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O candidato Ciro

20 de outubro de 2009 - 5:32:28

Pura charlatanice. Uma vez no poder, os únicos problemas resolvidos sãos os do próprio candidato, familiares e corriola partidária, que se tornam milionários da noite para o dia e melhoram ainda mais (materialmente) a qualidade de suas vidas. Os “pepinos” reais, os que levam a população ao desespero – estes se multiplicam.

O falecido Leonel Brizola, por exemplo. Sem nunca ter dado duro um só dia na vida, era um sujeito rico, auferia bons salários e mordomias de praxe nos cargos públicos que ocupava, e ainda mantinha ricas propriedades no vizinho Uruguai. No entanto, quando vivo, nas suas pendengas eleitorais, diante de um público perplexo, assumia tom de cômica indignação, erguia o dedo e jurava que, uma vez eleito presidente da República, salvaria o Brasil liquidando, sem pagar, as “perdas internacionais” – seu bode expiatório predileto. Sim, todo aquele trololó causava imenso tédio. Mas em qualquer circunstância, na simples inauguração de um chafariz, lá vinha o “Centauro dos Pampas” (metade cavalo, metade asno) com as suas “perdas internacionais”. Resultado: embora se candidatasse várias vezes, morreu sem colocar no bolso a farta grana presidencial.

O truque de Ciro Gomes para se manter como “bengalinha” na rendosa atividade política é o de apresentar-se como providencial candidato à presidência da República. Ele já foi candidato por duas vezes e, no momento, ameaça uma terceira candidatura. Muito falante, e desta vez privado da assessoria de Mangabeira Unger (o “Dr. Strangelove”), Ciro Gomes, já em campanha, tira da manga do paletó a promessa de que, agora, seu projeto de governo será dar continuidade – para melhor – aos feitos de Lula na presidência da República.

Ciro Gomes, cearense nascido em São Paulo, é um tipo psicológico curioso no cenário político nacional. Segundo se diz, começou em 1979 como um candidato derrotado da “direita” à vice-presidência da UNE, encruado “laboratório” político da esquerda comunista. Logo em seguida, filiou-se à Arena, partido que dava sustentação política à “ditadura militar”, transformado depois em PDS, agremiação pela qual o nosso personagem elegeu-se deputado estadual, em 1982. No ano seguinte, intuindo no que ia dar os ventos da abertura política soprados pelos próprios militares, o deputado logo se transferiu para o PMDB, a taba redentora do Dr. Ulysses, onde se reelegeu em 1986.

Em 1988, para se fazer prefeito de Fortaleza e governador do Ceará, o personagem largou o PMDB e se transferiu para o PSDB, legenda dos tucanos, e aí ficou até 1996, quando, de olho na presidência da República, se mudou para o PPS, o antigo, impopular e desacreditado Partido Comunista Brasileiro. Neste partido, Ciro Gomes foi candidato derrotado em duas eleições presidenciais, a última delas, em 2002, perdida de forma canhestra para Lula e até mesmo o falso Garotinho (no justo dizer do locutor esportivo José Carlos Araújo, registrado em cartório como o “verdadeiro Garotinho”), candidato com base no Rio de Janeiro.

O ambicioso Ciro, no entanto, não desistiu. Para ter Lula como avalista de sua improvável candidatura em 2010, o deputado, de faro aguçado, largou o PPS e ingressou no PSB, legenda socialista da base aliada que já foi manipulada por acadêmicos marxistas, depois passou por mãos trotskistas, em seguida por comandos janistas, arraeszistas e garotinhozistas – sendo, no presente, carregada debaixo das axilas por Eduardo Campos, governador de Pernambuco e neto do falecido capataz Miguel Arraes.

Mais recentemente, “contra a sua vontade”, mas seguindo estratégia marota de Sua Santidade, Lula I, o obediente Ciro transferiu seu domicílio eleitoral para São Paulo, com dois objetivos pré-determinados: 1) Bater firme (de forma merecida, de resto) no costado do candidato Zé Serra, o Cavaleiro da Alma de Cortiça; 2) Angariar os votos da população nordestina que mora em São Paulo, quase o mesmo eleitorado que colocou Erundina Cabra Macho (nasceu na Paraíba) na prefeitura da capital.

(Falar em macho, conta-se em relato sucinto que o complexo de macheza cultivado por Ciro Gomes vem de sua convivência relâmpago com Collor de Mello, a quem – embora negue – procura imitar em atrevimento e palavras. Eis o relato: em 1991, o presidente deposto estava fazendo discurso em Juazeiro do Norte, ao lado de Ciro, governador do Ceará, quando a cabroeira da CUT começou a vaiá-lo. Diante do encolhimento de Ciro, o alagoano Collor alterou a voz e alertou a canalha circundante: “Vocês não me intimidam! Meu pai me dizia que eu nasci com aquilo roxo!”. Segundo psicanalistas da praça, Ciro, ego instável, ao testemunhar tal frenesi, teria assimilado (recalcado) a lição. Daí, quem sabe, ver-se hoje reconhecido como “língua de aluguel” – função que exercita com empenho e bravura, especialmente quando se encontra tomado pelo combustível da cólera).

O tipo psicológico do pré-candidato Ciro Gomes pode ser catalogado como o do “rebelde a favor”, o sujeito que chuta o pau da barraca, profere “verdades peremptórias” e fustiga o adversário escolhido com palavras ácidas. É quase um arquétipo. Boa parte do eleitorado brasileiro admira a postura de tipos assim, pois, como se sabe, somos uma nação composta por políticos melífluos, convenientes, escorregadios e, em larga escala, covardes.

O problema é que a rebeldia de tipos como Ciro Gomes se manifesta sempre de forma assimétrica, comendo pelas bordas, incapaz de insurgir-se contra o núcleo duro do Poderoso Chefão, justamente aquele que, no plano político, com suas manobras de perpetuação de poder, desfibra a alma da nação a ponto de transformá-la num imenso “puteiro a céu aberto” – para usar aqui, com perdão da palavra, expressão cara ao candidato Ciro.

Muitos desconhecem. Mas na campanha presidencial de 2002, o eleitorado brasileiro começou apostando na coragem cívica de Ciro Gomes que, de início, somou mais de 20% das intenções de votos, chegando a ficar na frente de Lula da Silva. Todavia, chamado às falas pelo entourage do Chefão, curvou as costas e serviu de escada para Lula “chegar lá” sem maiores problemas. Como recompensa, ganhou um ministério de 3ª categoria e o eterno privilégio de esgrimir pela inocência de Sua Santidade.

Com os devidos senões, o quadro acima descrito pode repetir-se como farsa na trajetória do candidato cearense, digo, paulista, em 2010. Claro, trata-se aqui de antevisão do que ocorreu em 2002, visto que Lula não abre mão de perpetuar-se no poder via a ex-guerrilheira Dilma Rousseff, nem tampouco se concebe o eleitorado paulista, de saco cheio com os petistas e aliados, levar de bandeja Ciro Gomes ao Palácio dos Bandeirantes. Resultado: dando Lula (Dilma), retorna o vosso “língua de aluguel” ao Ministério da Integração Nacional, quem sabe para pelejar com as infindáveis obras de transposição do São Francisco, um ótimo negócio para políticos e empreiteiros.

Até 2014, se eleições houver.

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