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Nerd Sem Máscara: O Papel da Ficção Nerd

24 de abril de 2009 - 2:25:22

A ficção nerd – quadrinhos, séries de TV cult, filmes, videogames, RPGs, livros e assemelhados – cumpre para esta sub-cultura precisamente este papel na vida espiritual, psicológica e intelectual de seus consumidores. Possibilitando a imaginação de coisas positivas ou negativas, a ficção nerd tem um importante e, para os que não participam deste meio, insuspeito papel.
 
Não lembro onde li isso, mas parece que uma pesquisa na Nasa averiguou que cerca de 10% dos cientistas haviam chegado ali pelo interesse no espaço que lhe despertara a série Jornada nas Estrelas. Se for verdade isso, não é uma influência pequena para uma série isolada.
 
Buscando em minha experiência pessoal, conheci pessoas que despertaram seu interesse por história antiga a partir dos RPGs ambientados em tempos medievais. Outros descobriram seu interesse pelas ciências em ambientações de ficção científica. Eu mesmo devo admitir que ter lido o gnóstico Sandman, de Neil Gaiman, no qual encontramos o personagem principal sendo definido não como um “rei dos sonhos” ou “mestre dos sonhos”, nem como “conceito de sonho”, mas o próprio Sonho em si, sendo ele irmão de Destino, Morte, Destruição, das gêmeas Desespero e Desejo e Delírio (que já fora Deleite). Isso me ajudou muito a compreender as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo quando diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Não é uma metáfora. Não é um recurso de linguagem. Esta vida na qual eu existo é ela mesma Nosso Senhor Jesus Cristo e todo ataque à vida é um ataque a Ele mesmo.
 
Resta então saber que tipo de possibilidades a ficção nerd gera na imaginação das pessoas. Antes, porém, quero desmitificar duas posições desnecessariamente radicais. A de alguns grupos cristãos que consideram ler uma história do Thor praticamente igual a realizar um sacríficio ritual a um deus pagão, e a dos nerds que alegam que nada disso tem a menor influência nas pessoas.
 
Existe muita violência e sexo na ficção nerd. Às vezes, até formas francamente pervertidas. Às vezes, assuntos relacionados à bruxaria e satanismo (Constantine que o diga). O reflexo nerd é dizer “é só arte, uma coisa não tem nada a ver com a outra”. Minha resposta é: se os meios de mídia não tivessem influência até subconsciente nas pessoas, não se pagaria milhões para colocar a marca de um determinado produto, por segundos que seja, nas mãos de personagens principais de filme. Se as mídias não influenciassem as pessoas, não existiria merchandising, nem tampouco o merchandising social. É uma influência difusa com certeza, e os grupos cristãos erram apenas em crer que se trataria de uma correlação direta: ler Harry Potter e o sujeito vai logo em seguida buscar um coven neopagão para se unir. Não é assim. Mas, sim, cria uma dessensibilização quanto ao sobrenatural, à magia e mesmo à glamourização da coisa. Os vampiros charmosos e bad boys, um efeito provavelmente primeiramente do filme “Garotos Perdidos” e depois da autora Anne Rice (*), são um perfeito comercial de que uma pitada de maldade não é tão má assim se for charmosa ou se o “malvado” conseguir “direcioná-la” para o bem. Aliás, este é um tema recorrente em várias histórias, o da possibilidade de utilizar algo intrinsecamente mal para fazer o bem, o que, de certa forma é um dos fundamentos da mentalidade revolucionária.
 
De toda forma, o ponto é que *sim*, toda essa violência, sexo, feitiçaria, influenciam sim, mesmo que essa não seja a intenção do autor, embora não da forma direta como alegam alguns grupos cristãos. E influenciam precisamente porque agem no campo imaginativo da alma, abrindo possibilidades cognitivas e não relações causais. Em “Hellboy”, fica apenas a impressão de que um demônio pode ser bom, afinal de contas, assim difusa mesmo, conscientemente talvez até renegada conscientemente. Mas o símbolo marca e deixa a pessoa preparada para “olhar com outros olhos” pessoas que até então eram tidas como “malvadas” na sociedade. Uma possibilidade existencial se abriu ali.
 
Igualmente, ao ver um personagem como o Super-Homem, que possui poder pessoal para facilmente se tornar ditador do mundo e ao contrário, prefere ser um homem comum ajudando apenas pontualmente (**), abre-se a possibilidade da negação mais fundamental da síndrome de salvador do mundo, o único homem que poderia sozinho mudar o mundo compreende que não deve fazê-lo e abdica desta possibilidade, baseado tão somente em sua criação conservadora (e metodista!) do interior do Kansas.
 
Na prática, o consumidor dessas mídias acaba selecionando o que nelas mais o agrada. O sujeito pode consumir coisas bisonhas como os mangás pornográficos conhecidos como Hentai até séries que resgatam épocas mais inocentes dos quadrinhos como a série All-Star, da DC Comics.
 
