecer em algum momento no futuro. Isto tem um preço, inexorável e ímpio, que se refletirá na escassez de dinheiro lá na frente, sobretudo para aqueles que fizeram suas aquisições com o uso de dinheiro alugado, na forma de empréstimos bancários. Não será demais dizer que a administração Obama pretende combater a crise imobiliária criando a crise automobilística, pois promove os mesmos erros.

As montadoras, por sua vez, hoje se sentirão vitaminadas por uma repentina e gigantesca demanda, mas sem uma economia que sustente um ciclo duradouro e permanente para novas vendas, suas histórias se parecerão com a formação das “anãs brancas”, as estrelas velhas que, momentos antes de se transformarem num sólido, frio e diminuto corpo celeste, irrompem em uma intensa explosão, consumindo assim suas últimas reservas de energia. Daqui a alguns anos, os novos de hoje serão os “clunkers” de amanhã, mas já não haverá tanto dinheiro fácil para a substituição.

Em seguida, a exigência para a destruição dos veículos usados exerce um efeito similar ao da guerra. Referentemente a isto, expôs Ludwig von Mises[ii]: “War can really cause no economic boom, at least not directly, since an increase in wealth never does result from destruction of goods” (“A guerra realmente não pode causar nenhum boom econômico, pelo menos não diretamente, desde que um aumento da riqueza jamais resulta da destruição de bens”). Lamentavelmente, os americanos estão mandando para a lata de lixo milhares de veículos usados que, apesar de alguns anos de uso, ainda estão, a maioria deles, em bom estado, e referimo-nos aqui a automóveis que são melhores do que os nossos zero-quilômetro brasileiros, possuindo mais itens de conforto, tecnologia e segurança.

Finalmente, o programa também carrega um apelo de pretexto ecológico, que na verdade somente se entrega a induzir o cidadão americano a dirigir-se à concessionária mais próxima, e que mesmo os próprios ambientalistas manifestam-se como céticos, por crerem que a redução na emissão de gás carbônico será diminuta. Eu adiantaria em comentar sobre o que não se vê, ou que não se quer ver, o que seja, a montanha de sucatas acumuladas, provocada por automóveis que poderiam continuar rodando, dado o seu tempo esperado de vida útil. Levado este raciocínio a um extremo, somente para conferirmos as suas conseqüências, o que aconteceria ao mundo se todo dia usássemos um carro novo e no dia seguinte, o jogássemos na lata de lixo? Então não é isto um verdadeiro problema ambiental?

Termina a reportagem com a sugestão de seu autor para que o governo brasileiro repita a iniciativa norte-americana, que, segundo ele, já havia demonstrado ser bem-sucedida na Alemanha e na França.  Sobre isto, sem mencionar o que já foi dito acima, há diferenças muito grandes, dado que o sobrepeso dos impostos faz com que nossos veículos usados ainda permaneçam com um valor de mercado muito elevado. Na prática, adeririam os que possuem fuscas e chevettes, isto é, se já tivessem na mão o dinheiro suficiente para a troca, o que penso ser difícil.

Quanto ao fato de rodarem veículos em condições de intrafegabilidade, esta é uma questão que poderia ser resolvida meramente por uma melhor atuação dos órgãos de controle do trânsito. Infelizmente, iniciativas tais como o rodízio de veículos em São Paulo, como toda intervenção governamental, resultam sempre em uma nova variável indesejada, a demandar novos atos “corretivos”, e uma frota de “blunkers”, que já estavam por serem aposentados, foram reativados para permitir que os cidadãos paulistanos das classes menos abastadas pudessem circular.

Até quando vamos aplaudir o mágico ilusionista Mr. Keynes?

Notas:

[i] ano 32, nº32, de 12 de agosto de 2009, páginas 112e 113

[ii] Nation, State, and Economy p. 154 War and Peace

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