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Los indomables catrachos!

3 de dezembro de 2009 - 5:47:01

Nosso Continente encontra-se quase totalmente dominado pelos exércitos ideológicos do Foro de São Paulo. Moluscus Maximus, Hugus Xávicus, Evus Moralius e suas coortes espalham-se pela Iberoamérica como donos incontestáveis, inspirados em Marcus Aurelius Gárcius. Nada lhes resiste. Nada? Bem, lá pelos lados do Istmus existe uma aldeia onde um povo indômito, os catrachos, possui uma poção mágica que lhes torna invencíveis. Não é um líquido preparado num caldeirão, mas uma poção de idéias e princípios morais, éticos e jurídicos inventados ao longo dos séculos por poderosos Druidas do pensamento político: o rule of Law, o império das leis. É exatamente esta poção mágica que as hostes do Foro desejam tomar, modificar, tornando-a inócua ou, se não for possível, destruir. A resistência dos catrachos se deve a homens que acreditam nesses checks and balances que torna a democracia possível. É um belo presente de aniversário a Astérix, que completou 50 anos em 22 de outubro.

Além de ser um dos países mais pobres das Américas, a história política de Honduras é conturbada. Dela saiu o epíteto ‘república das bananas’ em função da dominação da American Fruit Company. Na tentativa de encontrar uma política estável promulgou nada menos que 14 Constituições até chegar à atual, a qual, no dizer de Oscar Arias ‘é a pior em toda a face da Terra’. É claro que é a pior para um demagogo como Arias e outros notáveis que não querem respeitar a poção mágica que salva Honduras da repetição de ditaduras e do caudilhismo de outrora. Aristóteles já prevenia: ‘(há uma espécie de democracia) na qual as massas são soberanas, e não a lei; isto ocorre quando os decretos da assembléia popular se sobrepõem às leis. Tal situação é provocada pelos demagogos em cidades governadas democraticamente (…), pois nelas o povo se torna numa espécie de monarca múltiplo, numa unidade composta de muitos, já que os muitos são soberanos não como indivíduos, mas coletivamente. (…) Um povo assim, transformado praticamente num monarca, procura exercer um governo monárquico, impedindo que a lei governe, e se torna despótico, dando ensejo a que os aduladores passem a ser estimados. Eles (devendo) sua ascendência ao fato do povo ser soberano são, por sua vez, soberanos sobre a opinião do povo, já que as massas acreditam neles’. (Política)

Por esta razão os Constituintes optaram por colocar como fórmula pétrea a não-reeleição presidencial e a considerar qualquer tentativa de mudar esta cláusula motivo de deposição do governante do poder. Zelaya pretendia exatamente ‘exercer sua soberania (de demagogo adulador) sobre a opinião do povo’, convocando uma constituinte para promulgar ‘um decreto da assembléia popular que se sobreponha à lei’. Foi deposto legalmente e por isto os valentes catrachos despertaram a ira dos aduladores do Foro de São Paulo, do Obaminável, da União Européia e de todos os que, para atingirem seus desígnios totalitários, precisam de uma democracia como a descrita acima por Aristóteles.

Durante cinco longos meses os catrachos resistiram inspirados na sua poção mágica e já obtiveram uma importante vitória: a eleição contou com ampla maioria de eleitores que compareceram às urnas, um novo Presidente foi eleito com votação incontestável assim como um novo Congresso e Prefeitos de todas as cidades do País. Todos juraram continuar bebendo da fonte da poção mágica.

A VOTAÇÃO NO CONGRESSO NACIONAL

O Congresso Nacional, também inspirado na mesma poção, resolveu seguir a lei e reafirmar a decisão de 28 de junho. Na reunião, iniciada com várias horas de atraso, a moção pela manutenção da decisão anterior de destituir Zelaya obteve, às 23:30 hs os 65 votos necessários (maioria simples de 128 Deputados) contra apenas 9. A votação foi demorada pela tentativa da maioria dos zelaystas de obstruir os trabalhos. Uma das Deputadas falou durante mais de 30 minutos. O Regimento não previa tempo máximo para justificativa de voto e o processo chamado de fillibuster pelo Senado Americano e de talk out pelos britânicos, foi amplamente usado. (Apenas se o partido majoritário tiver uma ‘supermaioria’ de 3/5 do Senado (60 Senadores dos 100 se estiverem todos presentes) o fillibuster não é permitido).

O Partido Nacional decidiu votar em peso a favor (55 votos) mas como a votação foi nominal, alguns justificaram rapidamente seu voto, todos defendendo a Lei e a Constituição, bem como a dignidade de Honduras.

O resultado final apontou 111 x 14 (3 faltaram) às 22:13 hs. (02:30 de Brasília).

Enquanto isto, no país ‘líder’ (???) do Continente, o Congresso se reúne para baixarias, ataques pessoais, conceder anistia e indenização milionária a bandidos e terroristas. É mensalão de todos os lados – PT, PP, PSDB, DEM – ‘se gritar pega-ladrão não sobra um, mermão”. Vergonhoso!

Oxalá o exemplo catracho se espraie pelo Continente!

Nota:

[*] Orgulhoso apelido dos Hondurenhos, assim como cariocas, gaúchos, etc. O termo foi cunhado como elogio pelos nicaragüenses após a vitória do General hondurenho Florencio Xatruch sobre os piratas americanos comandados por William Walker que pretendiam restabelecer a escravidão. ‘Los muchachos xatruches’, virou catruches e finalmente catrachos.

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