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O disparate do cardeal

31 de dezembro de 2009 - 6:24:47

Assim, essa gente programou encontros em cidades estrangeiras. Panamá, México, São José da Costa Rica viram o desfile desses anjinhos. Houve encontros para “salvar a paz” em Caracas, Tlaxcala e Mainz. A esta cidade alemã foram batalhões de magistrados, religiosos e jornalistas representando a “sociedade civil”, pois o ELN havia vetado lá a presença do governo de Ernesto Samper. Todos eles acreditavam que a paz estava na virada da esquina. Eu vi alguns desses “delegados” em Paris. Estavam convencidos de que “desta vez” haveria paz, sim. Depois veio a época não menos nefanda da zona desmilitarizada de Andrés Pastrana, a qual incluiu até um périplo pela Europa, em fevereiro de 2000, para sete dessas eminências (alguns que continuam ainda hoje ordenando matanças), que foram escoltados por Víctor Ricardo, alto comissariado da paz.

Álvaro Leyva Duran, grande mentor nessa época dos diálogos Pastrana-Tirofijo, desta vez não propôs que o governo do presidente Uribe frete um avião para levar Alfonso Cano e outros “comandantes”, com salvo-condutos que lhes abram todos os aeroportos da Europa ao diálogo com o cardeal Castrillón em Roma.

Após o vil seqüestro e assassinato de Luis Francisco Cuéllar, governador de Caquetá, tinham que premiar Alfonso Cano e Milton Toncel com outra viagem a Roma ou Paris? Por sorte o governo respondeu à iniciativa do cardeal com uma condição. César Mauricio Velásquez, secretario de imprensa da Casa de Nariño, declarou que esse diálogo “só será possível quando as FARC façam uma parada em suas atividades de guerra”, pois o Governo “não pode oferecer o diálogo quando a única coisa que eles oferecem é morte”. Para que esse encontro se realize, reiterou Velásquez, as FARC “devem decretar uma parada de atividades criminais”.

Como as FARC não renunciam à sua ação criminal, não haverá encontro. Em princípio. Pois a idéia parece que continua no ar. Iván Cepeda, braço direito da senadora Piedad Córdoba, disse à RCN que ainda falta saber qual será a resposta de Alfonso Cano à iniciativa do cardeal Castrillón. Portanto, a coisa não está descartada. Do mesmo modo, Cepeda disse que a libertação de Pablo Emilio Moncayo e Josué Calvo, e a entrega dos restos do major Julián Guevara, morto em poder das FARC, dependia agora, não só das gestões em curso como do problema das bases militares. Além disso, segundo esse ativista, o resgate dos outros 22 seqüestrados militares e policiais, dos quais não se fala agora, depende de que se inicie “o processo de intercâmbio humanitário”.

Antes do assassinato do governador Cuéllar, o governo havia aceitado as exigências das FARC para libertar Moncayo e Calvo. Agora as FARC põem novas dificuldades. Por isso a resposta de Uribe: “Além de ladrões, bufões!”, e a ordem de tentar o resgate militar de todos eles. Porém, nada sobre o que propõe o cardeal Castrillón.

A proposta inicial deste mostra que um alto prelado da Igreja católica em algum momento acreditou que o atual governo poderia dar um salto para trás em matéria de segurança. Que após uma atrocidade o mais adequado era fazer um gesto de capitulação. Isso é inquietante. Esse chamado do cardeal foi um balão de ensaio? Para ver quais candidatos e quais setores se agarravam a isso?

O estranho episódio do cardeal Castrillón mostra, em todo caso, que algumas personalidades, que deveriam ser prudentes no que dizem pelas conseqüências políticas que suas palavras possuem, esqueçam às vezes quem são e o que têm sido as FARC.

 

Tradução: Graça Salgueiro

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