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Lula: Stalinismo sem Stalin

24 de abril de 2009 - 2:40:33

De fato, se, de um lado, pode-se conjeturar que o terror em massa, uma das componentes do stalinismo, não se apresenta hoje de forma tão ostensiva quanto nos anos 1930/40, auge da aura stalinista, por outro, é inquestionável que alguns dos seus elementos constitutivos básicos, como, por exemplo, a tomada do poder pelo partido único, continua tão presente quanto antes.

Nem é preciso mencionar os casos da China, Cuba, Vietnã ou Coréia do Norte, ditaduras comunistas convictas. Basta dar uma olhada em torno do que ocorre hoje na nova composição de poder na América Latina. Neste espaço sombrio, por trás do crescente aparelhamento do Estado acionado pelos partidos de vocação totalitária (“hegemônica”, na firula gramsciana), perfilam-se intactos os ditames da “doutrina” marxista, enraizados na visão maniqueísta do “desenvolvimento da história” como processo de luta de classe, tendo por pressuposto lógico, para chegar ao socialismo, a expansão do Estado Forte, obsessivamente evocado pelo “companheiro” Lula da Silva, o “Guia genial da raça”.

Com efeito, tendo como ponto de partida a centralização do poder nas mãos do líder personalista (“carismático”), e de aliados submissos, a vertente stalinista, ontem como hoje, usa sem o menor pudor a fome dos inocentes (camponeses) e a miséria dos excluídos (proletários) como pretexto para consolidar a mais perversa ditadura populista. Nela, enquanto alguns milhões de indigentes refestelam-se com as migalhas de programas sociais demagógicos, a mantê-los em estado de contínua subnutrição, uma vastíssima horda de burocratas de toda sorte, hierarquizada ou não, acumula riquezas, benefícios e privilégios nunca dantes imaginados – tudo sem envidar o menor esforço, salvo o de arquitetar planos vazios e elaborar leis extorsivas, repressivas e escorchantes, em geral impostas como “igualitárias”.   

(Sobrevivem neste cafarnaum, naturalmente, as pessoas que trabalham, suam e comem o pão que o diabo amassou. No caso que nos toca de perto – o brasileiro -, elas compõem a soma de milhões e milhões de deserdados, vivendo, grosso modo, cabisbaixas e inconscientes, na crença absurda de dias melhores. Essa gente, diga-se, constitui a grande massa que aliena em impostos metade do que produz para manter cidades fáusticas como Brasília e seu extravagante aparato de burocratas engravatados, a programar dia e noite, por meio de projetos mirabolantes envoltos em linguagem tecnocrática, um nebuloso mundo de “justiça social”).

Está claro que para a sustentação de tal “construção socialista”, um elemento orgânico do sistema stalinista se associa à força da burocracia: a exploração, em larga escala e sem o menor escrúpulo, da propaganda na crença do poder “transformador” do Estado, vale dizer, na ação mágica da elite partidária encastelada no governo, capaz de converter a água em vinho e extrair perfume do alabastro. 

Assim, para manter a massa confiante no potencial transfigurador de programas como o PAC – que detém menos de 1% do Produto Interno Bruto, percentual de investimento infame se comparado às despesas com a nomenklatura palaciana -, o governo socializante não só investe bilhões na abundante veiculação da propaganda enganosa na mídia privada, como também emprega elevadas somas na criação e manutenção de redes públicas de rádio e televisão. (E não importa a procedência: rede pública ou privada, basta ligar um aparelho de televisão para se perceber a uniformidade do noticiário no que diz respeito ao culto quase religioso prestado ao “operário-presidente”).              

Outro veio stalinista hoje cultivado no espaço latino-americano – além do já mencionado aparelhamento do Estado e sua burocratização, bem como o culto à personalidade do líder messiânico -, é a imposição da censura aos meios de comunicação e expressão. Grosso modo ela se dá, de um lado, enquanto o golpe final não pode ser desfechado, pelo aliciamento financeiro em larga escala da grande mídia (leia-se, os jornalões em geral, com destaque para “O Globo” e a “Folha de São Paulo”), e, de outro, pelo expurgo dos formadores de opinião independentes ou considerados adversos, banidos (cedo ou tarde) das redações dos jornais, dos centros acadêmicos de ensino e das áreas de produção cultural, totalmente dominadas pelo governo ideologizado. Nos espaços onde o stalinismo atua de modo aberto, os veículos de comunicação são simplesmente lacrados à força, como evidencia o caso da RTV venezuelana, esmagada pela vontade de Hugo Chávez.

(Aqui, vale ressaltar que uma das obsessões do governo totalitário é controlar a imprensa. Por quê? Bem, com toda certeza para impedir que a mínima verdade seja divulgada e, ao mesmo tempo, impor o caudaloso reino da mentira. Por exemplo, na URSS: ao reabrir o jornal Pravda, no momento mesmo em que mandava fuzilar um milhão de pessoas, o camarada Stalin escrevia em editorial de 1935: “De todos os ativos do mundo, gente constitui o capital mais valioso e decisivo”).           

Espíritos acadêmicos e ideólogos do marxismo costumam justificar o Stalinismo como um fenômeno circunscrito ao contexto histórico de sua época e aos problemas enfrentados pelo regime comunista nos anos que antecederam a chegada de Stalin ao poder ditatorial. Nada mais mentiroso. A perversão stalinista é, ela própria, uma perversão da teoria marxista e do próprio sistema socialista, que só pode se manter de pé sustentado pelas amarras do totalitarismo classista – este, por sua vez, amparado na repressão, na manipulação ideológica e no controle de sindicatos, associações e entidades de classe (hoje, chamada de “sociedade organizada”).

Neste contexto, cabe às massas o papel de burro de carga, a alimentar toda uma colossal estrutura de   governo pretensamente igualitarista, que finge trabalhar pela felicidade do povo, mas na realidade  dele se servindo até a completa exaustão.            

            

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