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O Caso Collor

22 de março de 2009 - 4:42:47

Houve também, no subcontinente – no calor da Guerra Fria, nos anos 1950 -, a histórica queda do tenente-coronel Jacobo Arbenz, imaturo presidente da Guatemala transformado em espoleta da Aliança Democrática Comunista (movimento radical onde o “Che” Guevara deu os primeiros passos de profissional da guerrilha), posto para fora do poder, com um simples piparote, pelo coronel Castilho Armas.

Isto, sem falar no assombroso caso do general portenho Domingo Perón, que, depois de expulso do poder, voltou do exílio (duas décadas depois) para a Casa Rosada, deixando a Argentina – via Isabelita, sua mulher – em outra bananosa.

Ainda no cenário da tragicômica luta pelo mando político em solo caboclo, cabe lembrar, como episódios marcantes, a folclórica renúncia de Jânio Quadros, conseqüência natural da ação das forças etílicas; a apressada fuga de Jango, que, a despeito do propalado “dispositivo militar inexpugnável”, correu para o Uruguai, largando o poder nas mãos dos militares sem ousar um pio; e, mais tarde, o incrível episódio Tancredo Neves, o sujeito que foi eleito presidente, mas nunca tomou posse (deixando, como vingança, o legado da maldição Sarney).

Mas, óbvio, com Collor de Mello a coisa funcionou diferente. Eleito presidente da República aos 40 anos de idade, ele traçou uma plataforma de governo que pretendia reduzir o tamanho do Estado e modernizar o País. Como uma tocha incandescente, sensibilizou o eleitorado e obteve nada menos de 35 milhões de votos, deixando Lula e o sindicalismo petista na rabeira. Mas, dois anos depois o alagoano foi logo escorraçado do cargo, sob o jugo de um bem orquestrado impeachment, o primeiro a ocorrer no Brasil.     

De fato, no fluxo e refluxo ideológico que acode periodicamente a vida política global, Collor de Mello tinha sido beneficiário dos princípios da abertura econômica (livre-mercado) impulsionados pela “Dama de Ferro” Margareth Thatcher, na Inglaterra, e ampliados com força reprodutiva pelo vigor do governo Reagan, nos Estados Unidos – ambos a jogar uma pá de cal sobre a insolvente economia do socialismo soviético.

No entanto, a despeito da força de sua imagem inicial de “Indiana Jones”, faltava a Collor, além de estrutura partidária e parlamentar, experiência política e substância cultural para enfrentar a sólida (e feroz) oposição esquerdista, que, já em 1990, passou a organizar a avassaladora mobilização dos sindicatos e dos “movimentos sociais” para derrubar, rápido e rasteiro, o presidente eleito. 

O próprio Collor – verdade seja dita -, com o PC Farias a tiracolo, alimentava no cotidiano um luxuoso estilo de vida, com carros suntuosos, lanchas, jet sky e a casa de jardins babilônicos – provocando, com tal comportamento, o justo ressentimento de boa parte da população que, no início do seu governo, tivera a poupança bloqueada pelos ardores da “estruturalista” Zélia Cardoso de Melo, então ministra da Fazenda.   

Além do mais, por excesso de ambição e a ausência de método e senso da realidade, o presidente noviço pretendia, de uma só tacada, reformar administrativamente o Estado, cortar subsídios, privatizar empresas estatais, abater (“com um só tiro”) a inflação, acabar com o clientelismo, reduzir o funcionalismo público, desregulamentar a economia e liberalizar o comércio, liquidar o déficit público, enxugar a burocracia, simplificar os impostos e restabelecer o crédito internacional – tudo, como foi dito à época, numa “operação grave, mas sem anestesia”.

Deu no que deu. 

Ocorrido o féretro presidencial, os chamados “cientistas políticos”, para dourar a pílula, passaram a enfatizar o papel da corrupção como o principal responsável pelo impeachment de Collor de Mello. Para alguns, como os “chutadores” norte-americanos Richard Downes e Keith S. Rosenn (“Corrupção e reforma política no Brasil” – FGV Editora, Rio, 1999), Collor, sem meias-tintas, “demonstrou ser mais um líder corrupto a se aproveitar do cargo importante para achacar em proveito próprio empreiteiros e outros candidatos a favores oficiais, tentando usar os recursos do Estado para encobrir seus deslizes” – e por isso caiu.

Aqui, como não poderia deixar de ser, reina a pura mistificação acadêmica: se a corrupção representasse uma ameaça real a um mandato de presidente – no Brasil ou na América Latina -, o governo de Lula da Silva e seu aparato corruptor, como mais mil escândalos contabilizados, não chegaria às bordas do “mensalão”, o colossal sistema de suborno parlamentar denunciado pelo “homem-bomba” Roberto Jefferson. Nem muito menos o governo do vaselina FHC, a recompor com bilhões de dólares dos cofres públicos as fraudes financeiras de bancos como o Nacional, muito familiar ao ex-presidente tucano.

Melhor se explica a queda de Collor pela junção de todas as forças esquerdistas que se fizeram  “hegemônicas”, não medindo limites, dentro e fora do aparelho do Estado, para vê-lo fora do poder  – ele e sua pretensa (mas correta) política “neoliberal”, motivo pelo qual o povo brasileiro o elegeu.

Agora, em face da eleição de Collor de Mello para presidir a Comissão de Infraestrutura do Senado, fragmento de poder insignificante obtido pela sua completa submissão à Lula, um jornalão alerta que o ex-presidente está dando “a volta por cima”, quem sabe o início do retorno ao Palácio do Planalto.

Tudo pode ocorrer no clima de realismo fantástico que acode a América Latina, mas no caso de Collor não há a menor chance. Ele simplesmente traiu o seu eleitorado, começando por trair a si mesmo. 

E no plano político, basta olhar, a real conquista de Collor foi a de ter assumido o posto de vassalo, isto pela mercê de Lula da Silva, seu algoz.

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