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MSM indica: lançamento da revista Dicta & Contradicta e trecho de ensaio de Olavo de Carvalho

1 de junho de 2009 - 5:43:49

Além da entrevista com o ex-presidente, destacam-se no conteúdo da terceira
Dicta & Contradicta o relato de Ivo Barroso sobre o encontro de Fernando Pessoa e Aleister Crowley, um provocativo artigo do filósofo Roger Scruton acerca das diferenças entre o Islã e o Ocidente, e um ensaio sobre ciência política de João Pereira Coutinho, articulista conhecido pela perspicácia e criatividade na forma de abordar temas como política, história, cultura e literatura.

Integrando o notável time de autores presentes nas páginas da “Dicta”, Olavo de Carvalho, filósofo e fundador do site de opinião política, cultural e de media watch Mídia Sem Máscara apresentará aos leitores um pouco da grandeza e densidade da obra filosófica de Mário Ferreira dos Santos, cujo desconhecimento por parte das cabeças tidas como pensantes no Brasil só evidencia a total derrocada cultural e civilizacional de um país que ainda não soube aproveitar o que de melhor seus cidadãos ofereceram à nação.

O MSM indica a palestra de Gianneti da Fonseca e apresenta aqui um breve trecho deste ensaio de Olavo de Carvalho sobre a monumental de Mário Ferreira, que estará presente na terceira edição da revista Dicta & Contradicta.

Os problemas que Mário enfrentou foram os mais altos e complexos da filosofia, mas, por isso mesmo, estão tão acima das cogitações banais da nossa intelectualidade, que esta não poderia defrontar-se com ele sem passar por uma metanóia, uma conversão do espírito, a descoberta de uma dimensão ignorada e infinita. Foi talvez a premonição inconsciente do terror e do espanto – do thambos aristotélico – que a impeliu a fugir dessa experiência, buscando abrigo nas suas miudezas usuais e definhando pouco a pouco, até chegar à nulidade completa; decerto o maior fenômeno de auto-aniquilação intelectual já transcorrido em tempo tão breve em qualquer época ou país. A desproporção entre o nosso filósofo e os seus contemporâneos – muito superiores, no entanto, à atual geração – mede-se por um episódio transcorrido num centro anarquista, em data que agora me escapa, quando se defrontaram, num debate, Mário e o então mais eminente intelectual oficial do Partido Comunista Brasileiro, Caio Prado Júnior. Caio falou primeiro, respondendo desde o ponto de vista marxista à questão proposta como Leitmotiv do debate. Quando ele terminou, Mário se ergueu e disse mais ou menos o seguinte:

– Lamento informar, mas o ponto de vista marxista sobre os tópicos escolhidos não é o que você expôs. Vou portanto refazer a sua conferência antes de fazer a minha.

E assim fez. Muito apreciado no grupo anarquista, não por ser integralmente um anarquista ele próprio, mas por defender as idéias econômicas de Pierre-Joseph Proudhon, Mário jamais foi perdoado pelos comunistas por esse vexame imposto a uma vaca sagrada do Partidão. O fato pode ter contribuído em algo para o muro de silêncio que cercou a obra do filósofo desde a sua morte. O Partido Comunista sempre se arrogou a autoridade de tirar de circulação os autores que o incomodavam, usando para isso a rede de seus agentes colocados em altos postos na mídia, no mundo editorial e no sistema de ensino. A lista dos condenados ao ostracismo é grande e notável. Mas, no caso de Mário, não creio que tenha sido esse o fator decisivo. O Brasil preferiu ignorar o filósofo simplesmente porque não sabia do que ele estava falando. Essa confissão coletiva de inépcia tem, decerto, o atenuante de que as obras do filósofo, publicadas por ele mesmo e vendidas de porta em porta com um sucesso que contrastava pateticamente com a ausência completa de menções a respeito na mídia cultural, vinham impressas com tantos erros de omissões, frases truncadas e erros gerais de revisão, que sua leitura se tornava um verdadeiro suplício até para os estudiosos mais interessados – o que, decerto, explica mas não justifica. A desproporção evidenciada naquele episódio torna-se ainda mais eloqüente porque o marxismo era o centro dominante ou único dos interesses intelectuais de Caio Prado Júnior, ao passo que, no horizonte infinitamente mais vasto dos campos de estudo de Mário Ferreira, era apenas um detalhe ao qual ele não poderia ter dedicado senão alguns meses de atenção: nesses meses, aprendera mais do que o especialista que dedicara ao assunto uma vida inteira.

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