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Nerd Sem Máscara: No episódio de hoje…

6 de setembro de 2009 - 19:23:24

Uma crítica que sempre fazíamos aos desenhos americanos é que, além de não serem tão bem desenhados e da própria animação ser inferior, eles estragavam tudo com um tedioso moralismo enquanto os animes corajosamente entravam em ambiguidades morais e tramas complexas. Desenho americano não tinha sangue. Desenho americano tinha sempre “moral da história”, sendo o exemplo maior disso os últimos minutos de He-Man e She-Ra nos quais algum dos personagens principais viam explicar tim-tim por tim-tim caso não tivéssemos sacado. Apesar de tudo, como o Youtube nos mostra, as lições de moral do He-Man se revelaram proféticas, explicando a crise bancária, os parasitas da fé alheia e até dando uma dica para o pessoal do MST (http://www.youtube.com/watch?v=0vPsrup6CMg).

Um dos “moralismos americanos” mais recorrentes era que a pertença ao grupo, ao coletivo, era um valor máximo. Podíamos assistir isso em vários dos desenhos e filmes da época. O cara que queria “ir sozinho”, “ir pelo caminho diferente”, era, nos filmes, o que morria, e nos desenhos o que acabava envergonhado. Os que seguiam as regras, os que submetiam-se à “turma” eram os que se davam bem ou sobreviviam. Agora, de onde via essa moral coletivista na terra do self-made man? Groo explica.

Ok, na verdade, não o Groo, mas um de seus criadores, Mark Evanier. O “señor” Evanier, como o chama seu parceiro Aragonés, também foi um dos muitos roteiristas do desenho “Caverna do Dragão”, sucesso estrondoso no Brasil e apenas razoável nos EUA. Também neste desenho, tínhamos o individualista, que era o Eric, e que sempre pagava caro por pensar e agir diferente do grupo, sendo retratado como egoísta. Mark detestava o Eric. E sendo um roteirista e desenvolvedor, por que ele tinha um personagem que detestava em uma criação sua? Ele mesmo explica, e a força do testemunho de um profissional que era um “insider” da indústria de animação americana dos anos 80 e respeitado roteirista não é pouca.

“Por que deixei o Eric ali? Eu tinha que deixar.

Como talvez vocês saibam, existem pessoas por aí que tentam influenciar o conteúdo dos programas de crianças. Nós os chamamos de “grupos de pais”, embora muitos não sejam compostos de pais, ou, pelo menos, não de gente cujo interesse primário seja enquanto pais. Estude-os e vai encontrar uma vasta gama de agendas políticas… e eu suspeito que, em alguns casos, seus objetivos declarados estão bem longe dos seus objetivos reais.

Ainda assim, todos eles querem que a TV infantil seja mais enriquecedora e redentora, pelo menos segundo as definições deles. E, naquela época, eles tinham influência o suficiente para fazer as redes de TV se curvarem. Consultores eram trazidos e nós, o pessoal que escrevia os desenhos, recebíamos ordens para incluir certas morais “pró-sociais” em nossos shows. Na época a mora “pró-social” dominante era a seguinte: o grupo está sempre certo… quem reclama está sempre errado.

Essa era a mensagem de um número grande demais de desenhos dos anos 80. Se todos os seus amigos queriam pedir pizza e você queria um hambúrguer, você deveria se curvar à vontade da maioria e ir pegar pizza com eles. Tinha até um desenho da CBS (N.T. no Brasil passava no SBT) que se chamava “A Nossa Turma” (http://www.youtube.com/watch?v=a42_-7ayjMs), o qual era dedicado desavergonhadamente a esse princípio. Cada semana, algum dos amiguinhos da turma divergia do grupo e aprendia como estava errado por fazer isso.

Nós fomos forçados a inserir esta “lição” no “Caverna do Dragão” também, e era por isso que o Eric estava sempre dizendo “Eu não quero fazer isso” e pagando caro pela sua resistência social. Eu achava forçado e repetitivo, mas tinha objeções em particular à lição em si. Eu não acredito que temos que sempre nos dar bem com o grupo. Que tal pensarmos por você mesmo? Que tal desenvolver sua própria personalidade e ponto de vista? Que tal fazer as coisas porque você acha que elas são as coisas certas a serem feitas, e não porque a maioria decidiu e você perdeu?

A gente era proibido de ensinar essas coisas. A gente tinha que ensinar as crianças a fazerem parte de turmas. E então fazer tudo o que o resto da turma quisesse.

Que coisa estúpida para se ensinar às crianças.”

http://www.povonline.com/cols/COL145.htm

O testemunho de Evanier revela algumas coisas. Primeiro que o moralismo dos desenhos americanos, especialmente os da década de 80 (e vemos o padrão se repetir dali para a frente), não era a expressão espontânea da cultura americana, mas a intervenção planejada de movimentos sociais com agendas políticas com o fim de influenciar os EUA e todos os países para os quais eles vendiam seus produtos. Segundo que o poder desses movimentos sociais pró-coletivistas, já na década de 80, e nos EUA, era forte o suficiente para domar gigantescas redes de TV. Se isso acontecia a quase 30 anos atrás, não é surpreendente que as mesmas redes, depois de três décadas de submissas genuflexões perante esses movimentos, tenham introjetado a humilhação e passado a amar seus algozes, fazendo campanha servil e uníssona pelo ungido da esquerda americana.

O selvagem Wolverine sendo domado e sendo mais feliz com os X-Men. Muppet Babies. Thundercats. É mesmo difícil encontrar um desenho no qual a mensagem do “indivíduo que pensa por si é mau, junte-se à turma” não esteja presente. Quando você for para sua sessão “retrô” dos anos 80, veja os desenhos sob a luz do testemunho de Evanier. Mesmo nos desenhos mais inocentes, nos que nos eram mais queridos, movimentos ‘sociais’ estupravam nossa atenta e receptiva consciência infantil com a intenção de sufocar o nosso desenvolvimento enquanto pessoas autônomas. Queriam que fizéssemos parte do coletivo, que apenas considerássemos como boas as idéias que todos concordavam. E então entederemos que a “cultura de massa”, longe de ser uma decadência natural, é o intento calculado e planejado das ideologias responsáveis pelos “movimentos sociais”.

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