1. Arquivos
  2. Cultura

Micropensamentos de macrocéfalos

11 de setembro de 2009 - 16:17:03

Alguns de meus (per)seguidos fazem verdadeiros diários de sua existência inútil, do tipo: “Fui ao banheiro“. Cinco minutos depois: “Voltei, foi ótimo“. Sem exagero. Alguns, mais entusiasmados: “Vou almoçar com o macrocéfalo fulano de tal, meu brother“. Logo depois: “Estou almoçando com o tal macrocéfalo, no restaurante fulano de tal“. A seguir: “Já comi“. Em geral o restaurante citado é caro e na moda, para sair bem na fita. Um reality show de mau gosto, um confessionário público de besteirol e inutilidades.

Já vi coisas do tipo: “Vou passar o fim de semana no Rio de Janeiro“. Logo depois: “Estou dentro do avião“. Em seguida: “Cheguei“. Pior que diário de Mariazinha adolescente, mas feito por gente cinquentona, autoridades públicas. É, de fato, mais que engraçado, deprimente. Essa gente, desprovida dos cargos, de nada vale. É um conjunto vazio. Quer se divertir, caro leitor? Faça seu Twitter e (per)siga, como eu faço, gente graúda e vaidosa.  Diversão garantida.

O senador Aloísio Mercadante, por exemplo, queimou-se nos infernos ao escrever sua renúncia irrevogável no Twitter, prontamente revogada logo depois. A tribuna aqui é impiedosa: escreveu algo, instantaneamente os (per)seguidores chatos como eu ficam sabendo irrevogavelmente (para usar a palavra mercadântica preferida), pois esse negócio de Twitter vicia. Mercadante falou besteira e teve que corrigi-la imediatamente, online. O Twitter tem o poder de revogar até o irrevogável, ficou provado.

O governador José Serra, por exemplo, no último domingo ficou descrevendo suas ocupações de descanso. Escreveu que viu a bela Penélope Cruz em filme, que ouviu música da Edith Piaf. Não é comovente? Romântico? Serra, com aquela cara de vampiro brasileiro da Mooca, ouvindo Piaf e admirando Penélope Cruz! Quase me fez acreditar que é um ser humano normal.

O que mais me diverte é quando tropeço com nulidades que querem filosofar. Aí a coisa fica imperdível. Um exemplo notável hoje foi Andrea Matarazzo, secretário recém desempregado da Prefeitura de São Paulo, que escreveu: “Hoje 7 de setembro dia da independência. O que assegura a independência de uma pessoa e o conhecimento“. (Sic) Profundidade abissal, vê-se logo. Não satisfeito, emendou logo a seguir: “O conhecimento nos assegura liberdade e independência!” Claro que ele deu o salto de pensamento aqui, passando da independência política comemorada no Dia da Pátria para a independência do Ser, pessoal, algo bem mais dificultoso e problemático.

Mas Matarazzo me levou a pensar, preciso reconhecer. Qual conhecimento nos liberta? Não o lixo que as universidades, tomadas por niilistas militantes, ensinam para nossa juventude. Nem mesmo o conhecimento técnico é libertador, posto que meramente instrumental.  O conhecimento que liberta é a filosofia e a religião, a grande literatura, que nos liga com a fonte transcendente, que nos descortina as profundezas abissais da Origem, da História, de Deus. Mas não creio que Andrea Matarazzo tenha pensado nisso, embora tenha intuído. Matarazzo é um dos meus (per)seguidos prediletos, tal a sua loquacidade. É meu (per)seguido da estimação. Seu pensamento é uma ânsia de escalar os cumes ensolarados do saber para quem está acorrentado irremediavelmente no nível rés do chão da filosofia.

Voltarei a esse tema mais vezes.

{slide=Artigos Relacionados}{loadposition insidecontent}{/slide}

{slide=Artigos do Mesmo Autor}{loadposition insidecontent2}{/slide}