1. Arquivos
  2. Desinformação

Médico salvadorenho narra as impressões de sua viagem a Cuba

16 de maio de 2009 - 0:54:11

Pensei que escrever umas linhas sobre Cuba ia ser a coisa mais simples do mundo depois de estar aqui há uma semana, porém é difícil ser objetivo quando as idéias se turvam e os olhos umedecem constantemente com a quantidade de sensações vividas nestes dias.

Fui convidado pelas autoridades de saúde deste belo país, por motivo de um congresso médico perfeitamente organizado pelos médicos cubanos.

No congresso tive a oportunidade de ver o legendário Fidel Castro, que não é mais que os restos do que deve ter sido um fornido guerrilheiro. Chegou fortemente custodiado em sua caravana de três Mercedes Benz negros, exatamente iguais aos que utilizaram o general Pinochet e também Idi Amin Dadá, ditador da África. Casualidades da vida, pensei…

Vimos um ancião vestido de verde-oliva falar confusamente no foro por mais de uma hora sobre mil coisas, palavras soltas sem mensagem alguma, desde a guerra no Irã até os mosquitos que causam a dengue.

Como médico cheguei a Cuba sabendo que, embora aqui não houvesse liberdade, o sistema de saúde era um dos melhores do mundo, pois assim o refletiam seus indicadores de saúde e sociais, e os dirigentes do FMLN nos repetem isso constantemente [2].

Não sei que parâmetros os políticos utilizam em Cuba, porém ontem um menino que parecia ter sete anos de idade me contou que acabara de completar 15, e sua pele transluzia uma desnutrição severa e crônica.

Pedimos para visitar um hospital e nos levaram a um hospital turístico, exclusivo para estrangeiros, elegante e impecavelmente limpo, para depois nos inteirarmos de que os hospitais públicos são paupérrimos e mais destroçados do que o nosso hospital Rosales. São velhos, com filas eternas de gente esperando para ser atendidas, escassos de medicamentos e com um pessoal de saúde exigindo, por baixo da mesa, alguns dólares extras aos usuários se se quer que o paciente seja atendido oportunamente e com os melhores remédios. E minha maior surpresa foi saber que um médico especialista ganha mensalmente a enorme soma de $ 20,00! É assim… Vinte dólares por mês, quando uma garrafa de água na rua custa $ 1,00, água que por certo não se pode tomar da torneira, pois está contaminada, segundo nos advertiram os colegas de Cuba. Se tudo isto acontece em Havana, imagino como não será nas cidades rurais?!

É verdade que em Cuba não há mendigos esfarrapados, nem crianças descalças perambulando pelas ruas. Porém, abundam os velhos, jovens e crianças que se aproximam dos turistas nos restaurantes rogando por um pedaço de pão.

Os turistas têm acesso aos lugares criados exclusivamente para eles: hotéis gigantescos, restaurantes de luxo, tudo em dólares, é claro. Os cubanos só podem ser testemunhas passivas da boa vida que é oferecida ao estrangeiro. Como me comentou um amigo taxista, com os olhos marejados pela raiva e pela tristeza: aqui os turistas são os humanos e nós somos os extraterrestres…

Descobrir Cuba e sua gente é descobrir o heroísmo e a valentia de um povo que vive, ou melhor, sobrevive em regime de opressão, medo e miséria. Graças ao auge do turismo que há neste país os cubanos podem ver agora as diferenças entre eles e o mundo livre.

Ao descer do avião aproximou-se de mim silenciosamente um senhor e depois de me perguntar de onde eu era, me pediu um jornal de El Salvador; estão famintos por notícias reais do mundo real, não deste fantasma criado por suas autoridades que aqui ninguém mais acredita. Muitos me perguntaram por nosso ex-presidente Flores [3], querem saber como é sua personalidade, estão impressionados com ele, uma vez que foi o único que pôs Fidel em seu lugar. Se inteiraram de tudo isto porque alguém lhes contou, já que esta notícia, como muitas outras, nunca foi transmitida em Cuba.

Na semana passada foram fuzilados em Havana três jovens [4] por haver sonhado com sua liberdade e por haver tentado fugir de Cuba em uma lancha roubada. Por este grave delito, foram julgados em um dia e 24 horas depois, fuzilados selvagemente, como exemplo para o povo do que pode acontecer a quem esteja contra o regime. Quando uma formosa cubana com um olhar conformista me contava este fato injusto, só me ocorreu dizer-lhe que há que ter fé em que as coisas vão mudar logo. Que estúpido me senti quando me respondeu que isso os cubanos esperam há mais de 40 anos e aqui continuam morrendo muitos. Uns a tiros, como estes três jovens e centenas que vivem, porém que lhes fuzilaram a esperança de ser livres, de trabalhar, de se superar, de exigir seus direitos sem ser reprimidos.

Porém seria injusto falar de Cuba e só mencionar as misérias de um regime obsoleto e tirano e que agora seguem Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua. Falar de Cuba é falar de suas mulheres, das mais lindas do mundo, do ritmo e do calor de sua gente, do olhar bondoso de seu povo, das belezas de suas ruas com cheiro de sal, tabaco e rum.

Falar de Cuba é falar de um paraíso onde a beleza natural se mistura com o sonho de todo um povo bom e trabalhador que continua esperando sua verdadeira revolução.

 

__________________________

Dr. Rodrigo Siman Siri é médico pediatra, Diretor Nacional do Programa Nacional de Infecções de Transmissão Sexual – ITS/VIH/SIDA

Ministério da Saúde, El Salvador

Notas da Tradutora:

[1] “Puro” é como se chama em Cuba um charuto de excelente qualidade, como o Cohiba, por exemplo, e que custa uma fortuna.

[2] Ao que tudo indica, por ter sido convidado pelas autoridades cubanas e pela citação do FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, bando terrorista que após o fim da guerra civil em El Salvador tornou-se partido político legal, inclusive ganhou as últimas eleições presidenciais), este médico deve ser no mínimo simpatizante do comunismo ou ter relações com o partido. Daí a importância do texto, pois é da lavra de alguém que acreditava na revolução castrista.

[3] Francisco Guillermo Flores Pérez, foi presidente de El Salvador entre 1999 e 2004.

[4] Este fato ocorreu pouco tempo depois da onda de repressão que ficou conhecida como “A Primavera Negra de Cuba”, onde 75 opositores ao regime ditatorial foram condenados a até 28 anos de prisão, em março de 2003. Em 11 de abril deste mesmo ano houve o fuzilamento dos três rapazes, que ficou conhecido como “o caso dos três negrinhos”.

Tradução: Graça Salgueiro

{slide=Artigos Relacionados}{loadposition insidecontent}{/slide}

{slide=Artigos do Mesmo Autor}{loadposition insidecontent2}{/slide}