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Nerd Sem Máscara – O Inevitável Watchmen

18 de março de 2009 - 1:51:07

Watchmen marca a nona-arte porque nele os atos fantásticos dos super-heróis não são o assunto final do trabalho. Não se trata de apenas mostrar pessoas extraordinárias fazendo coisas extraordinárias para que o espectador projete-se neles. Ali, temos uma história com super-heróis, mas não sobre eles.
 
E qual seria, então, o assunto de Watchmen? A história, que se passa na década de 80, começa com um assassinato misterioso. Logo um dos super-heróis, o direitista conservador Rorschach, surge para investigá-lo. Sua primeira descoberta é que a vítima era a identidade secreta de um super-herói da velha guarda, o Comediante. Rorschach parte então para avisar sobre o fato seus ex-colegas do grupo Watchmen, uma espécie de “Liga da Justiça”, dado que estão todos agora involutariamente aposentados por uma lei de 1977 que proibia a atividade de vigilantes mascarados. Esta foi a primeira vez nos quadrinhos que se utilizou o argumento da proibição da atividade super-heróica que veríamos ainda em “Cavaleiro das Trevas” e mais tarde na animação “Os Incríveis” e na série da Marvel “Guerra Civil”. Já aí vemos uma das inúmeras questões levantadas pelo filme, já que a máscara do super-herói pode ser vista como uma metáfora do porte de armas, já que uma e outra representam o direito do cidadão comum de defender-se dos “vilões”. Teria o governo o direito do monopólio do uso dos “super-seres”? E os governos reais teriam o direito de tirar o direito do cidadão de reagir contra os crimes que são cometidos contra ele? O super-herói, afinal, nada mais é que um cidadão que, dotado de armas fantasiosas ou poderes que as substituem, assume a tarefa de auto-defesa da sociedade. O próprio fato de serem forçados a se mascararem de alguma forma já demonstra que no século 20 este direito era cobiçado maliciosamente pelos governos centralistas, já que para simplesmente defenderem-se eles precisavam agir no anonimato.
 
As questões levantadas por Watchmen, entretanto, não param aí. Na medida em que o direitista noir Rorschach vai avisando seus ex-companheiros, vamos enquadrando-os também. O primeiro é o Coruja, visivelmente inspirado no Batman (ainda que indiretamente pelo Besouro Azul): filho de pais milionários, utilizou sua fortuna para construir aparatos tecnológicos de combate ao crime e utiliza um uniforme que faz referência a uma criatura da noite. Longe de seus dias de glória, o Coruja atualmente vive uma vida insossa e frustrada de classe média, falido pelos seus gastos, barrigudo pela falta de exercícios e acovardada pela lei de 77, pela Guerra Fria e pela sua atitude de desistência frente aos seus sonhos e vocação. A seguir, conhecemos Ozymandias, também um ex-herói, que se aposentou dois anos antes da lei de 77 e criou em cima de sua antiga imagem um império comercial e industrial que permite que ele possa comprar todo o patrimônio de Lee Iacocca e outros bilionários juntos “três vezes”. Ozymandias é considerado o homem mais inteligente do mundo e participou de inúmeras experiências de expansão de consciência, além de ter incomparáveis habilidades marciais. Por fim, ele visita o único ser com super-poderes, que é o Dr. Manhantan e sua esposa e heroína também, a Espectral. O Dr. Manhantan é o gancho para as questões religiosas da história. Desintegrado em um teste de física nuclear, conseguiu reagrupar-se. Porém, voltou com uma visão dos “bastidores” da criação, podendo manipular a matéria quase como um deus, possuindo consciência plena de todos os momentos presentes, passados e futuros de sua vida e podendo estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Essa verdadeira “ascese materialista” não o torna uma pessoa melhor, porém cada vez mais frio e maquinal, como o próprio universo materialista sem Deus ao qual ele se uniu e que ele mesmo define como um “relógio sem relojoeiro”. Sua esposa, a Espectral, tornara-se heroína apenas para satisfazer sua mãe, uma heroína da geração anterior, e anteriormente atraída pelo exotismo do Dr. Manhantan, hoje vive em perene frustração dada a indiferença dele. Também deve conviver com sua exótica mãe que ainda hoje é apaixonada pelo homem que a estuprou. Enquanto isso, ao mesmo tempo, as relações entre a União Soviética e os Estados Unidos vão se acirrando, trazendo a sombra da guerra nuclear total bem próxima.
 
O vilão do filme, como vemos no final, manipula todos os super-heróis e mata dezenas de milhões com o objetivo de trazer o ideal da paz mundial. Seu “socialismo caviar” elitista é evidente para qualquer um que saiba que o socialismo é gerado e movido nas altas elites e não no proletariado. Sua atitude de colocar-se como salvador do mundo, planejador global de direito pelo simples fato de ter o poder de fazê-lo denuncia que afinal, o tema do filme, é nada mais nada menos que a mentalidade revolucionária ainda que o autor não conheça o termo. Para quem ainda não está familiarizado com o conceito, vale uma lida nos artigos seminais de Olavo de Carvalho sobre o assunto: “A Mentalidade Revolucionária” “Ainda a mentalidade revolucionária“.

De fato, a questão última que o filme coloca é: mesmo supondo que uma revolução global, que matasse milhões, pudesse atingir seu objetivo declarado de uma “sociedade mais justa”, seria espiritual, moral e eticamente correto obtê-la a este custo? Seria correto que esse “mundo melhor possível” fosse baseado na manipulação geral das consciências como faz o vilão? Aliás, seria correta a afirmação final do vilão para os super-heróis de que eles é que estariam errados em tentar detê-lo e ele é o herói? Sob tal contexto, o único que se mantém coerente o filme todo é o conservador Rorschach, que não aceita contemporizar com os sutis argumentos revolucionários do vilão, e através de um pequeno jornal conservador de direita inspirado exatamente nos “mediawatch” americanos e é tido como “paranóico” e “fanático” é que coloca a dúvida sobre se o vilão realmente teria tido sucesso ou não, denunciando-o.
 
O autor, Alan Moore, porém, nada tem de conservador. Praticante de paganismos exóticos, seu mérito maior é exatamente não ter sido panfletário ao criar a história e, assim, ao refletir as ideologias e crenças dos personagens, acabar dando a vitória moral ao direitista Rorschach em face da mentalidade revolucionária do vilão, à qual subjuga todos os demais. Na verdade a atitude dos outros personagens lembra bem a do personagem central de 1984 que morre tecendo louvores ao Grande Irmão. Eles concordam em participar da mentira em face dos “benefícios” que ela traz. Foram derrotados e subjugados pelo tamanho estonteante da revolução global trazida pelo vilão.

Watchmen é uma obra com super-heróis, mas é sobre política, religião, psicologia, sociologia e filosofia. É uma pena que o diretor tenha optado pelo excesso de sexo e violência que não estão presentes nos quadrinhos originais. Uma das super-heroínas da primeira geração era apenas brevemente mencionada como lésbica e, no filme, não apenas vemos sua parceira, como um beijo “caliente” entre as duas. A cena de sexo do Coruja e a Espectral em sua nave, também meramente insinuada no graphic novel, beira o soft porn. A quantidade de fraturas expostas e sangue também excedem em muito o original. Talvez por apelo, talvez por achar que isso seja um avanço, o diretor optou por tais inserções e temos apenas a lamentar por isso. No mais, entretanto, é um filme com muito o que se discutir e recomendável para todos os que se interessam por tais assuntos. Três vivas para Zack Snyder por tê-lo realizado e aguardemos para ver quem terá brio para transpor Sandman para o cinema.

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