Entretanto, é notável que a indústria nerd tem uma inclinação para o lado não-cristão e esquerdista da balança. Tolkien criou seu mundo de fantasia fundamentando-o em valores e princípios da Igreja Romana, e com isso acabou criando todo um nicho de ficção de fantasia baseada em elfos, magos e dragões, espalhando-se por diversas mídias. Entretanto, as expressões derivadas, longe de se aterem aos valores cristãos originais, mais normalmente os abandonam de todo. Um fato notável é que o notório “Comic Books Code”, uma série de parâmetros que efetivamente censuravam determinados assuntos das histórias em quadrinhos nos Estados Unidos, e que foi responsável pela infantilização da mídia, até 1989 ainda incluía temas religiosos como proibidos. Outro fato de destaque é que Terry Moore, autor da série “Estranhos no Paraíso”, conhecida por tratar de forma “sensível” o amor lésbico de uma das personagens principais pela sua amiga, deu a seguinte declaração em uma entrevista sobre um dos personagens da série ter se confessado cristão:
 
“Então, eu estava tentando pensar ‘O que ele tem pra revelar?’. Por alguma razão me bateu que não havia cristãos de verdade nos quadrinhos, ou nos quadrinhos mainstream pelo menos. Eu pensei, ‘Bem, essa seria uma das coisas mais revolucionárias que eu poderia fazer agora’, porque estávamos no auge de coisas do tipo Preacher e Son of Satan, e assemelhados. Todo mundo estava tentando ser o mais blasfemo que pudesse, ou pelo menos tentando parecer que ia na corrente do blasfemo, e eu pensei que uma das coisas mais rebeldes que o David podia fazer era dizer ‘Eu sou cristão’. Quer dizer, ele era o único do qual eu podia pensar. Não havia nenhum cristão nos quadrinhos, nenhunzinho que eu pudesse pensar. Então eu pensei: ‘Bem, eu vou fazer isso’. E vou fazer com o mesmo tipo de atitude ‘na sua cara’ que tinha tratado o lance lésbico da Emma, a morte por AIDS e tudo aquilo. Tá aí. Bum! Lide com isso”.
 
DEPPEY: Agora que você falou, não existem lá muitas representações positivias do Cristianismo nos quadrinhos. Ou mesmo na mídia em geral. E quando tem, é geralmente visto pelo liberais como uma concessão aos “estados vermelhos” (N.T.: conservadores).
 
MOORE: Exatamente. Quer dizer, ser um cristão hoje em dia é a coisa mais sem graça que você poderia ser, seja nos quadrinhos, na literatura, na TV, num filme ou o que quer que seja. No que se refere à cultura pop, para alguém se levantar e dizer: ‘Sou um cristão’, essa pessoa teria que ser muito anti-establishment. A menos que esteja no meio do “Cinturão da Bíblia” (N.T.:Área dos EUA onde a devoção religiosa é pública e fervorosa), cercado de igrejas ou algo assim. Mas você sabe, na cultura mainstream, isso simplesmente não é mais aceitável. O que apenas tornou a coisa mais divertida para mim. Eu gosto de por o dedo na cara tanto do establishment quanto na cara da revolução. http://www.tcj.com/276/i_tmoore.html
 
A ficção nerd, portanto, segue o establishment atual de considerar o cristianismo e a tradição “uncool”, ou seja, não maneira, brega, intolerante. Neste ponto temos, infelizmente, uma convergência muito ruim. Trabalhos cristãos, mesmo que sejam como o de Tolkien, isto é, não são propaganda teológica, mas um real trabalho de arte *inspirado* no Cristianismo, ficam relegados a serem uma sub-cultura de uma sub-cultura e mal vistos como meros instrumentos de proselitismo. Em parte isso é culpa do preconceito dos consumidores de ficção pop, mas também existe o problema que a falta de exposição continuada não ajuda os autores a desenvolverem sua técnica e alguns trabalhos ficam realmente deixando a dever.
 
O resultado disto tudo é, portanto, que a ficção nerd, de forma geral é, na melhor das hipóteses, neutras quanto aos valores conservadores, não hesitando em mostrar personagens como Super-Homem e Batman, mas com um forte e decidido viés revolucionário que, não raro, resvala para apresentações de conceitos gnósticos e satânicos como na série Vertigo. Não induzem ninguém a se tornar satanista, mas abrem a percepção poética da pessoa de forma limitada e enviesada apenas para o lado revolucionário e pagão (e, às vezes, satânico mesmo). A religiosidade cristã é praticamente ausente e quando presente é retratada de forma anódina ou francamente negativa. Isso, entretanto, não impede que determinados trabalhos tragam valores admiráveis, especialmente quando o autor é avesso ao mainstream revolucionário – o principal deles e mais recomendável na opinião deste autor, nos quadrinhos, sendo talvez o Frank Miller.
 
___________________
(*) A autora Anne Rice, que escreveu “Entrevista com o Vampiro” e vários outros que seguem as histórias de personagens do livro inicial, com cenas de vampirismo, bissexualismo e outras depravações, retornou à fé da Igreja Romana, tendo não apenas renegado sua obra anterior, como iniciou uma nova série de caráter cristão em busca de redenção pela influência perniciosa anterior. Que Deus seja louvado pela conversão dela e que seu novo trabalho seja cada vez mais bem sucedido. Vejam o site da autora:http://www.annerice.com/ Alguns livros da nova série cristã “Cristo Senhor” já foram traduzidos: “Cristo Senhor: A Saída do Egito” e “Cristo Senhor: Estrada para Caná”. Ao que parece ainda não traduzida, há também a história autobiográfica “Called Out of Darkness: A Spiritual Confession” (Chamada para Fora das Trevas: Uma Confissão Espiritual) e no plero estão “Angel Time” (Tempo do Anjo) e o último da trilogia “Christ the Lord: The Kingdom of Heaven” (Cristo Senhor: O Reino dos Céus).
 
(**) Em um artigo posterior, falarei a respeito de uma história da série “Túnel do Tempo”, “A Foice e o Martelo”, na qual vemos o Super-Homem de um universo alternativo, no qual ele foi criado não segundo os valores tradicionais dos EUA, mas segundo a ideologia soviética. É uma das melhores e mais inteligentes histórias do Super-Homem em tempos recentes.

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